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“Patrick” - primeiro filme de Gonçalo Waddington estreia na Alemanha

Selecionada para a secção competitiva do Festival de San Sebastián de 2019, “Patrick”, de Gonçalo Waddington, estreou em Portugal em 2020 e chega agora às salas alemãs a 15 de Julho. O filme tem estreia em 10 cidades, incluindo Berlim, Colónia, Dresden, Hannover ou Munique.


Rita Guerreira


Gonçalo Waddington é conhecido sobretudo como actor, nomeadamente pelos seus papéis em novelas ou séries de televisão, tais como Alves dos Reis, (2000), Ganância, (2001), Último a Sair, (2011), Odisseia, (2013) ou, mais recentemente, Teorias da Conspiração (2019). O actor, dramaturgo e encenador português estreou-se no ano passado na realização com “Patrick, uma produção luso-alemã.


O filme conta a história de Patrick, um rapaz que vive em Paris com o namorado, e cuja vida é uma sucessão de festas, drogas e sexo. Numa rusga durante uma dessas festas, Patrick é preso e a polícia descobre que, afinal, é Mário, um rapaz português desaparecido há 12 anos. É então levado de volta para a família em Portugal para recomeçar nova vida e, simultaneamente, colaborar na investigação e desmantelamento de uma rede de pedofilia.


A propósito da estreia do filme nas salas alemãs a partir de 15 de Julho, o PT Post conversou com Gonçalo Waddington. O realizador explicou a ideia por trás desta sua primeira obra, a construção - ou desconstrução - da identidade das personagens, contou-nos algumas peripécias das rodagens em quatro países diferentes (França, Bélgica, Alemanha e Portugal) e falou-nos, também, do impacto da pandemia no cinema e nas artes.

Um drama familiar protagonizado pelos jovens actores Hugo Fernandes e Alba Baptista, actriz com quem o PT Post falou em Março passado durante a 71. Berlinale, “Patrick” conta ainda com as participações de Teresa Sobral, Carla Maciel ou Adriano Carvalho.

© O Som e a Fúria

PT Post “Patrick” é o teu primeiro filme como realizador. Porque decidiste enveredar por este tema? Houve algo em particular que te motivou? Não é nada ligeiro para um primeiro trabalho em que tomas as rédeas da realização...


Gonçalo Waddington Bem, há uma história de há alguns anos atrás, antes do caso muito conhecido do Rui Pedro. Aconteceu eu ler um pequeno artigo sobre uma rapariga que foi encontrada de madrugada algures no norte de Espanha, que tinha fugido de um espaço qualquer muito exíguo onde tinha estado fechada junto com outras raparigas, e foi encontrada descalça. Ficou-me sempre essa imagem de fuga, desse terror de alguém que esteve encarcerada, raptada ou sequestrada, sei lá... Eu devia ter uns 20 anos na altura. Passado uns anos, aconteceu o caso do Rui Pedro. Houve bastantes filmes feitos, e que eu vi, que abordam a questão do rapto, mas normalmente da perspectiva de quem fica; os pais, a família, os amigos. E a mim sempre me estimulou a imaginação a questão: o que é que aconteceria a essa pessoa? Um caso mais recente aqui em Portugal, o da Maddie, que também teve contornos muito estranhos; assumindo que é um rapto, o que é que aconteceu a essa criança depois? E isso pôs-me a imaginar uma vida para lá do rapto. E quais seriam as sequelas desse rapto e a vida com alguém numa situação de captura. Quando eu senti que tinha uma história, depois imaginei que essa pessoa é obrigada a voltar para casa, é alguém que estava desaparecido há tanto tempo que às tantas já não quer regressar. Aí percebi que tinha o que precisava para escrever o filme.


PTP A história daí resultante é pura ficção, portanto?


