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De “menina da rádio” à cara das notícias em português com origem na Alemanha

Joana de Sousa Dias, vencedora em Portugal


PT Post


Joana Sousa Dias sempre quis ser jornalista. Em início de conversa com o PT Post, partilhou memórias dos gravadores e cadernos que os pais lhe ofereciam já nos seus tenros 7 anos, e com os quais ia ensaiando fazer entrevistas e reportagens que, na altura, passavam pelo registo das impressões dos passeios que faziam juntos.


O pragmatismo da vida afastou-a momentaneamente da vocação, afinal foram tantas as vozes a alertar para a dificuldade de emprego no jornalismo. Mas, após divagar pela ideia de estudar psicologia ou direito, desenganou-se, como diz, e com o apoio dos pais deixou Chaves e partiu a caminho de Lisboa para estudar jornalismo na Universidade Católica.

o 1º prémio em Portugal foi entregue pela embaixatriz Teresa Leal Coelho à jornalista Joana de Sousa Dias
Foto ©Kristin Bethge

O 1º prémio em Portugal foi entregue pela embaixatriz Teresa Leal Coelho à jornalista Joana de Sousa Dias


Durante o curso, surgiram colaborações esporádicas com o Jornal de Chaves e surgiu uma primeira oportunidade de dar um salto “lá fora”, no seu caso a Barcelona, no âmbito do programa Erasmus. Curso feito, veio o estágio na Antena 1 / Antena 3 da RDP, a que se seguiu uma segunda experiência internacional, desta feita em Itália, através do programa Leonardo. Ficou patente, desde bem cedo, a vontade de ir e estar no exterior. A vontade de ser correspondente surgiu igualmente cedo, contou-nos, fruto da admiração que mantinha por quem desempenhava essa ocupação, que diz requerer uma preparação extrema e envolver, muitas vezes, estar-se sozinho a “escavar” histórias, quantas vezes em idiomas pouco apelativos ou nada fáceis.


Nunca sonhou com a ida para cenários de guerra, mas sempre se imaginou a cobrir as realidades de países europeus e dos EUA.


Depois de um estágio na TSF, após o regresso de Itália, surgiu a oportunidade de fazer um mestrado em rádio na Universidade Complutense de Madrid, numa parceria com a Rádio Nacional de Espanha. Ao longo desse período de estudos trabalhou, simultaneamente, como correspondente para a TSF, numa altura bastante tumultuosa, com as manifestações na Porta do Sol aquando da crise financeira a terem lugar todos os fins-de-semana. Acompanhou tudo isso e foi aí que percebeu o quanto gostava da função de correspondente.


Hoje em dia, Joana Sousa Dias é a cara da Lusa da Alemanha e quase toda a informação que chega a Portugal sobre este país tem a sua assinatura. Um conjunto de notícias que constituem uma reportagem sobre o legado de Merkel valeram-lhe o 1º prémio da 1ª edição do Prémio Luso-Alemão de jornalismo, pretexto para conversarmos sobre o seu trabalho.


PT Post Fizeste de Berlim e da Alemanha a tua casa. Porquê esta escolha?


JSD Apesar de ter havido a oportunidade de ficar em Espanha, após o meu mestrado, regressei ainda por um período curto a Portugal, mas que logo me fez ver que o que eu queria mesmo era estar fora, ser correspondente. Comecei a considerar onde é que poderia haver uma boa oportunidade para contar histórias, onde haveria falta de jornalistas e informação. A Alemanha surgiu-me quase de imediato, porque pouco chega a Portugal sobre este país e a comunidade portuguesa que aqui reside. Aliou-se a isto o facto de ser uma apaixonada por história, principalmente história contemporânea, Guerra Fria, II Grande Guerra Mundial: não há sítio nenhum no mundo com mais história, e mais por descobrir, do que Berlim: é uma cidade cheia de cicatrizes, cicatrizes muito bonitas, costumo dizer, e eu gosto muito de as descobrir. Cinco anos depois de estar nesta cidade continuo a descobrir coisas, sempre. E essa descoberta constante mantém-me muito desperta para a realidade, muito curiosa e continua a atrair-me muito. Poder juntar isso, quase um hobby, que é conhecer mais da história, e o jornalismo, e contar histórias, foi o que me trouxe aqui, me mantém aqui e que espero que continue a manter-me aqui por mais anos.


PTP Dando um salto até hoje, entendes ter conseguido dar esse contributo para tornar a Alemanha mais noticiada em Portugal e a comunidade portuguesa mais conhecida? O que é que crês ter conseguido alcançar e o que é que ainda está em falta?


JSD Eu acho que sim, já consegui estabelecer algumas pontes. Creio, contudo, que ainda há muito, muito trabalho a fazer, continuo a achar que ainda se noticia muito pouco da Alemanha em Portugal. Sou da opinião que muito do que se passa na Alemanha pode ter efeito em Portugal. Portanto, só por aí, devia dar-se mais destaque ao que se passa em Berlim, ao que se passa na Alemanha e ao que se decide por cá. Até porque Merkel teve sempre, nestes últimos anos, uma política muito virada para a Europa, e o que se passa na Europa, obviamente, acaba por ter reflexos em Portugal.


Entendo que a Alemanha tem muitos assuntos que podem ser do interesse de Portugal. Obviamente que eleições regionais talvez não tenham diretamente um interesse enorme para o eleitor português. Contudo, as eleições regionais acabam por ter impacto nas eleições que vão definir quem será o próximo chanceler na Alemanha e isso terá consequências para Portugal, directas ou indirectas. A Alemanha é o país é um país que tem uma enorme força na Europa e acho que não tem o destaque que deveria ter ou não tanto quanto entendo. Acho que isso está muito relacionado com a língua, que é uma barreira.


