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“Todos sabemos desenhar”

"Caderno de Retratos - Memórias Imperfeitas", publicado em Outubro passado, é o último livro de Eduardo Salavisa (Edições Afrontamento). Outros títulos da colecção do autor incluem “Caderno do Porto” (2018, Edições Afrontamento), “Caderno da América Latina” (2017, Edições Afrontamento), ou “Diário de Viagem em Cabo Verde” (2010, Quimera).


Rita Guerreiro

Cadeirão que deu origem ao "Caderno de Retratos - Memórias Imperfeitas" © 2020 Eduardo Salavisa

Gosta de andar com as mãos livres e o seu “kit” de trabalho não é mais do que um pequeno caderno A6 e uma caneta preta. Já editou dezenas de livros, fez várias exposições, deu aulas e workshops. Mas, sobretudo, desenha. De preferência, de pé. E viaja. Dentro e fora de Portugal, porque, afinal, podemos viajar em qualquer lugar; tanto dá estarmos algures num país da América Latina como em plena praça do Martim Moniz em Lisboa.


Eduardo Salavisa nasceu em Lisboa, onde vive e trabalha. É licenciado em Design de Equipamento pela Escola de Belas Artes de Lisboa. Com o passar do tempo, foi dedicando sempre mais tempo à pintura e desenho, que o interessa particularmente “pelo seu carácter experimental e por ser mais um processo que um resultado”. Daí a nada chegou o interesse pelos Diários de Viagem, ou Diários Gráficos, uma vez que fazem o registo sistemático do quotidiano, “pelo seu carácter lúdico e simultaneamente didáctico”. Não são desenhos feitos para publicar, ainda que já tenha publicado vários ao longo dos últimos anos. Como o próprio gosta de explicar, este é um tipo de desenho experimental, inacabado. E não é perfeito, nem é suposto sê-lo. Muitos destes desenhos podem ser vistos no Diário Gráfico, o seu blog pessoal.

Diário Gráfico © 2009 Eduardo Salavisa

“Dois auto-retratos com a camisola USK, onde se pode ver o novo logotipo (camisola imaginada. O logotipo está com uma dimensão exagerada) ”


Eduardo Salavisa faz também parte do grupo de desenhadores urbanos, ou Urban Sketchers, um movimento de pessoas que fazem desenhos de observação e no local. Geralmente utilizam um pequeno caderno onde fazem apontamentos mais ou menos demorados, com uso de técnicas mistas que vão desde a simples esferográfica às aguarelas, podendo também incluir colagens ou texto. Este tipo de desenho é quase como “tirar uns apontamentos”. Eduardo Salavisa utiliza a sua esferográfica para anotar tudo aquilo que lhe interessa. A cor vem depois, em casa, com mais calma. Mas nem sempre.


Defende que o desenho é uma manipulação, não é uma coisa exacta: “Quando desenhamos uma praça onde múltiplas acções acontecem em simultâneo, escolhemos algumas para primeiro plano, outras para segundo, colocamos mais ênfase numas, menos ênfase noutras, usamos a cor ou não…”. Estes desenhos, ainda que muitas vezes sejam rápidos apontamentos ou esboços, não são necessariamente menos trabalhosos. “É preciso concentração. Por isso eu gosto de desenhar rapidamente e em pé, para não me acomodar muito”. Não raras vezes os desenhadores ficam completamente absortos enquanto trabalham. “Os Urban Sketchersajudam na parte da partilha, mas realmente o acto de desenhar é algo solitário”, explica ainda.


O lançamento do seu mais recente trabalho, "Caderno de Retratos - Memórias Imperfeitas" teve lugar a 17 de Outubro na Casa-Atelier Vieira da Silva, em Lisboa, seguido da exposição “Um Cadeirão e 96 Retratos”, patente no Museu Bordalo Pinheiro de 20 de Outubro a 29 de Novembro, também em Lisboa. Neste contexto, o Portugal Post esteve à conversa com Eduardo Salavisa, o desenhador errante, ou desenhador do quotidiano, que nos assegura que, tal como sabemos escrever, todos sabemos desenhar. E que a perfeição não deve ser o principal objectivo.


Há quantos anos desenhas?

Desenho desde sempre, uns tempos mais, outros menos.


Como definirias os momentos mais propícios para desenhar?

