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Presidentes há muitos


Miguel Szymanski

Em plena ressaca das eleições presidenciais dos Estados Unidos da América, está já a arrancar a campanha para as presidenciais em Portugal, enquanto na Alemanha se debate quem irá liderar a CDU. Desde já, aceitam-se apostas para a ‘K-Frage’, a ‘Questão K’ em que o K significa Kanzler, ou seja, há que escolher, além de um novo presidente da CDU, também o candidato a chanceler, que não terão de ser necessariamente a mesma pessoa. Qualquer que seja o escolhido, irá, em Setembro do próximo ano, concorrer nas eleições para o Bundestag contra o cabeça de cartaz do SPD já conhecido: o ministro das Finanças Olaf Scholz. Para baralhar o jogo na Alemanha também os Verdes deverão, pela primeira vez, designar um candidato ou uma candidata a chanceler. Mas vamos por partes, para citar a famosa chávena de café ao cair no chão.


Nos EUA as eleições foram, em linguagem técnico-analítica, um bordel. O presidente em exercício, um psicopata narcisista com um historial de megalomania, só perdeu nas urnas por uma unha negra. A derrota de Trump, mais do que a vitória Biden foi o resultado do esforço conjunto da imprensa, das televisões, da indústria, e não teria acontecido se não tivesse sido a pandemia. É preocupante, mas essa é a verdade dos factos num país onde metade da população parece raciocinar num quadro mental formatado culturalmente entre os Westerns com John Wayne, as reportagens conspirativas da Fox News e exaltadas missas evangelicais.

Há nos EUA um clima que remete para a antiguidade, com as guerras entre os ’optimates’ e os ‘populares’, as duas grandes forças rivais durante a lenta fase terminal da República Romana; pelo meio, revoltas, de escravos e homens livres, campanhas e comícios eleitorais dos senadores do regime, que se endividam para comprar com sestércios distribuídos pelas ruas os votos dos eleitores, que organizam jogos, lutas de gladiadores e oferecem trigo em sacas antes das eleições. Depois do fim da República a extensão do Império Romano aumentou ainda durante mais um século e meio, numa fase da história em que tudo acontecia em câmara lenta, em que da margem direita do Reno para leste começava uma terra de selvagens, desconhecida, de pântanos onde hoje é Moscovo, a perder de vista até muito além da imaginação e a China era uma superpotência tão desconhecida e tão longínqua que ficava num universo paralelo. Nessa altura um século passava à velocidade de uma década das nossas. Hoje, um império entra em decadência, sem nunca ter realmente passado pela civilização, e colapsa em meia dúzia de anos.

Ilustração: pch.vector / Freepik

Quanto às presidenciais de Janeiro em Portugal: porque é que os 1,4 milhões de eleitores portugueses que vivem fora de Portugal não podem votar por correspondência nas presidenciais? Só na Alemanha há mais de cem mil portugueses que, para votar, são obrigados a fazê-lo presencialmente numa rede consular esparsa e mal equipada e a deslocar-se centenas de quilómetros para entregar o seu voto. Obviamente, a maioria abstém-se. Nas últimas presidenciais, de acordo com a Pordata, a abstenção dos eleitores portugueses no estrangeiro foi de 99%. Porque se recusa o governo a legislar para possibilitar o voto postal e porque se mantém tão discreto neste assunto o actual presidente da República? Será por saber que a maioria dos novos emigrantes saíram do país profundamente decepcionados com os seus governantes, quer do PS, quer do PSD?

E chegamos à figura do actual presidente da República. Desde que é presidente, fui a três jantares com Marcelo Rebelo de Sousa e foi sempre igual: à entrada cumprimenta calorosamente e diz uma ou duas frases simpáticas a cada um dos comensais que conhece, tipo “Ah, leio sempre as suas crónicas” ou “O Miguel é de extrema-esquerda” (com apego à verdade respondi “Olhe que não, olhe que não; não sou é do seu clube”), depois senta-se e começa a falar para não se calar mais. Passam-se horas; conta coisas interessantes e outras que desconhecia, aliás, duas categorias que tendem a excluir-se mutuamente nos monólogos presidenciais. Da penúltima vez, na Cidadela de Cascais que pertence à presidência da República, levantei-me, tão discretamente quanto possível da mesa de jantar meia hora depois do café, recuei três passos até à parede nas costas do PR, desapareci atrás de um cortinado, abri um janelão que dava para o jardim e fugi. Soube no dia seguinte que o solilóquio ainda continuou por mais duas horas e meia.


Como escritor dá vontade de escrever uma distopia para fugir à actual conjuntura: Em 2021 as Nações Unidas inauguram um retiro para ex-chefes de Estado. No refeitório do asilo, um homem com tom de pele alaranjado está de pé em cima de uma mesa a gritar “O presidente da América sou eu!”. “Pára com essa merda, cara. Mecê não é o único!”, diz o ex-presidente do Brasil que corre pela sala com um par de pistolas de brincar. Nesse momento entra alguém, de calções e barbatanas nos pés, e tenta acalmar os dois colegas. Abraça ora um ora o outro, dá-lhes beijinhos e diz: “Vamos lá tirar uma selfie, por três razões: primeiro porque...”, e nunca mais se cala.


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