PTP É a língua, é a distância cultural, as duas coisas juntas?


JSD As duas coisas. Talvez a Alemanha não seja um país convidativo para os jornalistas para trabalhar. Quando há correspondentes a trabalhar a tempo inteiro há, obviamente, mais notícias a serem dadas desse país e as coisas são mais divulgadas. Aqui na Alemanha não é isso, há muito poucos jornalistas portugueses. E quando há pouco jornalistas portugueses a informação não passa, porque a agência de notícias alemã, a DPA, escreve em alemão, com alguns artigos traduzidos para inglês, e a maior parte dos portugueses não fala alemão. A Portugal chega a Reuters e a France Press m aos meios de comunicação social portugueses, ou seja, chegam notícias em inglês e em francês sobre esses países.


PTP O trabalho enquanto correspondente da Lusa permite-te sentir plenamente feliz como jornalista? Ou falta-te a rádio e a reportagem mais de fundo?


JSD Eu não me dedico, infelizmente, exclusivamente ao jornalismo. Ou seja, sou correspondente, mas o jornalismo não é a minha única actividade. Neste momento estou a fazer o que gosto e o que me faz feliz. Tenho muita liberdade para propor novas histórias, reportagens, diferentes ângulos, mas como jornalista de agência há temas aos quais não posso, nem quero, escapar, e que devem ser cobertos. Gostava de poder ter mais tempo para fazer ainda mais coisas, escrever mais, porque a Alemanha tem um sem fim de temas interessantes, mas o dia só tem 24 horas (risos). Mas considero-me uma afortunada. Trabalho à distância, com colegas com quem só estive presencialmente algumas vezes, mas sinto-me muito apoiada, e acompanhada, e ao mesmo com muita liberdade para escrever. Não sinto falta da rádio, porque continuo a colaborar com a TSF.


PTP A propósito do prémio luso-alemão de jornalismo, coloco-te duas questões. Consideras que seja uma iniciativa que contribua para tornar a Alemanha mais interessantes para os jornalistas portugueses? O que é que representou para ti ganhares este prémio?


JSD Acho que a iniciativa é excelente e que vai definitivamente ajudar a que se escreva mais sobre a Alemanha e sobre a ligação da Alemanha a Portugal. Não tenho dúvidas em relação a isso e acredito mesmo que no próximo ano surjam mais candidaturas, porque esta foi a primeira edição e precisa de se consolidar.


Para mim foi ótimo, foi excelente, porque é o reconhecimento de um trabalho que correspondente que, às vezes, é bastante solitário, ainda mais durante uma pandemia. Se eu já trabalho sempre à distância, a pandemia veio dificultar ainda mais: para além além de não poder estar com os meus colegas, especialmente porque estão em Portugal e eu estou aqui, também na condução de entrevistas deixou de haver contacto físico, acabando por me deixar um bocadinho isolada, de alguma forma. Portanto foi um reconhecimento, uma coisa boa que aconteceu durante uma coisa tão má, que é esta pandemia. Fiquei muito contente, não só por mim, mas também pela Lusa, porque foi o primeiro prémio que ganho pela Lusa e eu achava que era uma “menina da rádio”, porque fiz mais de 10 anos de rádio, e, afinal parece que sou “menina de agência” e fico muito contente por isso. Dá-me muita força e mais vontade de fazer mais e melhor, continuar a contar boas histórias, tanto sobre a Alemanha, sobre os temas sobre a política economia, que são talvez os mais relevantes, mas também sobre a comunidade portuguesa na Alemanha, que é forte e é viva.


PTP Sentes-te integrada na comunidade?


JSD Sim, e o jornalismo tem ajudado muito a que isso aconteça, porque me tem permitido conhecer e estar em contacto com pessoas da comunidade que, de outra forma, talvez não tivesse sido possível. Gosto muito de contar as histórias dos portugueses que vivem na Alemanha, aliás, o que me dá mais gozo fazer é precisamente contar histórias de pessoas. E é incrível perceber o talento dos portugueses espalhados pelo mundo em diversas áreas. Dá-me muita satisfação e enche-me de orgulho. É preciso não esquecer que a comunidade portuguesa na Alemanha está muito dispersa, porque o país é muito grande, e é também ela muito diferente entre si. Gostava de poder estar mais em contacto com a comunidade a viver na Renânia do norte-Vestfália, por exemplo, mas a geografia, e o facto de vivermos numa pandemia, nem sempre ajudam.


PTP Há alguma temática que te ocorra logo que queiras cobrir no futuro?


JSD As eleições! Essa é logo a primeira. Eu gosto muito de política, estou ansiosa e vai ser emocionante acompanhar os primeiros meses do novo chanceler e da formação do novo governo.


PTP Se calhar pedia-te um comentário final sobre Merkel, afinal reportaste tanto sobre a chanceler e escolheste um conjunto de artigos sobre o seu legado para submeter ao prémio luso-alemão de jornalismo. O que representa Merkel para ti, mais do ponto de vista jornalístico do que politico, e que memória te deixa?

JSD Merkel é, de facto, incontornável. Para a maioria dos portugueses Alemanha e Merkel são indissociáveis, não há uma sem a outra. Independentemente de se estar, ou não, de acordo com as políticas ou a ideologia por trás delas, é consensual que foi uma governante com pulso, que conseguiu dominar num mundo ainda muito de homens. Uma mulher cientista, a primeira chanceler da Alemanha, quase 16 anos no poder, considerada personalidade do ano pela Forbes e pela Time em vários momentos, é algo que merece ser marcado, que é notícia, e sobre o qual eu quis escrever. Daí a série de 4 artigos que focam 4 áreas distintas que marcaram a sua governação, do impacto na Europa, à Troika, passando pela política de refugiados e pela imagem e relação com os meios de comunicação.


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