Não há momentos propícios, há momentos que queres que fiquem registados no caderno. Ou porque são graficamente apelativos ou por terem uma importância qualquer. Por vezes acontece não poderes desenhar, ou porque não tens os instrumentos ou por outra razão qualquer, e aí imaginas mentalmente o que farias. Acontece às vezes.

Museu Arqueológico do Carmo, Lisboa – Diário Gráfico © 2011 Eduardo Salavisa
“E o Porto aqui tão perto. A caminho da Foz.” - Diário Gráfico © 2017 Eduardo Salavisa

E como surgiram os Diários Gráficos/ Diários de Viagem?

Os Diários Gráficos foram incutidos aos alunos nas Belas Artes. Era um dos projectos que tínhamos que fazer na disciplina de Comunicação Visual, dada pelo professor Lagoa Henriques.O objectivo era nós adquirirmos o hábito de andar com o caderno. O pretexto foi fazermos o levantamento de uma certa zona da cidade durante um certo período de tempo.


Qual foi a zona de Lisboa que te coube?

Acho que a zona era igual para todos e era a zona do Chiado, à volta da Escola.


Voltando aqui ao tema central da entrevista, podes contar-nos como nasceu este teu novo trabalho "Caderno de retratos - memórias imperfeitas"? E a ideia do cadeirão, que foi depois o mote para a exposição?

Adoeci com uma doença incurável em Março. As pessoas começaram a visitar-me. Alguns eram desenhadores e o desenho surgiu naturalmente. Começámos a desenhar-nos uns aos outros. Alguns dos retratos publiquei no instagram. Depois a editora Afrontamento sugeriu fazer um livro. Comecei a retratá-los sempre na mesma cadeira que tinha cá em casa.


O cadeirão estava na minha sala e era o local melhor para as pessoas se sentarem. Depois passou a identificar as pessoas que eram desenhadas para o livro e/ou para a exposição.

Comecei a fazer os retratos em Julho. Nos primeiros não estava a pensar no livro. A partir duma certa altura, sim. Não convidei ninguém, não seleccionei e desenhei toda a gente que me visitou, até ao Lapin. O que perfez 93 retratos até Setembro. Nessa altura a editora disse que chegava, que o livro tinha atingido o máximo de páginas.


Leonor e Inês Farelo, netas de Eduardo Salavisa. © 2017 Eduardo Salavisa

Apesar das restrições resultantes da pandemia, o livro chegou a ter uma apresentação presencial no mês seguinte e também a exposição no Museu Bordalo Pinheiro…

Sim, o livro foi lançado na Casa-Atelier Vieira da Silva, juntamente com a exposição dos retratos que apareciam no livro. E mais 3 que entretanto tinha feito. Eram 96 no total. Na terça-feira seguinte a exposição foi para o museu Bordalo Pinheiro, com mais 28 desenhos que tinha feito durante o lançamento do livro. No fim de semana seguinte, sexta e sábado, fiz mais 49 retratos de pessoas que apareciam, que estiveram expostos até dia 8 de Novembro.


Fizeste 28 desenhos só durante o lançamento do livro?

Sim. E mais 49 no fim de semana seguinte, na sexta e no sábado. E mais 14 no último sábado. A exposição foi crescendo organicamente.


De todas as viagens que fizeste, qual foi a que mais te marcou e porquê?

Foi a viagem à América Latina, desde o México até ao Brasil, durante nove meses, sempre de camioneta. Que foi editada em livro. Marcou-me por causa do tempo que demorou a viagem. É completamente diferente fazeres uma viagem de dias ou mesmo de semanas e outra de meses.


Diário Gráfico. © 2013 Eduardo Salavisa.

“O sul do Chile é constituído por uma infinidade de ilhas. Entre elas há um conjunto chamado de Chiloé cuja capital é Castro. Esta cidade tem uma enorme catedral. Isso não é surpresa neste lado do mundo. Acontece em muitas cidades. A surpresa é a cor. Um amarelo e um lilás que parecem puxados por Photoshop.”

Diário Gráfico. © 2013 Eduardo Salavisa

“Quem visita o Machu Picchu estaciona, quase sempre, uns dias em Cusco, antiga capital do Império Inca. Foi nesta praça, cujo primeiro desenho foi feito a partir da varanda de um acolhedor café, que assassinaram o chefe Tupac Amaru, último revoltoso do domínio espanhol.”

