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Rede Global da Diáspora: nova plataforma colaborativa

Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP – Associação Empresarial de Portugal conversou com o PT Post para apresentar e discutir a Rede Global da Diáspora, um projecto novo que visa colocar empresas e portugueses espalhados pelo mundo em contacto e interacção através de uma plataforma e aplicação elecrónicas de acesso e registo gratuitos.


TPP

Luís Miguel Ribeiro, Presidente da AEP

Portugal Post Rede Global da Diáspora: do que se trata, para quem e quais os objectivos a que se propõe?


Luís Miguel Ribeiro A rede global da diáspora é um projecto que é promovido pela Fundação AEP e que envolve um conjunto de instituições nacionais, desde instituições do governo nacional até institutos públicos – AICEP, Instituto Camões –, mas também muitos outros parceiros privados e muitas outras instituições com responsabilidades nesta área. O que é nós pretendemos? Dito de uma forma muito simples, objectiva e para que todos possamos perceber: Portugal é um país que tem o equivalente a metade da sua população espalhada pelo mundo, ou seja, cerca de 5 milhões de portugueses estão espalhados pelo mundo. E, felizmente, cada vez mais, os portugueses têm vindo a ser reconhecidos e são uma referência nos países onde estão: somos pessoas que nos aculturamos bem aos locais onde estamos, somos pessoas que criamos boas relações, somos competentes. Somos pessoas reconhecidas pelas nossas características, pela nossa capacidade de adaptação e, cada vez mais, Portugal e os portugueses são hoje um activo importantíssimo para o nosso país.


Ora, o que é que nos enquanto fundação, uma fundação de empresas, pensámos e porque é que construímos um projecto que pega neste activo e o coloca ao serviço do nosso país – servir o nosso país implica também servir as pessoas do nosso país que estão noutros países –? Portugal, na última década – infelizmente, estes últimos tempos da Covid vieram baralhar-nos as contas todas, vieram estragar tudo o que tinha vindo a ser feito –, registava exportações na ordem dos 44-45% PIB, ou seja, tinha crescido cerca de 14% numa década, um valor que começava a ganhar expressão e que ao nível da balança comercial nacional já tinha permitido o equilíbrio; aliás, já tínhamos superávite. Mas estávamos a ser exportadores com uma percentagem pequena de empresas, ou seja, só um número restrito de empresas é que estavam a contribuir para esta evolução das exportações.


Portugal precisa de aumentar a sua base exportadora. E precisa, porquê? Primeiro, porque não pode ficar dependente só destas empresas maiores; segundo, porque nós hoje temos nichos de mercado e nichos de produtos que são cada vez mais sofisticados, com mais design, com mais inovação, com mais qualidade, e podemos pôr empresas mais pequenas a encontrarem clientes noutros países que valorizem este tipo de produtos mais distintos, com mais valor acrescentado. Temos o exemplo do azeite, do vinho e de outros produtos que temos que, cada vez mais, têm mais qualidade e que estão mais sofisticados: há nichos de mercado que valorizam isso. Ora, para uma empresa de dimensão muito pequena que explora e tem esses produtos, ir procurar novos mercados, estabelecer contactos, etc., é difícil, aliás, os custos são caros e tornam isso inviável. Mas se nós tivermos portugueses, como temos noutras partes do mundo, que identifiquem essas oportunidades nesses países, que estabeleçam pontes, que possam criar essa possibilidade, estaremos a aumentar e potenciar o negócio, a potenciar a exportação deste tipo de produtos de valor acrescentado e a colocá-los noutros mercados. Por isso, cada português pode ser, para além de embaixador do nosso país, um agente comercial de muitas empresas nacionais.


Isto é também verdade em sentido contrário, ou seja, estive várias vezes que com comunidades emigrantes, em vários países, onde ouvia muitos portugueses, que felizmente foram bem sucedidos e ganharam dinheiro, dizer que estariam disponíveis a investir no país, mas que muitas vezes não sabiam como, não sabiam em quê, nem sabiam de que forma o poderiam fazer. Nós, com esta rede global, pretendemos também atrair investimento de portugueses que estão noutras partes do mundo, ou mesmo não sendo portugueses, de pessoas que portugueses conheçam e que queiram investir em Portugal, mas que precisam de ajuda, de informação, alguém que apresente um portefólio de oportunidades de investimento ou que resolva problemas seja ao nível de licenciamento ou etc.


A Rede Global da Diáspora centra-se numa plataforma que pretende ser um ponto de encontro de diferentes interesses – culturais, afectivos, de negócios, desportivos, ou seja, interessa colocarmos os portugueses que estão pelo mundo em contacto por via desta plataforma, contacto esse que pode trazer benefício para todos os que partilham esta plataforma.