GW Sim, pura ficção. Até porque, como disse, não foi a partir do caso do Rui Pedro que eu resolvi fazer isto. E, para mim, seria impensável fazer um filme sobre ele. Uma coisa é fazer uma investigação policial, ou do foro jornalístico. Mas tocar nesse assunto, para mim, eticamente, não estaria bem. E também porque quero usar a minha imaginação. [ A ideia deste filme foi ] tentar perceber o que é que se passou na cabeça daquele rapaz, uma pessoa que não tem capacidade intelectual para perceber o que se passou consigo, embora ele não seja de todo desprovido de inteligência. Não tem inteligência emocional para gerir aquele confronto de emoções - também não sei quem teria. Essa é que é a minha paleta de cores, é o cenário que eu quero imaginar como será. E também me interessava a questão: como é que nós lidamos com aquilo de que não se pode falar. Ele [ Patrick] consegue, de alguma forma, o que nós costumamos chamar “chutar a bola para a frente” ou “empurrar com a barriga”, ele está sempre a andar para a frente, do tipo; se eu páro, aquele tsunami engole-me. O passado, as memórias, o que for.


PTP O filme aborda a questão da identidade e o impacto do tempo e da distância, que nesta história são dois elementos essenciais. Patrick esteve ausente durante mais de uma década e regressa de repente a um mundo estranho ao qual tem dificuldade em adaptar-se.


GW Em 10 anos eu devo ter mudado muito. Claro que eu me reconheço como a mesma pessoa, mas eu sou eu sempre eu em relação ou em confronto com os outros. 10 anos é muito tempo. A meu ver, aquele polícia que andou à procura dele [ Patrick] e resolveu ir buscá-lo e levá-lo depois para Portugal, para ajudar a família, põe em andamento uma máquina que desencadeou um confronto. Um confronto com o passado, feito por pessoas que já não são as mesmas. Já não seriam se se tivessem separado em circunstâncias menos trágicas. Este é outro dos assuntos do filme: as pessoas, quando acham que estão a fazer o bem, às vezes não se apercebem que estão a fazer a pior coisa que há no planeta. Eu estive fora para as rodagens durante um mês e meio e [quando voltei ] os meus filhos estavam diferentes. De repente, há qualquer coisa que mudou. Mais uns milímetros, o nariz, a voz, a maneira como eles me falam…


PTP As expressões, palavras novas...


GW Sim, palavras, o que for. Os meus filhos mudaram! E eu falava com eles todos os dias, às vezes duas ou três vezes! Pronto, temos uma ligação diária… horária! (risos) Agora voltando ao filme, 10 anos nestas circunstâncias é uma vida… tanto que, a determinada altura do filme, a mãe entra no quarto à noite para ver o filho, achando que ele está a dormir, eventualmente, e encontra um rapaz, um homem. Aquele não é o filho dela. E para ele a mesma coisa.


PTP Achei interessante também a forma oposta como os pais reagem. Para a mãe, a vida ficou em suspenso desde o desaparecimento do filho, enquanto que para o pai “a vida continua”, como ele próprio diz no filme. No entanto, fica claro que não foi fácil para nenhum dos dois. Foi uma forma de mostrar reações diferentes à tragédia?


GW Eu acho que uma das coisas boas dos filmes e das histórias é quando tu, como espectador, entras em conflito interior e pensas: mas porquê que esta pessoa reage assim? Porque é que isto está a acontecer? Porque é que me estão a fazer pensar nisto? É muito fácil criticarmos. Eu estou dentro daquelas personagens todas e se pudesse, como actor, fazia aquelas personagens todas. Sou eu que estou a imaginar aquilo tudo. E é tão aceitável e compreensível, para mim, que a mãe não queira largar a memória do filho, aquela dor, o luto. E depois há aquela dimensão social da coisa, que é: se calhar as pessoas esperam que eu faça o luto? Isso está ali um bocadinho em pano de fundo, porque a zona é a Sertã e se calhar as pessoas são mais conservadoras. [Vemos como a mãe] mantém o quarto igual, limpa o pó à espera que o filho volte… de repente aquilo transforma-se numa espécie de mausoléu e, quando ele chega, encontra o quarto de quando era uma criança. É uma coisa de uma pessoa se pirar. E depois tens a reação do pai, que eu também acho aceitável, que é: a determinada altura tens que te agarrar à vida, como tu conseguires. No caso dele, o trabalho é um grande escape.

© O Som e a Fúria

PTP É uma ocupação, ajuda a arejar as ideias


GW Ora bem. É tudo aceitável. Ninguém sabe como reagiria numa situação destas.


PTP Voltando à personagem do Patrick/Mário, temos aqui esta dupla identidade que não sabemos bem em que pé fica… quem é que ele é?


