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O ódio “do bem”


Gonçalo Galvão Gomes


O conflito entre Israel e a Palestina, divide o mundo numa espécie de estádio de futebol, com claques de ambos os lados, bandeiras, cânticos e, na sua maioria, pessoas que ignoram por completo as raízes históricas e culturais do problema.


Os apoiantes de Israel usam o caráter liberal do país e o facto de ser a única verdadeira democracia da região como um dos argumentos a seu favor. O que, não deixando de ser verdade, serve de pouco.


O que não falta no mundo e na história da humanidade são atrocidades cometidas por países democráticos e respeitadores (teóricos) dos direitos humanos. Os defensores da causa palestiniana falam em ocupação e apartheid, mas ignoram quase sempre o Hamas, a organização terrorista que é responsável pelo envio de milhares de rockets contra áreas civis de Israel. Ouvimos dizer frequentemente que os palestinianos não são responsáveis pelos ataques do Hamas, mas o Hamas foi eleito pelos Palestinianos em 2006. Se os palestinianos não têm responsabilidade nas ações do Hamas, organização que tinha nos seus estatutos a erradicação de Israel no momento em que foi eleita, será legitimo responsabilizar os israelitas pelas ações do seu governo?


Claro que estamos a comparar laranjas com maçãs e que estão em causa realidades completamente diferentes. Israel é uma democracia a sério e, isso, traz consigo responsabilidades acrescidas, mesmo quando é atacada por mais de 4.000 mísseis em apenas três semanas. A defesa da sua integridade territorial e dos seus cidadãos não legitima ataques a áreas civis, dizem, os que entre nós, desconhecem que os ataques são feitos a partir de áreas populacionais e se usam escolas, hospitais e mesquitas como escudo humano.


A solução de dois estados, pregada por todo o mundo como o cenário perfeito para a resolução para o conflito, foi recusada em 2000 pelo líder Yasser Arafat e a razão é simples: não há interesse palestiniano na partilha de território. Não havia no ano de 2000, nem há hoje. O slogan “From the river to the sea, Palestine will be free” é claro nas suas intenções: a solução palestiniana passa pela remoção total dos judeus do território israelita,e qualquer alternativa irá sempre contra as suas pretensões.


A construção de colonatos na Cisjordânia também não tem facilitado o processo de paz e Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel que havia prometido anexar também o Vale do Jordão, patrocinou muita da instabilidade vivida na região e, por isso, o seu afastamento não é motivo de lamento por quem aspire por paz.


Contudo, não tenhamos ilusões: para que a paz seja alcançada, a Palestina tem que deixar de ser representada por terroristas, e enquanto tivermos à mesa a Autoridade Palestiniana e o Hamas (e com eles o regime iraniano), dificilmente haverá entendimento possível.


Nem todas as pessoas que odeiam Israel são antissemitas, mas todos os antissemitas odeiam Israel. Claro que nem toda a gente que se opõe às políticas israelitas o faz por fundamento ideológico ou antissemitismo e existem motivos, infelizmente, mais do que legítimos, para se oporem a determinadas políticas seguidas pelo estado judaico. É também verdade que a oposição a Israel é, muitas vezes, uma desculpa fácil para os antissemitas e para as pessoas que vêem no estado judaico a representação dos valores ocidentais no médio oriente. Muitas vezes, o ódio para com Israel é apenas a aversão aos valores judaico-cristãos (e as suas políticas liberais), que encontram no seu único representante no médio oriente um alvo fácil. Os estados ditatoriais do Irão e Arábia Saudita não despertam semelhante antipatia.


A maior parte dos apoiantes da Palestina, país que ao contrário do que muitas vezes se pensa, não só não existe, como nunca existiu, não conseguiria localizar a região no mapa e não sabe que, por exemplo, a região, que se rege por tribunais islâmicos, determinou em 2021, que as mulheres solteiras não podem viajar sem permissão do seu tutor masculino, ou que em Gaza a homossexualidade é crime e pode dar até 10 anos de prisão. Uma grande parte dos apoiantes da Palestina não conseguiria viver uma semana no seu território e Israel seria o último dos seus problemas.


Crimes antissemitas registados pela polícia na Alemanha (Ministério do Interior Alemão)

Foto de Sarah Lötscher - Pixabay

A violência contra judeus tem aumentado um pouco por todo o mundo e a Alemanha não é exceção. Angela Merkel alertou no ano passado que “muitos judeus não se sentem a salvo no nosso país”. De acordo com o Ministério do Interior alemão, o número de crimes com motivações antissemitas passou de 1504 em 2017 para mais de 2.000 em 2019. Ainda não conhecemos os dados de 2021, mas podemos adivinhar que os números ilustrarão uma tendência ainda maior.


Um relatório do FBI revela que os judeus têm pelo menos três vezes mais probabilidade de sofrer crimes de ódio na América do que qualquer outro grupo étnico. Entretanto, alguns judeus deixaram inclusivamente de usar símbolos religiosos, devido ao medo de represálias, e as principais sinagogas norte-americanas e escolas judaicas reforçaram a sua segurança.


Duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. As políticas israelitas não são isentas de críticas e qualquer atropelo aos direitos humanos tem que ser denunciado e julgado em sede própria. Por outro lado, não podemos abrir caminho para que os antissemitas, neonazis e seus simpatizantes, encontrem um caminho fértil para um antissemitismo, não só politicamente correto, como até socialmente recomendável.


Never again.


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