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Episódio da História de Portugal contado de uma forma palerma e sem um pingo de objectividade

Carta aberta a um tal de Zeca Afonso.



João Pedro Santos

Tocavam as cordas nos dedos do Zé, tocavam-se medos pelos dedos do Zé, tocavam-se as almas com as vozes do Zé. E Zé cantou Afonso, cantou como o primeiro, cantou o silêncio dos filhos de uma noite escura que tardava em clarear, cantou para que o sol chegasse mais cedo e, quando a aurora chegou sussurrou-nos ao ouvido que o calor da manhã veio na flor de um cravo que ele plantou.


Mas por agora, ora bolas…a madrugada já vai longa e de Abril resta apenas o eco de vozes abafadas pela distância do tempo. As vontades murcharam, os medos fizeram-se Golias, o preto e branco da revolução ganhou cor de esquecimento e das janelas trespassam apenas pequenos feixes de luz que me dificultam a visão e me impedem de ver o que realmente aí vem.


Mas há sempre outro dia amanhã, há sempre outro dia, há sempre uma manhã a conquistar depois de mais uma noite falhada. A luz está por aí…algures, dentro de mim, dentro de ti, dentro desta nossa terra às escuras. É preciso desenterrá-la para que ela se faça de novo vontade, para que eu e tu e todos a arranquemos do lugar onde se escondeu e a gritemos para mais um dia de alma lavada e coragem na ponta dos dedos. Volta Zé. Volta. Inventa-te outra vez noutra força, noutro amor, noutro suspiro de som, em qualquer coisa bonita que tu tão bem sabias dedilhar, em qualquer coisa frágil, em qualquer coisa soprando a coragem das gentes que pertencem a este pedaço de chão milenar. Não vamos a lugar nenhum, afinal já passámos por tanto. Nós esperamos mais um pouco. Volta Zé. Volta. Ainda vens a tempo. Virás sempre a tempo de recomeçar. A luta ainda agora vai no adro sabes? Afina a guitarra, descobre os acordes da doce temperança de quem conhece o respirar de um ser livre.

Volta Zé. Volta.


Abre a janela e olha Zé, liga a TV (já a cores e com alta definição). Sabes Zé? Agora até temos telefones inteligentes que dão para fazer tudo, tudo e nós não fazemos coisa alguma. Tu já viste isto Zé? Tão inteligentes que nos vão moldando a estupidez a galope de uma ligação Wi-Fi.


Fechámos os olhos. Andamos por aí de olhos fechados, aos encontrões, às apalpadelas, somos anjos caídos nascidos da placidez da modernidade. Cozemos em lume brando, Zé.


Tu já viste isto Zé? Às vezes é preciso desobedecer como dizia o Maia. É preciso desobedecer. Cada vez mais desobedecer Zé. É precisar encher o saco de pedras e lutar como David lutou Zé.


Caiu o manto na manhã que trouxe Abril Zé. O frio da memória de um país que acordou livre arrefeceu-me os braços fortes e o chão da estrada está sujo de gente que barra o caminho e prende a vontade nascida de uma flor, Zé. A noite insiste em continuar no poder de quem nos quer amarrados e a paixão dissipa-se na vontade de poucos Zé. Mas merda Zé! Somos mais, somos maiores, somos tantos que o gatilho de um cravo na ponta de uma arma tem de disparar tantas vezes até que os olhos fechados ganhem vida outra vez. Sim, somos as balas da revolução que não saíram da cartucheira de um país aos pedaços. Abril ficou esquecido no Terreiro do Paço e para que a manhã nasça de novo teremos de ferir com palavras e gritos e músicas de dor e sangue a esperança de tanta gente que vive numa promessa de liberdade que vai desaparecendo a cada dia vencido.


Volta Zé. Volta. Ainda vens a tempo. Virás sempre a tempo de recomeçar. Quarenta e sete anos depois.


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