Diário Gráfico. © 2013 Eduardo Salavisa

“Buenos Aires é constituída por uma enorme malha de ruas perpendiculares entre si. São ruas enormes de vários quarteirões. Aluguei um pequeno apartamento nesta rua, a calle Ayacucho, mas muito longe deste cruzamento, no bairro La Recoleta.”


Isso tem a ver com aquela frase que já disseste em vários workshops: “Quanto mais parecida com o quotidiano, melhor é a viagem”. Em nove meses, que tipo de rotina é que criaste nesta viagem e porque é que isso é importante para ti?

Sim, gosto de sentir que vivo ali. Gosto, por exemplo, de me levantar e ir sempre ao mesmo café, comprar o jornal local, dar dois dedos de conversa com o dono do café. São rotinas que faço no bairro onde vivo, e que gosto de ter tempo numa viagem para fazer o mesmo. E, para isso, é preciso tempo.


Depois da edição do livro houve também uma exposição na Casa dos Mundos, em Lisboa, com 18 cadernos de desenhos. Estiveste entre a Cidade do México e São Paulo, passaste por Ushuaia e fizeste estadias em 47 localidades. Como é viajar e desenhar? Seleccionas os locais que queres desenhar à priori ou vais ao sabor do vento? Não te sentes sobrecarregado às vezes?

Gosto de ter o mínimo de programa, ou mesmo sem programa nenhum, de andar por onde o instinto me leva. Claro que há sítios que são incontornáveis. Mas mesmo esses deverão ser desenhados de uma maneira pessoal, como eu os vivencio.


Sim, por vezes à noite, quando coloco cor nos desenhos, o trabalho é muito. Também é nesta altura que escrevo cartas.


E por falar em viagens, conheces a Alemanha?

Fui uma vez a Berlim, em Julho de 2007. Gostei muito. Mas não posso dizer que conheço.


Lembras-te do que visitaste?

Não me lembro do percurso que fiz. Mas, olhando para o meu caderno, sei que fui à ilha dos museus, nomeadamente ao Pergamon museum. Estive pela zona do Reichstag, mas não subi à cúpula porque estava uma grande fila. Fiquei-me deitado no relvado, a descansar, e foi quando fiz o desenho. Visitei o Museu do Cinema, andei também pela Alexanderplatz, Savignyplatz, praça Breitscheidplatz e ainda pelo Bairro de Charlottenburg, Prenzlauer Berg e pela OranienBurger Strasse. O Memorial aos Judeus impressionou-me bastante. Foi uma visão muito inesperada.


Diário Gráfico © 2007 Eduardo Salavisa

“Fui para Berlim com um caderno novo e com mais folhas, ou seja, com uma lombada maior. Além da habitual inibição de começar um caderno, a dificuldade de transporte no bolso também não ajuda. Quando me sentei neste relvado em frente ao Reichstag surgiu-me finalmente a vontade de desenhar. Mas não tive vontade de subir à cúpula de Norman Foster.”


Diário Gráfico © 2007 Eduardo Salavisa

“Tiergarten é um enorme espaço verde. Parece que no Inverno fica todo castanho e inóspito, mas agora parecia um bosque cheio de tons de verde e com caminhos onde se anda de bicicleta ou simplesmente a pé.

É atravessado por duas ruas largas e no seu cruzamento está a Deusa Vitória, que faz parte da nossa memória cinéfila.”


Porquê?

Eu não conhecia nem nunca tinha ouvido falar do Memorial ao Judeus. Impressionou-me muito e acho que é um monumento muito bem conseguido. Tem um lado enigmático, mas também lúdico, e, ao mesmo tempo, religioso. E opressivo também.


Diário Gráfico © 2007 Eduardo Salavisa

É uma praça dum tamanho enorme, com paralelepípedos cinzentos de dimensões diferentes em altura, desde raso até muito mais alto que uma pessoa. Estão dispostos em quadrícula. Pode ser usada, andando pelo meio ou sentando em cima. O impacto é impressionante e comovente.”


Li algures que tens 144 cadernos…

Sim, pode andar por esse número.


Como no caso de Berlim, em que os desenhos que fizeste te ajudam a lembrar da viagem à cidade, os cadernos são úteis para reavivar certas memórias. Costumas pegar neles de vez em quando para te lembrares de viagens antigas que fizeste?

Às vezes. Quando há um pretexto, como neste caso, em que me perguntam alguma coisa sobre determinada viagem.






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