Esta plataforma tem ainda uma outra característica que é muito interessante: vai permitir através de uma app, que podemos ter no nosso smartphone, possamos saber onde é que, em qualquer país que estejamos, existe um local para tomar um café português, ou um restaurante português ou uma instituição portuguesa, uma associação que seja ou qualquer outro produto ou serviço ou entidade portuguesa. Quero tomar um café português, que é uma coisa que quando vamos para fora temos muita saudade – café como o nosso, que não se toma em quase lado nenhum! , ou até gostava de ir encontrar um restaurante português, porque além de ir comer uma comida que me é mais familiar, vou poder conversar com alguém que é do meu país: esta é uma ferramenta que permite que Portugal e os portugueses em qualquer parte do mundo se possam encontrar e que possam, a partir daí, criar oportunidades, oportunidades essas que têm de ser boas para ambas as partes, como em qualquer negócio.


E que possamos, com isto, dar também cada vez mais força e aumentar o nosso ego, porque acho que, mais do que nunca, Portugal, é hoje um país reconhecido no mundo e, cada vez mais, os portugueses são reconhecidos no mundo. Nós começámos com emigrantes que, na altura, com aquele ADN português – determinação de ir à luta, de querer encontrar melhores oportunidades de vida, de querer proporcionar melhores condições de vida à sua família – foram por esse mundo fora, não sabendo falar a língua do destino, nem sabendo o que iam encontrar. Foram e conseguiram, criaram condições para que, depois, as segundas e terceiras gerações tenham hoje muito melhores condições de integração, mais formação e empregos mais qualificados, o que permite que este ‘rectângulozinho’ aqui à beira-mar plantado esteja bem representado pelo mundo, bem representado por estes portugueses. Temos de potenciar isto, isto é um activo enorme que o país tem! E se isto fazia sentido quando pensámos neste projecto, hoje depois deste período, no pós-Covid, fará ainda muito mais sentido.


PTP Porquê este projecto agora? Entende que o valor potencial dos portugueses residentes no estrangeiro tenha sido descurado no passado?


LMR Primeiro, este potencial, este activo, foi descurado no passado, embora isso tenha sido minimizado pelo facto das primeiras gerações de emigrantes terem tido o propósito de ir ganhando dinheiro num país estrangeiro para o investir no seu país de origem: Portugal não teve de fazer muito esforço para que os recursos, aquilo que os portugueses ganhavam fora, viessem para o país. Mas as gerações actuais já não têm a mesma visão nem a mesma vontade: não estão a trabalhar fora de Portugal com o propósito de investir numa casa em Portugal, como faziam as primeiras gerações de emigrantes. Nós temos de encontrar outras oportunidades que possam continuar a permitir que esses recursos, esse know-how, essa capacidade financeira, possa vir para Portugal. Não através investimento em casas e terrenos, mas pela via da capacidade de trazer esses portugueses para o nosso país novamente, retornando com a experiência que ganharam, ou para investir em start-ups, como as tecnológicas, ou para participarem logo em capitais de outras empresas que já existam, ou então, sendo pura e simplesmente agentes, embaixadores do nosso país e que possam com isso tirar o devido proveito e manter essa ligação. Eu acho que, apesar de tudo, mesmo estas novas gerações nunca perdem a ligação afectiva ao país, acho que o ser português está ali bem marcado e nós temos de potenciar isso. Por isso acho que não se perdeu tanto quanto se podia ter perdido, esse activo não foi trabalhado porque as pessoas, naturalmente, investiam e traziam o investimento para o nosso país. Hoje, e no futuro pós-Covid ainda mais, faz todo o sentido porque acho que Portugal vai ter de se voltar a relançar, vai ter de se voltar a reinventar e acho que este projecto – aliás, tenho a certeza – vai ser uma peça importantíssima para ajudar nesse relançamento da economia nacional.


PTP Como tem sido a adesão e como têm chegado a quem pretendem? Que números ambicionam e que mais têm planeado para os alcançar? Que dinâmica quer imprimir?


LMR Este projecto, em termos de adesão, está a correr bem. Tivemos aqui um contratempo, que nós e o mundo estamos a viver: a Covid-19. Tínhamos previsto a ir vários países para a fazer acções de promoção junto das comunidades portugueses e, com isso, alargarmos mais e mais rapidamente as adesões. Mesmo assim, já temos pessoas inscritas de 154 países, o que é muito interessante. Já temos milhares de pessoas registadas, temos cada vez mais empresas a estarem também presentes nesta plataforma. A inscrição na plataforma é gratuita e esta será tanto melhor para todos, quantas mais pessoas estiverem inscritas: www.redeglobal.pt.

