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O diabo está nos detalhes


Rita Sousa Uva

O distraído leitor de posts e outros piu-pius da Net por acaso já reparou que anda pelo ar um ligeiríssimo perfume sazonal, assim uma coisinha muito ao de leve, uns pózinhos estivais apenas? Quem já não espirrou com o pólen e sossegou a testa com um lenço à custa das temperaturas luzidias de 26º à flor da pele? Quem não tem sentido o barómetro interior a subir a temperaturas tropicais, no intervalo da chuva e do granizo destemperados a gozar com o nativo e o turista incautos que se deambulam nos passeios ondulantes à beira do Reno enquanto fintam o Covid e as bicicletas, munidos de capacete e máscara?


Não? Não sentiu nada disto nem o seu contrário?


Pois o leitor anda distraído. Andamos todos, entre as vacinas que vêm e ficam pela metade, o teleworking que é dia sim, dia não e às vezes dia não e dia sim, que nem sabe a quantas anda, será dia de office ou será dia de home office? Quando está no office levanta-se e vai tirar a louça da máquina da copa comum até que repara que o armário onde está a pôr as chávenas que não são suas é novo, onde será que o comprou? e quando repara nesse detalhe cora feito tomate maduro e senta-se novamente à secretária, olhando fixamente o écran e digitando novamente a password que entretanto o écran já se apagou e tem de começar tudo de novo e onde estava aquele documento que estava a trabalhar, que já só faltavam uns toques aqui e ali e uma conclusão? Diabo seja cego, surdo e mudo que estava no ambiente de trabalho e já não está, ai que será que não o gravei e é nessa altura que o colega de um qualquer andar passa por si e diz insinceridades como temos de tomar café!!! e o leitor já sabe, não é para café nenhum até porque as cantinas estão ainda a meio gás e café da máquina não é café de jeito e o ir até à estação em busca de um quiosque, não há pachorra e sabe muito bem que ou é favor ou é pincel e por isso sorri, sorri muito e diz temos de ver disso! Deixa-me só acabar um e-email e com jeitinho protege-se até aparecer o próximo, é por essas e por outras que o leitor gosta de trabalhar em casa quando está sozinho, que aí pode-se ouvir a pensar, mas onde estava eu que não era mentira...

Foto de Adrian Swancar - Unsplash

Ah já sei, o leitor senta-se novamente à secretaria, enche-se de coragem e resignação e começa o documento todo desde o princípio, mas de repente recebe um flash no écran, aparece uma mensagem daquelas importantes ou um headline ainda mais importantíssimo (um dos efeitos colaterais da covid é inventar regras de gramática), por isso minimiza o documento e vai à procura da novidade, mas não, não era nada de especial, uma inundação não sei onde, uns quantos mortos a boiarem no Ganges, um avião desviado, ah, mas sem mortos e é russo ou lá o que é, pronto, não era russo, era bielorrusso, pronto está bem, o avião era irlandês ah, espera que já me contas, olha, olha aqui!, nasceu o bebé do Harry e da Meghan, que giro!, e assim se vai navegando de janela em janela, casas de acolhimento indígena no Canadá o quê, mas isso foi quando?, hoje em dia há tanta coisa para fazer e tão pouco tempo e logo se desconcentra noutras notícias, todo o colaborador tem a obrigação de estar super informado, super equipado, super motivado, super esperto, super ágil e super resiliente, senão está fora do Zeitgeist e não merece a cadeira que lhe emprestam para se sentar, quando está em casa é pior porque não tem cadeira ergonómica. Mas adiante que não há tempo a perder e as eleições na Alemanha estão aí à porta mas de qualquer forma o leitor nestas eleições não pode votar, que não é alemão, eles que se entendam, onde é que eu ia mesmo? e também aqui a desorientação é grande, com os verdes a puxar para o verde-caviar, que quer por toda a gente a comprar carros eléctricos ou então a andar a butes, devem estar mas é malucos, a pé nunca mais lá se chega, depois temos o outro, o da Baviera, sempre muito bem posto, que tanto diz que sim como que não dependendo dos ventos e o outro com um nome que parece um verbo que não aquece nem arrefece, são todos iguais aqui ou aí, já bem lhe basta o que basta, estamos em Junho e ninguém sabe se isto acaba, quando acaba ou se vamos de férias a Portugal ou não que os bilhetes aumentaram e já não há voos diários, olha, espera,o campeonato de futebol começa já o próximo fim de semana? Olha, pelo menos sempre dá para entreter e Portugal joga quando?


Falo, obviamente, do Verão.


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