GW Ele não tem um estado. Há uma expressão em inglês que eu acho que define isso perfeitamente e que não encontro a tradução em português: statelessness. As coisas que o definem, pátria, língua, sexualidade, são tudo coisas sem estado. Estamos a falar de uma pessoa que, consciente ou inconscientemente, ganhou novas raízes, criou uma nova identidade, uma nova língua e uma nova pátria. Quando ele vai para Portugal, está completamente a pairar em tudo. Não tem uma âncora. Essa é uma premissa do filme que é, ele quis conquistar a sua identidade. Alguém, aleatoriamente, o chamou de Patrick, mas às tantas ele próprio quis ser o Patrick.


PTP Quanto à prima Marta, aparece como uma espécie de bóia de salvação, uma esperança, mas que não dura muito… li uma entrevista da Alba Baptista que diz que esta personagem é uma espécie de mártir, o que podes dizer sobre ela?


GW Eu percebo o que a Alba diz em relação a isso. Eu acho que a prima Marta é mesmo uma luz no sentido em que faz as coisas com bondade e com bastante sensibilidade. Ela percebe que Patrick precisa de estabilidade. Que ele tem que ir ver outras coisas, ir à cidade, dar uns passeios. Percebe que ele precisa de uma injecção de positividade, que ela tem. E é com a prima que ele fala pela primeira vez das memórias da mãe, da casa. [No final] ele vira-se contra a pessoa mais frágil, que não tem nada a ver com aquilo. Depois do Patrick agredir a prima e perceber que, se ficasse ali, iria destruir ainda mais aquela família, é que ele foge e decide enfrentar aquele monstro, aquela voz que lhe não lhe sai da cabeça e que o controla à distância.


PTP Podes contar como surgiu a colaboração Alemã no filme?


GW No fim de 2015 recebemos a resposta do financiamento do ICA aqui em Portugal e, logo a seguir, em Fevereiro de 2016, fomos à Berlinale, ao European Film Market, onde há toda a actividade de compra, venda e distribuição. Participámos num projecto para primeiras obras, uma espécie de speed-dating, onde há uma sala com várias mesas com os potenciais produtores, distribuidores e sales agents e cada realizador faz o seu pitch, vende o filme. O produtor faz o seu pitch em termos financeiros e cria-se ali uma ligação com algumas pessoas. Antes, candidatas o filme, e podes ser escolhido ou não. No nosso caso, fomos escolhidos. E depois, se fores realizador ou produtor, recebes uma lista enorme de potenciais sales agentes, distribuidores e produtores. O Luís Urbano e a malta do Som e da Fúria já conheciam alguns parceiros e já tinham alguns contactos com quem já tinham trabalhado, conheciam a Match Factory... Aí conhecemos os dois produtores da Augenschein, que estavam muito entusiasmados. Entretanto, quase todas as produtoras de cinema têm escritórios em Hamburgo ou Colónia. Colónia é onde há mais dinheiro para a cultura. Muitas têm escritórios também em Berlim, mas não é daí que vem o financiamento.


PTP Berlim é mais criativa, mais artística, mais internacional.


GW Exacto. Filma-se muito lá, muitos actores e realizadores vivem em Berlim. A partir daí, tínhamos um acordo com a Match Factory e depois a ZDF entrou também como parceiro. Curiosamente, não tivemos co-produção francesa, que era o que nós pretendíamos. Já tínhamos escolhido os atores em França, tanto que o Hugo é francês, filho de pais portugueses. Colónia é bastante perto de Bruxelas e de Paris, dá para ir de comboio, e por isso levámos os actores todos para filmar em Colónia. Tínhamos um acordo de distribuição em França mas, com a pandemia, acabou por não acontecer. De repente, tudo atrasou e depois eles tinham muitos filmes para agendar… E eu não sou propriamente uma pessoa conhecida como realizador em França para esperarem pelo meu filme… (risos) Na Alemanha finalmente vai agora estrear, depois de ter estreado em Portugal no ano passado. Falei com a distribuidora e fizemos uma espécie de Q&A no zoom, porque eles queriam fazer aquilo que temos feito em vários sítios, que é uma sessão com perguntas do público no final. Mas ainda há muitas restrições. Se a situação melhorar, como o filme vai estrear em várias cidades, no final de Julho ou início de Agosto irei com todo o gosto. Numa circunstância normal, teria ido. Fiquei bastante triste por isso não acontecer. Tenho pena, mas é a vida.