É muito simples, passamos a estar todos ligados, passamos a poder todos comunicar mais um com os outros, a poder encontrar oportunidades para todos e, desta forma, fazermos crescer o nosso país. O nosso papel foi pensar e criar este instrumento, agora precisamos de partilhar, partilhar, partilhar, dar a conhecer e trazer pessoas para a plataforma.


PTP Qual a relevância da Alemanha para este projecto?


LMR A Alemanha sempre foi um país de referência para os portugueses e sempre foi um dos principais destinos de emigração. A comunidade portuguesa que vive na Alemanha é enorme, além daquilo que a Alemanha representa em termos económicos: a Alemanha é o motor da europa, a Alemanha é a indústria da Europa, a Alemanha continua a ser um país importantíssimo para as nossas exportações e, por isso, queremos que os portugueses que estão na Alemanha possam estreitar cada vez mais esta relação, fortalecer esta relação entre a Alemanha e Portugal para que possamos colocar na Alemanha muitos dos bons recursos que temos.

Sabe, tenho dito a alguns empresários que andam à procura de mercados longínquos, que as maiores oportunidades estavam aqui na Europa e continuo a acreditar nisso, porque são países onde nós temos esta ligação através dos portugueses que já lá temos, são países com poder de compra, são países evoluídos, são países mais seguros, são países em que o risco é menor, são países mais competitivos e para os quais a logística tem custos mais baixos. E continua a verificar-se que, neste momento a Alemanha, a França, a Espanha, a Itália, etc., muitos outros países europeus, continuam a ser para onde grande parte das nossas empresas continuam a exportar, continuam a ser grandes clientes nossos. Por isso, acho que temos de continuar a apostar e investir nesta relação. Apesar de serem mercados mais competitivos e exigentes para as nossas empresas, oferecem segurança, proximidade, cumprem compromissos, pagam atempadamente: tudo isso faz toda diferença! É preferível ganhar menos do que ter a perspectiva de ganhar mais, mas depois não se materializar.


PTP Ao longo dos anos têm surgido iniciativas que intentam criar redes de networking de portugueses espalhados pelo mundo. Ocorre-me, por exemplo, a Star Tracker e a Connect Portugal. Parece haver um hype, que depois se esvai. Como crê poder garantir a continuidade e sustentabilidade deste projecto, ditando-lhe uma sorte diferente de tentativas anteriores?


LMR Há uma coisa que eu sei, este projecto já esta a ser reconhecido e já temos aprovado o apoio financeiro para mais dois anos. Mas há outra coisa que eu sei: este projecto, pelo sucesso que vai ter, vai justificar-se por si mesmo e vai manter-se, porque vai ser um espaço que vai ser utilizado naturalmente, gratuitamente. As pessoas vão habituar-se a utilizar este espaço e, por isso, ele existirá por aquilo que representa, por aquilo que proporciona, pela forma como as pessoas se vão rever nas possibilidades de interacção através desta plataforma.


E, mais, porque nós somos uma entidade privada, somos uma associação de empresas porque é isso que distingue os empresários doutras entidades: pessoas com foco, com a determinação que quando apostam e investem num determinado projecto e este der resultados é para continuar, durar e manter.



PTP Como irá monitorizar o sucesso do projecto?


LMR Temos uma equipa que acompanha em permanência todas as adesões, todas as interacções e, naturalmente, vamos através desta equipa acompanhar de perto os contactos são estabelecidos entre empresas, para percebermos, de facto, o que é que isto está a potenciar em termos de negócio. Agora, haverão aqui resultados e valores que não teremos capacidade de termos em concreto, ou seja, se uma pessoa que está em Portugal e outra que está no Canadá estabelecer uma relação através da plataforma e, a partir dai, fizerem negócios entre elas, nós não vamos certamente conseguir acompanhar e perceber o volume de negócios gerado. Mas sabemos que estamos a potenciar esse negócio, isso para nós é fundamental e irá reflectir-se no país. Por isso temos uma equipa em permanência a promover, monitorizar, estabelecer contactos, a perceber se a plataforma está a funcionar exactamente da forma que se pretende e se está a criar os contactos, a pôr as pessoas a interagir e se precisa de ajustes, se há respostas que não estão a ser dadas, tentativas de contacto a ser feitas e a não obter resposta: isso estamos a monitorizar.


PTP Como é que este projecto é financiado? E qual o envolvimento do Governo português e das administrações públicas neste projecto? Não esperaria que parte do vosso propósito fosse já assegurado pelo Governo português?


