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Lenin lebt

Investigação de Carlos Gomes publicada em livro


TPP / Cristina Dangerfield

No ano em que se assinala a efeméride dos 150 anos do nascimento de Vladimir Lenin (nascido a 22 de Abril de 1870) e dos 30 anos da reunificação alemã, Carlos Gomes publicou um livro que é o corolário do seu projecto histórico e artístico iniciado em 2014, em primeira linha, pelo seu interesse numa perspectiva de curiosidade histórico-artística. “Comecei a visitar lugares onde havia vestígios das estátuas e bustos de Lenine, e descobri que isso era complicado, porque os memoriais tinham sido esquecidos e abandonados. Nos últimos anos consegui localizar quase todos os memoriais que ainda existem”.


O livro agora publicado documenta, 49 monumentos, com fotografia e respectiva história individual, dos quais 24 ainda estão ou num sítio público ou no sítio original, encontrando-se os outros em zonas não acessíveis ao público, como é o caso de zonas militares . O autor reuniu também os monumentos de Lenin mais importantes que se encontram em museus e alguns outros em que figura num plano secundário.


Carlos Gomes visitou pessoalmente todos os monumentos que confirmou existirem, pesquisando a história única de cada um. “Há muitos monumentos da antiga RDA que não se sabia se ainda existiam; se não existiam ou não teriam sido integrados nas listas actuais, ou teriam sido nelas inscritos mesmo já não estando lá, o que originou a necessidade de comprovar, monumento a monumento, se existia ou não”.


A investigação ancorou-se em contactos telefónicos com os departamentos locais e regionais de protecção do património, visto que a gestão do mesmo, na Alemanha, está muito ramificada. Alguns departamentos públicos, especialmente quando se tratava de monumentos pequenos mais pequenos como placas comemorativas, evidenciavam estupefacção e, muitas vezes, desconhecimento sobre a sua existência, ultrapassado apenas aquando o item era encontrada nas referidas listas, originando, contudo, a dúvida subsequente sobre se ainda se encontraria onde indicado, visto as próprias listas não serem actualizadas desde a reunificação alemã. Por vezes houve funcionários que se prontificaram a colaborar, indo confirmar a localização do monumento e enviando uma fotografia do mesmo. Contudo, muitas vezes teve de ser o próprio autor a confirmar se o monumento se encontrava onde se antecipava.



O livro descreve ao pormenor várias histórias polémicas em torno de alguns dos monumentos. Muitos geraram polémica, especialmente com a a extinção da República Democrática Alemã e um gesto de “apaga história”, em que nos tempos que se seguiram à queda do Muro e à reunificação das duas Alemanhas a iconografia comunista foi rapidamente retirada da praça pública. Muitos dos seus elementos haviam ocupado lugares centrais nas cidades da Alemanha Democrática. “Um deles, uma estátua de Lenine, tinha sido colocada na praça Lenine, em frente à câmara municipal, perto da estação central de Riesa. Após a mudança de regime, os políticos locais quiseram livrar-se daquela memória desconfortável e, assim, a estátua foi levada para o cemitério de uma antiga caserna russa num parque situado nos arredores da cidade. Uns anos mais tarde não suportaram ter Lenine na zona e, por isso, quiseram vendê-lo ou levá-lo para um armazém. Porém, aperceberam-se que a estátua estava no cemitério russo e que a Rússia teria de autorizar a deslocação da estátua. E embora o governo russo não seja particularmente próximo de Lenine, para “arreliar” os alemães, as entidades russas responsáveis, disseram que a estátua teria de ser restaurada à custa do dinheiro dos contribuintes alemães, o que ficou estabelecido por contrato entre os dois países”, partilhou o autor.


Esta não foi, contudo, a história mais caricata com que Carlos Gomes viveu no curso da investigação para o livro. Ao longo vários procurou determinar o paradeiro de uma estátua de bronze de Lenin com 500 quilogramas. As próprias autoridades responsáveis não sabiam o que era feito da estátua em questão e tiveram de encetar buscas. Quando, finalmente, foi identificada a pessoa que tinha a estátua em sua posse, em Potsdam, e esta se comprometeu a entregá-la a um museu, a boa nova não durou muito tempo: a estátua foi participada como roubada. A estátua de 500 quilogramas terá sido o único objecto roubado de um armazém, mas face à inexistência de provas, a polícia arquivou o caso, o que entristeceu o autor, que esperava que na Alemanha as pessoas cuidassem um pouco mais dos monumentos, independentemente da opinião política que possam ter.


A carga ideológica e o legado da história foram algo que Carlos Gomes antecipava pesarem menos no curso do seu trabalho, tendo-se apercebido, ao longo do projecto, que Lenin era ainda um tema sensível, tendo recebido críticas vindas dos dois lados: para algumas pessoas Lenin, indissociável do comunismo, tem uma conotação negativa e defendem que o tema já não interessa a ninguém; outras pessoas entendem que o autor não está respeitar suficientemente a figura de Lenin. “Dei conta que Lenin, como símbolo do comunismo, ainda tem um valor politico muito importante para muitas pessoas e, faça-se o que se fizer, fica-se sujeito a uma crítica simplista logo à partida”, apesar de reforçar que o projecto “não se trata de uma abordagem política”, centrando-se na perspectiva estética do ícone da revolução soviética.


O projecto na base deste livro evidenciou que “Lenin é uma figura com um certo magnetismo”, com a página web criada para o acompanhar a contar 30.000 visitas até à data e ter merecido a atenção de meios de comunicação até na Rússia. “Tenho tido muito feedback, mesmo que às vezes misturado com polémica: Lenin é uma figura que, para o bem e para o mal, cativa e interessa, e isso anima-me a continuar”, avança Carlos Gomes, para quem o livro não põe termo ao projecto. “Os monumentos de Lenin são um tema que nunca acaba, porque há vários monumentos que estão envoltos em grande polémica: há quem queira que sejam retirados, há quem queira repor outros que já foram retirados. Vai ser sempre algo que vou acompanhar e espero, daqui a alguns anos, fazer uma edição revista com as novidades que houver. O livro é uma estação intermédia, não a final”.


Carlos Gomes nasceu em Bona, cidade onde viveu até aos cinco anos de idade, altura em que foi para Lisboa. Frequentou o colégio alemão e, mais tarde, o curso de filologia e sociologia da Faculdade de Letras, da Universidade de Lisboa. Reside em Berlim desde 2013.

Apresentação do livro em directo online: terça-feira, 21 de abril, 19h

www.jungewelt.de

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