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Episódio da História de Portugal contado de uma forma palerma e sem um pingo de objectividade

Cristóvão Colombo, 1480



João Pedro Santos

Entrevista para a revista mensal Atlântico a um jovem empreendedor cheio de sonhos e empreitadas por fazer (ou já feitas).


De referir que o autor desta crónica baralha-se um bocado com a coerência espaço-temporal, como já devem ter percebido.


Jornalista Cristóvão Colombo, Genovês, investigador, explorador, bom cozinheiro, amante de músicas do Eurofestival da Canção, construtor de Playmobil. Tudo isto num homem só. Ainda assim, o que melhor o caracteriza?


Cristóvão Colombo Bom, tudo isso é verdade tirando a parte de ser Genovês, sabe? Eu quero acreditar que sou mas parece que há para aí um livro do José Rodrigues dos Santos que afirma que eu na verdade sou português e também não me sinto no dever de desmentir o homem. Em boa verdade sinto um bom arrepio na espinha sempre que oiço uma música do Toy e muitas vezes até dou por mim a cantar no duche o “Sensual, és tão Sensual!” enquanto que as cantilenas do Eros Ramazzotti ou uma pratada de linguine al pesto com focaccia já não me dizem nada, por exemplo. Troco bem por rojões ou uma valente feijoada à Transmontana. Dado esses ligeiros pormenores da existência posso muito bem ser português. Quem sabe? E também torço pelo Os Belenenses que é coisa que só um verdadeiro lusitano é capaz de fazer. Quanto ao que me caracteriza penso que sou um grande jogador de sueca e também levado da breca num sólido concurso de imitações de concorrentes do The Voice, especialmente se puder cantar músicas do José Cid. Ou de alguém que tenha imitado o José Cid.


J Pois.. Fale-nos então um pouco sobre o que o move.


CC Bom eu gostaria de ter um cavalo mas por ora ainda tem de ser com um burro muito velho de pêlo cor-de-laranja com um feitio tramado chamado Donald.


J Compreendo mas refiro-me aos seus objectivos futuros, as suas ambições, os seus sonhos.


CC Ah! Tenho muita coisa para fazer. Olhe, acabei de tirar a carta de marinheiro e conto em breve navegar para Oeste e descobrir a Colômbia.


J Refere-se ao Continente Americano?


CC Pronto, já começam as manias da imprensa das massas! Qual Continente Americano! Continente Colombiano! Colombiano! Escute, qual é o meu apelido?


J Hum... Colombo...


CC Ora vê? Então porque carga de água é que o Continente que eu vou descobrir tem o nome de “Americano”? Eu respondo já. Porque esse facínora do Américo Vespúcio tem bom imprensa, é o que é! Sei de ter visto que o Américo, certo dia, largou com uma traineira ali da zona da Torre de Belém para ir até à Trafaria e foi parar a Santarém. Como é que um indivíduo destes ia descobrir a América. Perdão, a Colômbia? O Américo nem com um GPS consegue ir sozinho do quarto até à cozinha, quanto mais atravessar o Atlântico. É um escândalo, e ninguém faz nada para acabar com estas fake news que duram há séculos.

Ilustração: Kardo

J Diz portanto que não tem o reconhecimento que lhe é merecido acerca dos feitos que ainda não fez mas irá concretizar, é isso?


CC Exactamente! E depois fiquei com uma má fama que não se pode. Repare, tive eu uma trabalheira do caraças para descobrir o Continente Amer.. Colombiano para no fim me calhar em nome apenas um país na América Latina conhecido principalmente por ser um viveiro de traficantes de estupefacientes.



J E não só, e não só. Também possui café de enorme qualidade e a Shakira.

CC Acho muito pouco. E se é para ser assim até estou a ponderar não descobrir a Am... Colômbia, sabe?


J Então o que pensa fazer, é que parecendo que não as pessoas vão habituar-se a pensar no Cristóvão Colombo como o descobridor do Continente Americano, mesmo que o referido Continente não venha a ter o seu nome.


CC Lá está você a achincalhar-me o ego. Bom, penso abrir 3 restaurantes na Baixa de Lisboa. O Niña, o Pinta e o Santa Maria, com temáticas de comida tradicional do Novo Mundo.


J Hamburgueres, quesadilas e afins?


CC Não. Vamos ser fortes no cozido à Portuguesa, polvo à Lagareiro e sardinhas mais para o Verão.


J Mas isso são comidas portuguesas!


CC São mas eu vou servi-las em Americano, ou Colombiano, ou Inglês... Em estrangeiro vá, para parecer que é mais chique está a ver? Parece que é assim que Portugal vai para a frente, com turismo. E sendo em estrangeiro sempre carrego um bocado mais nos preços. Isto das explorações marítimas não tem futuro algum. Foi chão que não vai dar uvas nenhumas de jeito. Se escutar os governantes a falar, é só turismo, turismo, turismo. Nunca os vi referir que querem armar meia-dúzia de caravelas para andar por aí pelo mundo a descobrir coisas novas assim à parva, pelo menos no futuro, que é a bem dizer o presente de quem está a ler esta crónica esquizofrénica.


J Compreendo, acho eu... mas assim, quem é que vai descobrir a América?


CC Os Vikings parece que já descobriram. Vi na Wikipédia. Portanto está resolvido. E veja bem, também não há grande interesse, aquilo no futuro vai ser uma salganhada dos diabos. Tudo à chapada em tempo de eleições, ninguém se entende com nada. E vai ser um vê se te avias para ter mão nos Americanos.


Principalmente no que toca a contar votos, a fazer filmes, a inventar redes sociais onde toda a gente vai querer morar e mandar bitaites sobre tudo e mais alguma coisa. Até vão inventar o computador e o telemóvel só para poderem meter as invenções todas lá dentro e não terem de sair de casa para nada. Você vai ver, será o mundo vestido com as cuecas por cima das calças. Na.. está resolvido. Fico-me pelos restaurantes, se é para me endividar ao menos que seja a um pulinho do cais do sodré para poder jogar umas valentes partidas de sueca com os meus compadres.


J Sim, aí tem alguma razão, nunca conheci um americano que apreciasse jogar à sueca.


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