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“Governos e instituições internacionais devem trabalhar juntos para a recuperação do turismo” *

Entrevista | Luís Araújo, Presidente do Turismo de Portugal



Luz Marina Kratt


Via-o a andar a passo lento, ao ritmo do cão já velho demais para pressas, quando de manhã, quase invariavelmente, nos encontrávamos na esplanada da barreirinha, para ver o sol banhar a baía do Funchal, engalanada para o natal, com luzes de festa nas ruas e nas árvores. Naqueles dias de inverno, o sol vinha ainda quentinho e preguiçoso, a pedir que nos sentássemos com uma chávena de café e uma torrada com manteiga na mão, a ver o dia chegar.


Tínhamos, por simples acaso, reservado apartamentos no mesmo prédio, ele vindo de Lisboa para umas férias com a família, eu vinda da Alemanha a fugir do frio e do confinamento, feliz por poder encontrar velhos amigos e jantar nos restaurantes, que ainda resistiam à crise e teimavam em manter portas abertas pelas ruas da cidade. Enquanto o governo não os mandasse fechar iam ficando ali, quase sempre vazios, com mesas de toalha branca, compostas quase mais por hábito do que por acreditar que talvez naquele dia, valeria a pena. Vistas do cimo da rua, rente ao mar, para além dos prédios amarelos de cal ocre, da cidade velha, mais pareciam bandeirinhas brancas a esvoaçar como quem desafia o destino e se recusa a desistir.


Para enganar o tédio, jogava-se á bisca no porta bagagem dos táxis parados. Para preencher o vazio e silêncio das ruas, onde há muito não se ouviam línguas estrangeiras, os homens assobiavam e trocavam conversas sem importância. De um lado os empregados dos restaurantes de mãos cruzadas atrás das costas habituados àquela postura de tanto servir à la carte, do outro os condutores sem função, braços cruzados, encostados aos carros ou à parede, mais atentos aos saltos altos que ecoavam nos passeios, os olhos maliciosos a medir pernas e ancas das mulheres apressadas, que por ali passavam carregadas de sacos por onde embrulhos coloridos espreitavam á espera de um natal diferente, talhado á medida do vírus, que viera de longe e que agora também havia chegado á ilha, como uma sombra que ameaça engolir o sol e os sorrisos, apagados pelas máscaras.


Reconheci o Luís Araújo dos tempos em que eu era jornalista na RTP e ele trabalhava no Grupo Pestana e era já um homem com um percurso invejável na Hotelaria e no Turismo. É desde 2016 presidente do Turismo em Portugal tendo sido também eleito presidente do European Travel Comission. Madeirense de pai, espanhol por parte da mãe, era ali que vinha sempre retemperar forças, disse-me depois. Planeava mesmo comprar casa, queria uma na cidade ou arredores, o importante era ter vista mar, para poder ver todos os dias aquele azul intenso, que mesmo no inverno se mostrava sublime, com o sol a aquecer os dias, que ali nada tinham a ver com o resto do país, nem da Europa enregelada até aos fundilhos.


Falar da crise que se vivia sobretudo no sector do turismo e gastronomia era quase inevitável. O país inteiro revoltava-se contra as novas medidas restritivas do governo, havia manifestações nas ruas e greves de fome, o fantasma de um novo confinamento geral adensava-se como um gigante a ameaçar mais de cem mil postos de trabalho só no sector da restauração.


Luís Araújo: Não se trata de uma crise no turismo. Não é uma situação isolada a que vivemos agora. São fatores externos, mas que exigem uma grande cooperação a nível interno no nosso país e entre todos os outros países. E sem cooperação entre todos os governos e instituições internacionais será muito mais difícil sairmos todos desta pandemia e da crise que está a gerar no mundo inteiro.


A Saúde e a Economia terão de acertar o passo. Devem trabalhar juntas. Coordenando com transparência e muito trabalho de equipa poderemos recuperar a confiança do mercado turístico.


Portugal tem de voltar a ser um destino seguro. A marca Clean and Safe é uma garantia fundamental.


Temos apostado na formação e já fizemos muito neste campo. Há muita gente envolvida neste esforço no nosso país.

Tudo passa pela confiança das pessoas que nos visitam. A questão sanitária é mais que um selo de garantia.


A chegada das vacinas que estão a ser distribuídas quase À escala global foi um grande passo, mas há muito a fazer ainda. E outra coisa que reforço é a troca de informações. Temos que trabalhar todos pelo mesmo objetivo e com muita transparência. Conhecer este vírus, como circula e se propaga pode ajudar a consolidar a confiança dos que viajam.


