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Episódio da História de Portugal contado de uma forma palerma e sem um pingo de objectividade

Entrevista levada a cabo por

João Pedro Santos ao poeta Fernando Pessoa.


João Pedro Santos

JPS lá Fernando. Como tem passado?


Fernando Pessoa Cá vou andando. Sabe que isto com a pandemia tem sido mais complicado de escrevinhar umas coisas, não tenho podido estar com os outros como no antigamente.


JPS Os outros? Refere-se aos outros artistas, intelectuais, malta dos copos no Martinho da Arcada?


FP Esses também, claro. Mas refiro-me aos outros “eus”.


JPS Como assim?


FP Eh pá, mas você vem para uma entrevista assim tão mal preparado? Estou a falar do Álvaro, do Ricardo e do Alberto.


JPS Ah, os heterónimos, claro, claro. Mas... não percebo a relação da pandemia com a incapacidade de poder escrever com os seus heterónimos?


FP Já lhe disse ainda agora... como não tenho podido estar com eles, não temos conseguido criar como dantes. Ainda tentámos encontrarmo-nos por Zoom aqui há uns tempos mas aquilo não funcionou lá muito bem.


JPS Por Zoom??


FP Evidentemente, quando uma pessoa não tem cão, caça com gato, nunca ouviu dizer? Olhe, o Alberto anda sempre pelo campo e não percebe nada de novas tecnologias, veja lá que ainda tem um Nokia 3310 com aquele jogo da cobra. Estou farto de lhe dizer para arranjar um smartphone mas ele vem sempre com aquela conversa que não precisa cá dessas coisas para apascentar as ovelhas, que no Ribatejo é que se está bem, que o rebanho é os seus pensamentos e os seus pensamentos são todos sensações... enfim, é um “vira o disco e toca o mesmo...” e portanto nunca lhe ponho a vista em cima.


JPS E os outros dois?


FP Bem, lá apareceram mas o Ricardo estava a usar o 4G e ficou sem dados a meio da conversa. É no que dá passar a vida a trocar mensagens e áudios e vídeos com a Lídia, antes ainda escrevia cartas de amor, ridículas mais ainda assim cartas, agora está um preguiçoso do caraças. Fiquei só eu e o Álvaro.


JPS E ainda se conseguiu adiantar algum serviço?


FP Eh pá, pronto, sabe como é o Álvaro, meio variado da pinha. Parece que tem Tourette, o raça do homem... volta e meia e assim do nada começa-me aos gritos, “Come chocolates pequena!! Come chocolates!! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates!!” Perde-se muito nestas maluqueiras dele.


JPS Mas é genial, não concorda?


FP Pronto, tem os seus momentos como aquela muito bem esgalhada do “não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada, à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo” mas depois é como diz o Álvaro, “Génio? Neste momentos cem mil cérebros se concebem em sonhos génios como eu, e a história não marcará, quem sabe? Nem um...” portanto isto da arte depende muito de quem está do outro lado à escuta.


JPS Fernando, perdoe-me a indiscrição, mas eu estava mesmo convencido que estes heterónimos e o Fernando eram a mesma pessoa. Quer dizer, entendo as subtilezas de estilo mas acreditava que fisicamente existisse apenas o Fernando.


FP Mas acha que eu lá tinha tempo para isso? Entre a tipografia, a revista Orfeu, os poemas, os copos e as ressacas mal tenho tempo para dormir quanto mais para ser mais do que eu. Não senhor, cada poeta com a sua vidinha.


JPS No mês de Junho comemora-se o dia de Portugal da Língua Portuguesa, de Camões e das Comunidades. Como vive esta efeméride?


FP Com algum distanciamento, até por motivos de estar falecido. Tirando esse pormenor, congratulo-me com o 10 de Junho como qualquer bom português. Acho que um tributo à Língua é sempre de louvar e também às Comunidades que por esse mundo fora plantam a semente Lusa. Não deixo no entanto de sentir uma pitada de injustiça por causa do Luís Vaz.


JPS Denoto aí alguma rivalidade intelectual?


FP Nada disso. O Luís Vaz tem todo o mérito por ter escrito os Lusíadas, uma epopeia do caraças, e fartou-se de nadar para salvar o manuscrito de se perder nas profundezas do mar-oceano. Eu nem com dois olhos me desenrasco dentro de água, quanto mais só com uma vista. Merece. Mas vejamos, o Luís Vaz era só um e tem direito a um dia inteiro à sua memória. Eu, que a bem dizer sou quatro, nem uma meia-horinha me dão.

Fotos de Jaime Silva - CC BY-NC-ND 4.0 e Adam Nieścioruk - Unsplash
Fotos de Jaime Silva - CC BY-NC-ND 4.0 e Adam Nieścioruk - Unsplash

JPS Ah, afinal é só o Fernando!


FP Sim, mas só para algumas coisas. Para outras sou vários. Depende das circunstâncias. Por exemplo ser vários dá imenso jeito na altura de pagar contas.


JPS Sente-se, portanto, merecedor de um feriado em sua honra?


FP Sim, sim. Eh pá, vejam lá isso. O 13 de Junho que foi quando eu nasci seria uma boa data. Por exemplo, se bater a uma segunda-feira, com o 10 de Junho à sexta ainda se consegue tirar quase uma semanita de férias às portas do verão. Não me parece nada má ideia.


JPS E já foi vacinado?


FP Eu já, mas o Alberto, Ricardo e o Álvaro ainda estão em lista de espera, a ver se o Vice-Almirante lhes manda uma SMS. Deve estar para breve.


JPS Para finalizar, o Bernardo Soares? Tem mantido contacto?


FP Não seja palerma. O Bernardo não existe. Só dentro da minha cabeça.


JPS Obrigado Fernando pelo tempo disponibilizado para esta entrevista.


FP Ora essa, nós é que agradecemos.


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