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“Ora ponha aqui o seu pézinho devagar, devagarinho...!”

Uma tragédia em três actos


Rita Sousa Uva


1 Pois e não é que feitos néscios e imprevidentes fomos lá e pusemos mesmo o nosso pézinho em 2021?


Uma vez o pézinho posto, 2021 entrou de enxurrada, cheio de força, distribuindo bofetadas e pontapés pelos mais distraídos, que é para não andarmos por aí a dormir e a bater com a cabeça no muro dos imprevistos, cheios de remelas e com a cara em formato de almofada. Quem não brindou a dizer “Finalmente, 2020 acabou! Que venha 2021, que há-de ser melhor concerteza!”, pondo até a voz assim mais segura, tentando que não trema nem o timbre nem as mãos da apreensão, enquanto beberrica do seu veneno favorito, que até pode ser água, que cada um sabe de si e o resto é conversa?


Quem não se encheu de esperança e abraçou o ano de 2021 com alegria e esperança, mesmo fechado em casa e torcendo os dedos em figas, ai que corra tudo bem este ano, que isto seja mais calmo!? E assim elevámos os nossos copos no ar e pedimos ao Novo Ano, aos Deuses , aos Duendes do Jardim e aos Pózinhos de Perlimpinpim que andam pelo ar e exclamámos: ai a sede que temos de viajar! Promessas, promessas, leva-as o Corona.

2 Na noite de 31 de Dezembro de 2020, que parece que foi há três anos, muitos de nós reduzimos os contactos da festa de Réveillon ao seu denominador mais simples, juntando apenas quem vive na mesma casa; trancámos as portas, forrámos a casa de comida e bebida, e pelo sim, pelo não, era demos um saltinho pequeno, nada de aventuras com sofás nem bancos desdobráveis nem escadotes futuristas, que para problemas de saúde já chega a ameaça constante da pandemia que chegou, viu e venceu e olha, não mais daí saíu.


Outros tiraram a desforra na Netflix, na Amazon Prime, caixas mágicas de televisão com HBO e afins, todos numa voragem de filmes e documentários e comédias e tragédias, tudo para enganar o tempo e o espaço para não se ficar maluco a falar com as plantas. Corre por aí na Net uma piada em várias línguas e contextos que variam de acordo com a cultura, mas que soa mais ou menos assim: não te preocupes se dás contigo a falar com as plantas, não é preciso ires a correr ao médico a marcar uma consulta de saúde mental porque para já não temos vagas e depois porque o que é preocupante mesmo é quando a planta te responder de volta.

(pausa para assimilar a piada)


Para mim, o que devia estar mesmo a circular é: se por acaso a planta falar contigo, traz a planta cá. Não és tu que precisas de ajuda, é a planta mesmo, que nunca foi tão solicitada a participar em conversas e solilóquios e com tanta regularidade e que se arrisca a afogar-se com a água que lhe dão.


Será este o efeito pandémico? Sim, mas antes da pandemia já para lá caminhávamos. Antes de tudo acontecer com este ritmo estonteante, tudo apontava para que viesse a acontecer, mas fica-se sempre à espera que no final nada aconteça. Alterações climáticas? Sim, mas calma, não é assim tão mau. Só que é: Madrid está com -35º C e nevou em Évora e Portalegre. O Trump? Mas não vêem que ele está a gozar?! Então achas mesmo que ele vai pôr as milícias a atacar alguém? Tem juízo! No dia 6 de Janeiro de 2021, os jagunços do Trump, armados até aos dentes e empuhando bandeiras da Confederação invadiram o Capitólio, tiraram selfies e partiram tudo, invadiram gabinetes, escavacaram mobília, levaram esculturas, atiraram tinta e outros dejectos para as estátuas, com ajuda benevolente de alguns polícias e a fraquíssima resistência de outros quantos, em directo, em busca dos boletins de votos que iam confirmar a vitória de Biden, só para verem se lhes jogavam fogo, como nos filmes de Western Spagetti, só que à séria. Entre o momento em que se viu movimentação na escadaria, em directo e o momento em os primeiros entraram à força, decorreram cerca de 90 minutos. Sem resistência, sem guarda especial, sem reacção visível das autoridades, um golpe de estado ao vivo, em tempo real, passando em todos os canais de televisão do mundo, como se de um reality show se tratasse e nós vendo, de boca aberta. Ouviram-se reacções inanes, por exemplo, como: “Isto não é a América”. Pois parece que (também) é. 70 milhões votaram no Trump e boa parte deles acredita mesmo que houve fraude eleitoral. 45% da população votante acha bem que o Capitólio tenha sido invadido e violentado.

Foto: Thanti Nguyen, Unsplash

3 Ainda de cabeça a andar à roda, passamos pelos canais portugueses. Não vamos comentar os debates entre os candidatos presidenciais, já muitos o fizeram e não é agora a época de fazer campanha. Espero ardentemente conseguir exercer presencialmente o meu direito de voto no Consulado de Dusserdolf, entre os dias 23 e 24 de Janeiro, entre as 8 e as 19h00. Estendo esta esperança a todos os meus compatriotas, estejam estes onde estiverem. Votemos todos, para que a abstenção não nos faça morrer de vergonha pela fraca participação cívica e pela surpresa de vir a ver no poder quem quer destruir o mesmo sistema que permite a sua eleição. Soa a algo familiar, não soa?


Porque nestes primeiros dias deste ano, já tivemos vergonha suficiente com a salganhada infame da nomeação de candidato português para novo organismo europeu de combate a corrupção com base em... qualificações e funções profisssionais que o próprio afinal nunca disse que tinha nem tem e nunca teve nem exerceu. Entregou currículo certo, que foi melhorado por iniciativa governamental, através de carta.


À escala do nosso país, este é o retrato da corrupção que afinal (não) existe. O fascismo também (nunca) existiu. Perguntam-me: mas... não iam ser tão descarados que iam inventar uma carta destas para preterir uma outra candidata que tinha ganho o concurso internacional e depois a Ministra da Justiça ia dizer que não tinha lido a carta e que eram apenas lapsos, pequenos erros sem importância? Não iam fazer isso, então e logo num organismo europeu que quer lutar contra a corrupção? E nas primeiras nomeações, no momento em que o país inicia a Presidência da União Europeia? Mas estás a gozar?


Não, pá, não estou.

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