Luz Marina Kratt Que medidas podemos tomar para a reativação da economia nacional?

LA Acho que tem havido muito apoio. O ministério da economia está a injetar 2,5 mil milhões de euros é um esforço muito grande. Há que simplificar e acelerar estas ajudas, o lay-off vai ajudar nesta retoma progressiva, os apoios á formação são uma aposta que se deve continuar a incentivar, assim como o desenvolvimento na área digital. Há que acudir aos custos fixos para que mais empresas não acabem por desaparecer por completo.


LMK O turismo e a gastronomia foram os sectores mais penalizados por este vírus.


LA Sem dúvida. Mas, o mais importante é fazer perceber que os turistas não os inimigos, ou os que trazem o vírus. Nem concordo que os turistas devam entrar em quarentena. Testar sim, é necessário. Mas, não penalizá-los mais. A maior parte dos casos de transmissão são já entre famílias, transmissão local.


A Agência Internacional de Doenças Infeciosas tem neste domínio um papel relevante. Deve estar ativa e passar informações claras a todos os organismos nacionais e internacionais. Como já disse anteriormente, todos os governos têm de trabalhar juntos. Sem cooperação não se sai disto tão cedo.


LMK Estamos a atravessar a maior crise mundial de sempre por causa desta pandemia.


LA Por isso mesmo é preciso que o turismo tenha uma voz ativa dentro da União Europeia, através de uma melhor coordenação de posições dentro dos diversos Estados membros, a favor do turismo, para que haja então uma recuperação mais rápida e sustentável do sector. Não esqueçamos que este é um dos motores de várias economias, incluindo a portuguesa. É preciso ver que só em Portugal este sector representa um contributo de 15% para o produto interno bruto. Dele dependem milhares de postos de trabalho.


LMK O que é que a Europa deve fazer para se afirmar melhor no mundo?


LA A União Europeia é um bloco económico com 500 milhões de habitantes, habituados a viajar entre as suas fronteiras. Por isso mesmo, há que criar segurança e confiança. Há que garantir mais clareza e previsibilidade. A segurança na mobilidade é a chave para a recuperação do sector em 2021.


Há também que trabalhar numa nova parceria estratégica para promover a Europa como principal destino de turismo mundial, fortalecendo o desenvolvimento sustentável e competitivo, e promovendo o intercâmbio de informações e estratégias, na investigação turística e na promoção de modelos sociais e ambientalmente viáveis para a atividade.


LMK O turismo como o conhecemos até aqui vai mudar?


LA Não tenho dúvidas. Mas as empresas do sector estão a preparar-se para isso. Só nos últimos meses fizeram-se 74 mil formações online. Há cada vez mais empresas a aderir às condições e requisitos do sistema Safe&Clean.


Portugal foi reconhecido pelo seu esforço em diversificar produtos turísticos, dinamizando a atividade em todo o território nacional. Temos que apostar naquilo que nos torna únicos. E nunca é demais lembrar que Portugal foi o primeiro país a receber o selo Safe Travels da OMT, porque as nossas empresas provaram estar empenhadas e preparadas. Temos 22 mil estabelecimentos incluídos neste programa. Todos sabem que há grandes desafios pela frente. Mas, isso não nos impede de tentar dar o nosso melhor.


LMK A rota das aldeias do xisto e das aldeias históricas de Portugal são exemplos da diversidade que o nosso país tem para oferecer. Trata-se de novos nichos de mercado a explorar, mostrando ao mundo o que de mais genuíno temos?


LA Claro! As aldeias saíram-se muito bem nesta crise. Nunca apresentaram valores de visitas e dormidas tão bons. Nestes números entram também as casas e quintas de alojamento local, as conhecidas AL. Com esta crise houve uma maior tendência para procurar espaços mais amplos, isolados e resguardados, portanto mais seguros. Houve valores ótimos de ocupação deste nicho de mercado em todo o país.


Há uma nova cultura emergente com toda esta crise. Temos de ter uma consciência mais ambiental e mais humana. O cuidar do outro. Preocupar-se com a comunidade. Sem este espírito de entreajuda, de cooperação e de responsabilidade não há retoma da confiança. E Portugal tem como tradição a amabilidade das suas gentes, o sorriso afável e o respeito que temos pelos outros, tudo isto é uma mais valia.


O futuro do Turismo é o futuro do país. Devemos estar todos conscientes desta realidade.


* Esta conversa teve lugar no final de dezembro, no Funchal


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