PTP Pois é, o contexto não ajudou.


GW Estas coisas da pandemia e do confinamento mexeram muito com as possíveis compras e distribuição do filme noutros países. Ninguém comprou o filme, as salas estavam fechadas. E eu percebo que depois, quando voltam a poder comprar, também já saíram outros filmes...


PTP Os filmes também têm um tempo de vida limitado, não é? Em 2019 esteve em San Sebastián, estreou em Portugal no ano passado... não dá para esticar muito mais, imagino?


GW Não dá para esticar mais. E só está a estrear agora na Alemanha porque o país também esteve parado, muitos espaços de cultura estiveram fechados, e só agora está a voltar a abrir. Aqui em Portugal, o filme esteve no videoclube da Nós e depois há-de ir para um serviço de streaming, quem sabe a Filmin, uma plataforma espanhola que opera também em Portugal, que é muito interessante, ou a HBO Portugal, que tem um canal português. Porque realmente o streaming teve uma explosão durante a pandemia. A distribuidora alemã, Real Fiction, tem o filme em carteira para distribuir, senão provavelmente também o teriam posto em streaming. Mas ainda bem que esperaram e que vai estrear em cinema. Para todos os efeitos, é bom ter o filme numa sala.

© O Som e a Fúria

PTP Há que ver o copo meio-cheio. Então e outras coisas que tenhas em mãos, o que estás a fazer agora?


GW Sim, sim, sem dúvida. Neste momento vou realizar um episódio-piloto de uma série que desenvolvi com o autor do livro de contos “Da Família”, o Valério Romão. Cada conto é um episódio e nós ganhámos esse projecto de desenvolvimento e vamos filmar em Setembro para depois arranjar financiamento para a série. Também em Setembro, sairão os resultados dos próximos às primeiras obras. O apoio para as primeiras obras é para as duas primeiras, e eu vou agora para a segunda. Neste momento, temos um guião a concurso. Espero, se tudo correr bem em termos de financiamento e de pandemia, que em 2022 possa começar. Tem havido bastantes rodagens, portanto eu no próximo ano espero estar a rodar no Verão. Tenho outro guião já pronto, que há-de ser um terceiro filme. Em teatro, estou numa peça como actor, “A grande magia”, de Eduardo de Filippo e com encenação do Tónan Quito, na Culturgest. Tenho dois projectos nos quais irei trabalhar como encenador para final de 2022/2023, porque atrasou tudo. Um deles é a adaptação para teatro da obra “Afinidades Electivas”, de Goethe. Tenho bastantes coisas em mãos, mas, como toda a gente, andamos todos um bocadinho ao sabor… ia dizer do vento, mas não é, é da pandemia.


PTP Não é do vento, antes fosse.


GW Antes fosse. É da pandemia, que manda umas rajadas violentas… Mas lá está, eu não me posso queixar. Mas tenho visto algumas situações mais tramadas. Há muita gente em piores situações. Posso-me queixar é pelos outros, que isto não é agradável.


PTP Nada agradável mesmo. E também deixa à vista as lacunas que a nossa sociedade já tinha, que vêm de há muito tempo.


GW Obviamente. É aqui que se vê quando as coisas estão mal pensadas e mal preparadas e quando não há protecção nenhuma… Por exemplo, aqui em Portugal, finalmente discute-se o estatuto do artista. Não tínhamos um estatuto desses, como tens na Alemanha ou em França. Uma coisa profundamente injusta, os artistas independentes são obrigados a pagar impostos mensalmente, mas depois quando não há trabalho também não há subsídios. Então só há deveres, não há direitos? É uma desproteção total e isso agora viu-se. De repente, ficou completamente exposto. Pára tudo, fecham os teatros, os cinemas, fecha tudo. E então como é que fazemos? Não fazemos. É uma profissão muito gira, mas tem as suas dificuldades. Em França, Bélgica, ou Alemanha, tens esse estatuto. Claro, cá foi discutido agora.


PTP Esse é talvez um lado mais positivo da situação; criou-se essa discussão e espera-se que as coisas sejam repensadas, melhoradas.


GW Ora bem. Exactamente.


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