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Rita Sousa Uva

Pois é, este ano, o Carnaval, chapéu! Diria um resignado nativo, se por acaso falasse português e pudesse comungar da expressividade do Pois!, que serve para comentar tudo, desde o frio deste rigoroso inverno até ao confinamento manso que nos põe a todos sem força anímica para inventar mais jogos em casa enquanto os números indiferenciados de doentes, mortos, feridos, nos cuidados intensivos e mais a taxa de incidência e a taxa de reprodução continuam a ser debitados na televisão, na rádio, nas redes sociais, não há um minuto de sossego mental neste Ano II do Corona, é que não há mesmo.


Desengane-se, no entanto, o leitor se por acaso imagina que o fã do Carnaval, alemão ou não, originário das folias do Reno ou não, se vai por acaso acachapar-se, murcho, em casa, quieto, sorumbático, olhando para a televisão enquanto suspira por melhores dias e relembra a meninice, Coimbra ou Lourenço Marques.


Não caiamos no engodo de subestimar a criatividade e o espírito sempre atento e curioso deste excêntrico país, pois que não é um vírus, em formato Ferrero Rocher pintado de vermelho, que ninguém vê, mas que sente quando adoece, que vai eliminar o espírito do Carnaval, pelo menos nestas bandas da Renânia Westfália.


Atentem nas ruas. Sim, continuam vazias e as lojas desoladamente fechadas e já não é do confinamento, é mesmo fechadura da insolvência, do não aguentar mais, que a crise por aqui também anda e não é pouco. Sim, há muitos que continuam a vender ao postigo, essa prática importada de Portugal e que parece ter aí sido proibida aí mas que aqui pegou e continua de vento em popa. O homem dos gelados vende crepes ao postigo, os restaurantes vendem perna de borrego e couve roxa com batata ao postigo, até lojas que não vendiam nada agora passaram a vender frikadellas gigantes e panados de frango com puré de batata e uma espécie de esparregado, só falta mesmo venderem o cafezinho em chávena esquentada ao postigo, mas de certeza que também vai surgir um dia destes, que esta é terra cheia de gente de fora e de muita miscigenação, faz parte do seu encanto.


Agora, o leitor não estugue tanto o passo que está em home office e não tem tanta pressa assim, ande lá mais devagar e quando entrar na farmácia, para aviar os comprimidos do costume ou comprar a terceira bisnaga de creme hidratante que essas mãos parecem lixa em ponto rebuçado, repare lá bem o que é que a farmacêutica tem vestido: atentou no chapeuzinho vermelho discreto e de coco, em cima da cabeça? Não estranhou a camisola de listas vermelhas e brancas com um cachecol FC Köln pendurado ao pescoço? E a senhora que entrou agora mesmo, branca mais branca não há, envergando uma carapinha negra que mais negra não há, exuberante e encaracolada? E a farmacêutica chefe, não viu por acaso que tinha uma máscara daquelas que soam a FP25 mas têm um outro nome que não há maneira de fixar e inesperadamente, ostenta uma bolinha vermelha colada na zona do nariz? Calma, isto é só na farmácia. Quando abrir bem esses olhos, vai reparar que os festejos de Carnaval foram proibidos, é verdade: não temos ajuntamentos, nem procissões, nem cortejos, nem grupos ruidosos bebendo das mesmas garrafas e urrando ufanamente a celebrar a Primavera, mas temos grande parte da população mascarada ou pelo menos com um ornamento sugestivo a marcar a época. As escolas continuam fechadas? Sim, muitas continuam, outras fazem semi-on-line, semi-em-casa, mas as crianças andam pela rua vestidas de princesas e de príncipes e de fadas e de gnomos e de piratas e de fadas e de tigres e coelhos, do que lhes der naquela cabeça e os pais respectivos também, de máscara. O cumprimento Kölle Allaaf ouve-se por essas esquinas e muita gente assobia na rua “Viva Colonia! “Leev Marie”, “Polka, Polka, Polka” e tantas outras, que o Carnaval pode não ter saído à rua este ano, mas continua bem vivo dentro das gentes de Colónia e arredores.

Fotos: Erik Mclean e Dele Oluwayomi, Unsplash

Não há a cerimónia do mulherio a correr pelos corredores da empresa ou do escritório, cortando gravatas? Pois maridos, namorados, irmãos, primos, cunhados, amigos, parentes afastados ou não, preparem-se, quando menos esperarem, zás, lá voa um coto! Não temos os Sitzung cheios? Pois que importa, meia dúzia faz a festa, outra meia dúzia senta-se nos auditórios separados por várias dezenas de metros e nas centenas de cadeiras que sobram, sentam-se os cartazes em ponto grande dos convidados habituais, a rirem-se, mascarados, enquanto vários ecrãs projectam os Carnavais dos anos anteriores, na mesma sala, com os mesmos intervenientes, um par de anos mais novos e sem Corona à vista. Carrega-se nas luzes pirotécnicas e na decoração barroca, põe-se a música mais alto e lá está a televisão a ampliar tudo. O telespectador, em casa, imita, participa, tira fotografias e manda para o canal da TV, onde assim pode também a aparecer e assim o Carnaval festeja-se à mesma, que a vida não pode ser só trabalhar, trabalhar, trabalhar, que é para isso mesmo que o Carnaval serve, explicam-me. Pois não, olha que história.


Adoro este Carnaval. Sossegado, na privacidade do lar, as ruas limpas, os grupos escondidos, as garrafas circulam na esfera privada e as pessoas mascaram-se à mesma. A cidade segue, funcionando como pode sem destruição gratuita e dejectos por todo o lado, os exageros confinados, meia dúzia de maduros fazem concertos na rua, sem moches e gente a cair na rua, empurrada pela multidão sôfrega e os caramelos e doces são distribuídos directamente, sem serem atirados pelos ares para os Almeidas terem de apanhar tudo na semana seguinte.


Abracemos esta oportunidade de tréguas com o Carnaval de Harlequins que vimos no passado – quem sabe o impulso destruidor de outros anos amaine e no futuro passemos a ter um Carnaval de convívio mais relaxado e folião, mais sulista, menos... Vikingão?

Viva Colonia!


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