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Trabalhador, cá fora

“Não é o trabalho, mas o saber trabalhar, que é o segredo do êxito no trabalho. Saber trabalhar quer dizer: não fazer um esforço inútil, persistir no esforço até ao fim, e saber reconstruir uma orientação quando se verificou que ela era, ou se tornou, errada.” Fernando Pessoa

Gonçalo Galvão Gomes


Uma das perguntas que me fazem com mais frequência desde que emigrei para a Alemanha, é sobre as diferenças laborais que encontrei no país, face à minha experiência profissional em Portugal. No mês em que celebrámos o dia do trabalhador, decidi então fazer uma pequena reflexão sobre o tema, sobre o que é o trabalho nos dois países e sobre as principais diferenças que encontrei.


Convém, desde já, dizer que esta análise será sempre muito subjetiva e tem em conta duas fases diferentes da minha carreira e dois estágios de vida distintos, que pela sua condição, oferecem diferenças na sua natureza intrínseca. É também importante esclarecer, que quando me refiro à Alemanha, falo especificamente de Berlim e de contextos demasiado internacionais para serem tidos como uma experiência de trabalho tradicionalmente alemã.


Há várias diferenças dignas de registo, mas aquela que para mim é evidente, desde o início, é a noção de equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Em Portugal, trabalhar fora de horas, não é apenas aceite, mas visto como um sinal de prestígio. O trabalhador que se prepara para sair pontualmente à sua hora, é encarado como se estivesse a desertar no meio de uma guerra; por outro lado, aquele que se pavoneia por ter ficado a trabalhar “até às tantas” goza de magnifica reputação, mesmo que produza menos em mais horas. Este fenómeno está tão sedimentado nos trabalhadores portugueses, que me recordo de um sentimento de mal-estar de cada vez que precisava de sair na minha hora por ter algum compromisso pessoal e que voluntariamente o justificaria, mesmo sem haver tal necessidade. Este hábito e esta cultura, criam um problema considerável na produtividade dos trabalhadores portugueses, para além do claro prejuízo na sua vida pessoal (o que também influencia a produtividade) e cria a ideia, muitas vezes inconsciente até, de que não é preciso trabalhar muito nas horas efetivas de trabalho porque se faz depois. Há uma dinâmica que se perde quando se pensa que a jornada não tem fim e que a nossa qualidade se define pelo número de horas acumuladas e não pelo trabalho efetivo que fizemos.

Foi na Alemanha que conheci o meu primeiro horário de trabalho real (que se aplica e não funciona apenas para a Autoridade para as Condições do Trabalho – ACT – ver) e foi por cá que comecei a trabalhar 40 horas por semana. No meu último emprego em Portugal, consideraria uma semana de 60 horas, uma espécie de low season.


Os alemães não só apreciam o tempo livre, como o tratam como uma espécie de culto. Ter atividades e hobbies (e levá-los a sério) é parte do quotidiano de uma grande parte da população.


Outra diferença que me surpreendeu foi constatar que na Alemanha, quando as pessoas estão doentes, não vão trabalhar. Em Portugal conheci pessoas que iam trabalhar depois de tratamentos de quimioterapia; aqui, falta-se quando se tem uma dor de cabeça. Quando cá cheguei, habituadíssimo a ir trabalhar em qualquer circunstância (ainda estou), nunca me passou pela cabeça que uma gripe ligeira ou uma constipação, fossem motivos suficientes para não comparecer no meu posto. Não só problemas de saúde considerados menores são motivo que justifica a ausência, como os próprios colegas e até superiores hierárquicos ficam incomodados com a presença de alguém que apresente sinais de mal-estar. A maioria dos patrões em Portugal, preferia um trabalhador debilitado a 50% da sua capacidade e com potencial para infetar o resto da equipa, do que alguém a faltar por ter uma gripe sazonal. O Covid terá alterado um pouco esta perspetiva, pelo menos por agora.


Trabalhar em Portugal é considerado um privilégio. No primeiro encontro de quadros de gestão da última empresa que representei em Portugal, o administrador com o pelouro dos recursos humanos, disse na apresentação e perante cerca de 50 novos gestores da empresa, que “temos que lembrar os nossos colaboradores, que ter trabalho nesta altura, é um privilégio”. Confesso que aquilo me deixou muito apreensivo. Em primeiro lugar porque, sendo eu alguém que acredita na liberdade e no poder de libertação através dos mercados livres e das trocas comerciais, é difícil olhar para uma relação desta natureza, de forma tão básica e paternalista. Um trabalhador gera riqueza e é remunerado por isso. Não há aqui qualquer favor.


Depois, porque soube de imediato, que aquelas palavras eram o preâmbulo para um caminho espinhoso.


O que aquele administrador (responsável pelos recursos humanos de uma das maiores empresas portuguesas) nos estava a dizer, é que nós também éramos privilegiados por estar ali e que iríamos ser lembrados disso muitas vezes. Este episódio ilustra uma tendência, que não se resume (infelizmente), ao caso que narrei. Em 17 anos de carreira, 11 passados em Portugal, nunca conheci uma realidade diferente. Todas as empresas, de forma mais ou menos explicita, vivem nesta ideia de que pagar um salário em troca de um serviço, é um favor e não uma obrigação.

Foto: Andrea Piacquadio - Pexels

Acabei por encontrar uma realidade bastante díspar na Alemanha. Claro que a diferença na situação económica dos dois países faz a diferença nesta equação. Se não existisse tanta riqueza, não existiriam tantas empresas e quando há menos oferta de emprego, há menos valorização dos trabalhadores. Mas e apesar isso, é também uma questão de mentalidade que ultrapassa fatores como remuneração ou relação procura/oferta. No meu (espinhoso) percurso inicial neste país, tive vários tipos de trabalho, mais e menos qualificados, e posso afirmar categoricamente, que me senti mais valorizado a trabalhar aqui nas limpezas, do que em Portugal a gerir equipas e liderar departamentos. A sociedade alemã valoriza o trabalho e quem produz e contribui, tem um estatuto de respeito.


O último ponto que vou mencionar, embora existissem muitos mais, é o poder das organizações de trabalhadores. Os sindicatos e as comissões de trabalhadores alemãs têm uma capacidade negocial sem paralelo. A grande vantagem é que as empresas são obrigadas a ter estas organizações à mesa e negociar a sério, enquanto em Portugal é quase sempre figurativo ou funciona apenas em alguns casos, nomeadamente na também alemã Autoeuropa. Mas não é tudo positivo, muitas destas organizações de trabalhadores têm agendas próprias, muitas vezes políticas ou baseadas em fundamentalismos ideológicos e bloqueiam as organizações, não as deixando inovar ou mudar processos e é um lobby que custa muito dinheiro às empresas, que em última análise, não o investem nos trabalhadores.


E fica por aqui a partilha da minha experiência. Um especial cumprimento a todos os trabalhadores que acompanham o nosso jornal e aos empresários das pequenas e médias empresas, que tanto respeito nos merecem, principalmente nesta altura difícil.

Melhores dias virão.


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