LMR Nós temos o envolvimento da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, da Secretaria de Estado da Internacionalização, temos também a Direcção-Geral das Comunidades Madeirenses e Migrações, Direcção-Geral das Comunidades dos Açores, Turismo de Portugal, Instituto Camões, Rede das Câmaras de Comércio Portuguesas, associações empresariais. Por isso, temos o governo também envolvido nisto. Este projecto tem sido objecto de financiamento por fundos comunitários, o que nos tem permitido investir na constituição, criação desta plataforma e de termos uma equipa em permanência a trabalhar. Já foi, entretanto, aprovada a renovação desse financiamento por mais dois anos, até final de 2022. Ou seja, há aqui envolvimento público, há aqui envolvimento ao nível do governo, há aqui apoio financeiro.


Pretendemos, depois, potenciar esta rede e que o seu futuro possa ser assegurado por empresas que queriam estar presentes na plataforma e que paguem um valor para estarem lá, porque isso lhes vai trazer oportunidades de negócio e, como tal, será um investimento que estão a fazer. Esses seriam investimentos que permitiriam que a plataforma pudesse continuar a ter os seus recursos, para que pudesse pagar a uma equipa para estar a trabalhar em permanência, garantindo o seu funcionamento independentemente de apoios comunitários. Como sugeriu, isto não pode ser mais um daqueles espaços, plataformas que foram criadas e que, passado algum tempo, deixam de funcionar.


PTP Conhece projectos semelhantes noutros países?


LMR Sim, há vários projectos a nível europeu semelhantes a este. Na altura em que avançámos com este projecto fizemos algum benchmarking para identificar outros projectos. Penso que este nasceu bem, é um projecto bem acolhido e consensual ao nível de diferentes instituições.

PTP Este é um projecto da Fundação AEP. Qual a missão da fundação e em que medida é que este projecto se insere nela? Ouvi-o referir que integra o programa de responsabilidade social da Fundação – poderá elaborar?


LMR A AEP – Associação Empresarial de Portugal –, a maior no país, tem cerca de 2.000 associados, empresas, desde grandes empresas até empresas mais pequenas. Temos um conjunto de serviços que prestamos diariamente aos nossos associados, serviços específicos e de proximidade, desde o aconselhamento jurídico a serviços que têm a ver com o apoio à internacionalização. Temos anualmente cerca de 52 missões empresariais: no período antes do período Covid-19, viajávamos todas as semanas com os nossos empresários para participar em feiras, conferências, congressos internacionais. Prestamos apoio à consultoria nas nossas empresas com um programa que temos há mais de 20 anos, que é a consultoria formativa para ajudar o empresário a identificar áreas-problema dentro da empresa e, depois, encontrar soluções para ajudar a resolver. A questão da formação profissional, qualificação dos recursos humanos está também no ADN da AEP desde há 170 anos: a associação tem 171 anos e nasceu exactamente dum primeiro grande propósito, que foi a qualificação das pessoas que trabalhavam na indústria nessa altura; e, hoje, continuamos a ter uma forte ligação a essa área da qualificação dos recursos humanos. Por outro lado, temos um outro projecto que se chama Enterprise Network, que é uma rede europeia em que identificamos oportunidades de negócio para empresas nacionais, colocando em contacto as empresas nossas associadas com as empresas europeias que necessitam de fazer aquisições de bens produtos ou serviços. Isto para lhe dizer que a AEP tem uma matriz de apoio diário, de prestação de serviços aos seus associados, bem como a relação que mantém com o governo, o lobby que faz junto do governo, a reivindicação de exigências que os nossos empresários têm, envolvendo temas como a fiscalidade, infraestruturas ou um conjunto de outros temas que têm a ver com a actividade empresarial.


A fundação surge como complemento, actua a nível de responsabilidade social, trabalha muito os objectivos de crescimento sustentável, trabalha a área do empreendedorismo – estímulo, surgimento de nova classe empresarial, mais jovem – e tudo o que sejam condições de estímulo a criar melhores condições para as empresas. Tem agora um projecto que se chama ‘Desafio de 2030’, com o propósito de aproximar as universidades as empresas, para poder criar mais condições para que os processos de inovação possam estar cada vez mais presentes nas empresas, partilhando o conhecimento das universidades com as empresas. Há, depois, projectos com este da rede global: criar condições para que haja mais oportunidades.

De uma forma simples, em suma, a AEP trabalha mais ao nível dos serviços de apoio aos associados e reivindicação daquilo que são as suas exigências junto do governo nacional. A fundação trabalha as áreas complementares para criar melhores condições para que as empresas possam desenvolver a sua actividade, mas numa perspectiva mais abrangente e não da prestação de serviços, não do apoio diário a empresa: mais ao nível da reflexão e estudos, ao nível de produzir alguma reflexão critica e criando essas condições complementares que referi.


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