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Corpo deitado aguenta muita fome

Atualizado: Ago 21


Rita Sousa Uva


Não obstante os riscos em várias línguas, neste Verão 2020 deliciei-me com as cálidas águas do meu quente Algarve, que me acolheu com as cortesias habituais: o sol esplêndido, a simpatia cautelosa, a hospitalidade bem humorada e cordial q.b., pois se eu tenho ar de morena autóctone, quando me distraio, saem palavras esquisitas, observam miúdos e graúdos. Alguns ficam de pé atrás e querem saber de onde venho e se estou cá de férias ou de passagem ou se sou mesmo daqui.


Não sou, explico, mas parte da minha família é, o que baralha o interlocutor, pois se a família é daqui, como diabo eu não sou daqui também?, magicam os olhinhos vivos e castanhos, azeitoninhas que brilham no escuro, pele trigueira que posta em linho branco podia ser marroquina, turca, grega, berbére, não é só à noite que os gatos são pardos.


Aqui e em qualquer lugar, há que ter olho vivo e pé leve, que enquanto o diabo esfrega um olho, acabas a comprar túnicas de que não precisas e a arrematar artefactos de cortiça made in China e chapéus de aba larga a 9 Euros, que estavam a 15, mimha senhora e que irás juntar à tua colecção, se não o perderes pelo caminho com uma rabanada mais trocista do levante. Claro que dias depois passas pelo mesmíssimo chapéu num qualquer centro comercial e reparas que estão a 5 Euros, mas pelo menos contribuíste para a economia paralela e para o empreendorismo local.


Tudo very typical, Madame, very typical, então se fala português, porque está aí tão calada???, interpela-me uma feirante vestida de preto saltibamco, com a máscara meio pendurada, o suficiente para ouvir o verniz de quem pena muito e ganha pouco mas também não conhece outro modo de estar, very typical, Madame, very typical.



Só esta conversa mole, este desconversar sem tradução, que vai e vem em ondas suaves, mordiscando a tua pele branca e crédula seria suficiente para me robustecer para o resto do ano em paragens mais frias, menos subtis, mais directas. Ah, mas quem me tira este desconversar mole, este diz-que-disse murmurado por entre as esquinas e o piso mourisco, tira-me as origens, se não faço estas inspirações profundas de Sul uma vez por ano, fico peixe fora de água, as guelras secando e a pele com eczemas de der, die, das.


Nos primeiros dias, andei por aí, de calções, T-shirt e sandálias, sem prWBcupações de maior, comendo peixe verdadeiro e fruta sabendo a fruta, pêssegos escorrendo pelo queixo, tenho sete anos outra vez e estou no mar, de manhã à noite. Escuto as estrelas durante a noite enquanto a vila dorme o sono dos justos.

A vida é mais complexa do que um sim ou um não. A gWBgrafia não determina a espuma dos dias nem as matizes das escolhas – deveria?


Quando saí da hipnose marítima desses primeiros dias, o mundo continuava a girar sobre si próprio, pedaços de parvoíce jorrando bytes e mini-bytes sobre o Covid, o Trump, o Bolsonaro, o Boris - o Brexit já era, num ápice ficou demodé.


Num dia destes que pode ter sido ontem, acrescentou-se a explosão diabólica em Beirute, a anunciada ameaça de fecho sob pena de compra a preço da chuva do Tik Tok, os Champions em Lisboa e a apreensão de toneladas de cocaína em Sines – pergunto-me sempre, para onde vai o material apreendido? - e claro, para terminar, a narrativa do número de mortos do dia anterior e os infectados da hora.


E é neste tom jovial com que se salta da cama, cheio de alegria e optimismo, que não há como notícias fúnebres para começar o dia. Ainda bem que estou a banhos, de outra forma até era menina para sugerir que se informe com mais detalhe sobre as causas das mortes, só para o Covid não ficar sozinho e morrer solteiro sem jeito nem culpa. Afinal, há outras doenças mais graves, mais debilitantes, que justificariam a intervenção rigorosa e célere das autoridades e da sociedade em geral, o apuramento de causas, a alocação de recursos, a distribuição de responsabilidades para que jamais possa acontecer, por exemplo, que dezoito idosos do mesmo lar morram de...desidratação.


Pasmo. Sei que erros se cometem, que perfeição não existe, que o país é pobre – será? - que andamos todos a fazer o melhor que podemos, que todos os procedimentos foram cumpridos, que nada faria adivinhar o desfecho, afirma-se em rigorosos inquéritos e em declarações despudoradas no tweet e nas conferências de imprensa. A sério?


Esta tragédia é uma de abandono, de incúria, de passividade incompreensíveis. E o povo, que é sereno, como esgotou todas as energias a revoltar-se contra a queimada de cães a guardo de um canil, ficou quieto, juntamente com quem nos governa, a tirar selfies e a fazer churrascos com 35º graus de calor.

Não vi uma petição, um movimento, uma conversa de pé de orelha com os responsáveis do lar, uma movimentação cívica de repúdio e de exigência. Terá havido? Os nossos tios, avós, pais morrem de desidratação num lar e não zurramos todos a clamar por mais cuidado, senhores, mais cuidado, que somos todos gente!


Recordo o ditado: corpo deitado aguenta muita fome.


Sede é que já não.


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