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O tempora o mores


Miguel Szymanski

É, admito, o tema clássico da crónica de um indignado. O tempora o mores, “Ó tempo, ó costumes”, uma das mais célebres frases do latim clássico, usada por Cícero em pelo menos quatro discursos. Cícero era um mestre da retórica e da indignação.


Quando eu estudava latim, num ‘Gymnasium’ humanista na Alemanha, tinha por hábito adaptar as grandes máximas latinas aos tempos actuais.


Hora ruit, carpe diem passava de “a hora vai-se, goza o dia” para o mais prosaico ‘hora ruim para limpar a carpete’ e ora et labora para ‘Ora, vamos lá embora’. No meu latim, o tempora, o mores traduzia-se ‘Olha o temporal ou morres’. Os tempos que correm não são para menos.


O que incomoda não são os costumes que mudaram da época de Cícero, há mais de dois mil anos, para hoje. O que causa preocupações, tal como o fez a Cícero que viveu os últimos estertores da república e a plena ditadura de César, são as alterações no nosso tempo de vida.


Vivemos, com ligeiras diferenças entre Portugal ou na Alemanha, longas décadas em que os costumes evoluíram de forma positiva. As crianças deixaram de trabalhar em minas e fábricas, já não se entra bêbedo num carro para conduzir e põe-se o cinto de segurança, as mulheres vivem em pé de igualdade, legal pelo menos, a homossexualidade deixou de ser um crime, os maus tratos, os abusos sexuais e o assédio passaram a sê-lo. E muito bem.


A maioria dos costumes evoluíram para melhor, alguns dos mais nefastos passaram a crimes e foram abolidos.

Mas o que é melhor ou pior depende das orientações e preferências políticas. E em política convém não aplicar a máxima de gustibus non est disputandum*. Porque os gostos têm de ser discutidos. E porque acima dos gostos estão os princípios, e esses decidem se estamos a respeitar os elementares direitos humanos, os inalienáveis direitos sociais e as imprescindíveis liberdades cívicas.


Em breve olharemos para os dias de hoje e os mais velhos, os das avenidas e becos das poeiras nostálgicas, terão saudades e condenarão os dias em que estarão a viver no futuro.

Eu espero fazer o contrário, num futuro longínquo. Digo já que não terei saudades, para referir só alguns pontos avulsos de: carros, a gasóleo ou gasolina, a passar na minha rua e a empestar o ar que segundos antes cheirava a maresia, dos passeios por onde tento andar com as minhas filhas a caminho da escola transformados em parques de estacionamento, de pessoas a conduzir como se não houvesse amanhã e que não param nas passadeiras, de pais e mães que estacionam em segunda e terceira fila em frente às escolas, de caminhos de bicicleta esburacados, de adultos que não sabem deixar os filhos andar umas centenas de metros a pé ou de bicicleta até à escola, de pessoas de máscara por todo o lado, de esplanadas fechadas, de hipocondríacos, de empresários vigaristas que não pagam aos funcionários, de gestores de bancos falidos que se atribuem prémios de milhões, de políticos arrogantes e mal educados, do culto da personalidade em volta de governantes, de pratos em restaurantes com desenhos abstractos de vinagre balsâmico ou outros líquidos viscoso nos bordos, de noticiários que mostram quatro vezes o mesmo presidente da república como se as televisões fossem agências de propaganda política, de políticos do centro que minam o sistema com corrupção e nepotismo, de políticos populistas com argumentos primitivos e soluções falaciosas, de pessoas que só falam sobre séries e filmes, da justiça só para quem tem dinheiro, dos atrasos do Estado, da prepotência e violência das autoridades, das pessoas sentadas à mesa a olhar para os telemóveis em vez de conversarem, da cultura nivelada por baixo, dos centros comerciais abertos até altas horas da noite a destruir a vida familiar de centenas de milhares de famílias, de jaquinzinhos fritos em óleo de má qualidade, políticos a decretar recolheres obrigatórios e a mandar invadir domicílios por decreto, de livrarias vazias, de gente que deitar lixo para a rua, de fruta embalada em plástico, de pesticidas e herbicidas nos campos e nos passeios públicos, da lógica do lucro acima da do bem estar, do materialismo desenfreado, de t-shirts que só aguentam quatro semanas e são produzidas com trabalho escravo, de me sentir isolado por ser a única pessoa na praia sem tatuagens ou brincos no nariz e nas orelhas, de pessoas com menos de 95 anos a arrastar-se em chinelos, de massa cozida demais, de ministros trafulhas, de futebol a abrir os noticiários, de patetas partidários em gerir direcções-gerais e pelouros municipais, de ver gente que trabalha e não sai da pobreza, gente que quer trabalhar e não pode, gente que não quer trabalhar e tem de o fazer. Podia continuar durante mais algumas páginas, simplesmente acrescentarei um dos mais geniais latinismos da alta cultura romana: et cetera.


Muitos textos acabam com um categórico quod erat demonstrandum. Pois eu não acho que esta seja uma ‘era para manifestações’. Nestes tempos justifica-se um último cicerismo: dum spiro, spero**. No meu latim: ’Se espirrar, espero que cumpra a etiqueta’.


* Os gostos não se discutem

**Enquanto respiro, tenho esperança.




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