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Bolas de Berlim - Podcast maroto

Denise Pereira tornou-se nossa conhecida através da interpretação da poesia que escreve enquanto “Marioneta Inquieta”. Nestes dias de confinamento, surpreendeu-nos com um novo projecto criativo, no formato podcast com o título “Bolas de Berlim” e descrito pela autora como um “podcast maroto, recheado de histórias que derretem na boca como creme de ovos e picam a língua como açúcar polvilhado. As aventuras de uma mulher portuguesa pelos meandros da dating life nesse mundo exótico que é o estrangeiro". No primeiro episódio, “Tusa do Apocalipse”, avança ainda que “o aqui se pretende é criar um verdadeiro ambiente de peguei, trinquei e meti-te na cesta, misturando a candura das experiências pessoais, da auto análise, nem sempre racional mas seguramente intensa e emotiva, com o estudo sociológico e antropológico feito num jeito completamente selvagem, assegurando que nem sempre as opiniões são bem fundamentadas, prometendo aliás que serão quase sempre tendenciosas e enviesadas”. Quisemos conhecer melhor este projecto, que nos traz boa disposição e leveza nestes dias tão carregados.


TPP


PT Post Porquê a escolha do formato de podcast? Como olhas para a popularidade actual deste formato: há uma saturação do input visual e uma necessidade de voltar à simplicidade da voz?

Denise Pereira Isto começou por serem mensagens de voz que eu enviava a amigas em Portugal, às vezes, a contar situações que vivi. Se calhar, por isso, acabei por me focar na voz. As pessoas começaram a ouvir essas mensagens a contar algumas coisas como se fossem telefonemas. Houve algumas amigas, maioritariamente em Lisboa, mas também aqui em Berlim, que achavam que eu tinha tantas histórias e passavam-se tantas coisas ridículas, e ao mesmo tempo divertidas, na minha vida sentimental e que achavam que eu tinha muito jeito para contar as histórias, com as quais se divertiam muito. E houve alguém que deu essa ideia do podcast. Houve outras pessoas que sugeriram um blog, um livro... Eu como vi isto como story telling, e como estou habituada a fazer as performances de poesia, onde a voz tem sido sempre um elemento que é muito elogiado pelas pessoas, pensei fazer uso da minha voz e pensei mais no podcast. Acho que também cria um certo mistério, quem é a pessoa que está do outro lado a contar aquelas histórias: acho que torna mais fácil, se calhar, empatizar com a história que está a certa contada, fala-nos mais quando é uma voz que não tem propriamente um rosto. E é verdade, o podcast está na moda e agora há software que torna mais fácil gravar, o que acabou por ser o último empurrão, porque isto é uma ideia que já tem um ano e meio. Foi uma amiga de Lisboa que sugeriu o nome e eu achei que era delirante, achei logo que era incrível e que fazia todo o sentido.

PTP Ouvindo-te, parece teres uma propensão para viveres histórias caricatas na tua dating life!...

DP (Ri-se) Uma coisa que acho importante no podcast e que eu gostava que ele representasse é a possibilidade das pessoas poderem identificar-se e não se sentirem tão sozinhas nos seus desastres amorosos. Porque isto é uma coisa que não acontece só a mim. Houve uma altura em que sim, pensava que isto só me acontecia a mim, que só eu é que tinha estas histórias; depois comecei a perceber que não é bem assim. E até pensei durante algum tempo, porque falava mais com pessoas aqui em Berlim, que fosse um fenómeno de Berlim, por ser uma cidade onde tudo é mais ligeiro. E também há muito mais pessoas e pessoas muito diferentes, algumas pessoas com algumas taras (ri-se). Então uma pessoa pensa “ok, se calhar isto é uma coisa da cidade”. Mas, depois, falando também com amigas em Portugal, percebo que é uma coisa generalizada. Eu acho que estas histórias caricatas não têm só a ver com os outros, também têm um bocado a ver connosco, na relação somos sempre duas pessoas. Daí ter enfatizado no teaser mais esse lado do estrangeiro, porque acho que também tem muito a ver com o facto do mundo ter evoluído muito rápido, esta coisa do amor moderno com as tecnologias criou uma série de hábitos e de formas das pessoas se conectarem e de se ligarem que é muito diferente daquela que existia há dez, quinze anos.

PTP Estes episódios são agora mais recorrentes porque tudo é mais fácil, muito mais directo e até dá para manter o anonimato inicial?...

DP Claro, e também acho que vem doutra coisa: as diferenças culturais. Eu acho que nós em Portugal vemos o dating doutra forma, aliás basta até pensar nos vocábulos que temos para denominar as coisas: em português temos poucas palavras, utilizamos o namorar, que é uma coisa mais séria. Acabamos por usar todas estas palavras como dating, o flirt, que são palavras que não temos na nossa língua sequer. E é toda essa adaptação a uma maneira diferente de viver as relações ou de viver as situações mais íntimas, porque não estava preparada para isto. Acho que às vezes sim, tenho uma propensão no geral para situações caricatas, não é só neste sentido, mas também porque absorvo muito as coisas e dou importância àquilo que acontece. E era pegar nessas coisas e criar algo divertido, mas também um bocadinho de ensinamento...

PTP De partilha?

DP Sim, partilha e um bocadinho dizer aquilo... até faço brincadeiras com isso, é um podcast totalmente enviesado porque é a minha própria experiência, não quero ser uma educadora das relações, até porque não tenho nada para ensinar como se perceberá no podcast (ri-se)! É um bocadinho story telling, as dificuldades relacionais mas, de certa maneira, mostrar um lado que às vezes não é tão mostrado, que é o lado feminsimo, o que é que as mulheres acham disto. Especialmente porque em Portugal não somos muito educadas para falar sobre estas coisas de uma forma divertida e aberta. E acho que era um bocado isso, fazer auto-reflexões do que é que, das coisas que mudaram em mim, ou as coisas que comecei a questionar quando submetida a um novo tipo de interacção romântica.

PTP E como encaras o papel do dating na vida moderna ?

DP Aquilo que posso dizer é que sinto, e é talvez uma motivação por trás do podcast, que viver em Berlim, embora ache que se estenda a muitos outros lugares, é... Berlim é uma cidade muito solitária, em que há sempre muita coisa para fazer, mas em que as pessoas se sentem sós e vivem sozinhas. Então não sei, acho a forma como o dating aqui em Berlim, e que se calhar se está a globalizar, passa muito por esta ideia de ser uma coisa mais esporádica, menos séria. Mas as pessoas, no fundo, continuam a querer essa intimidade, mas acho que estamos num momento em que é difícil saber qual é o papel que ocupa nas nossas vidas, porque há uma série de outras coisas, especialmente na vida das mulheres. Até há pouco tempo havia uma visão mais tradicional do papel da mulher na sociedade e, de repente, as mulheres já não têm como objectivo casar, isso pode ser um objectivo, mas não é o objectivo último. Portanto, estamos todas a tentar adaptar-nos a isto, às pessoas terem mais independência económica e isso, a que se somam as tecnologias, trazem uma série de mudanças

PTP O momento de confinamento social actual é um momento de confrontação com essa solidão?

DP Pois, olha (ri-se)! Sim, acho que de repente, pelo menos para mim, estou a falar a um nível muito pessoal, acho que vivia relativamente bem com a minha independência e com o facto de estar sozinha na minha casa. É uma coisa que ainda gosto e que ainda estou a gostar na quarentena, dá-me muito tempo e muito espaço para projectos criativos, mas faz-me pensar muito sobre o futuro, se de facto esta independência que nós cultivamos é aquilo que todos queremos, porque agora as pessoas dão por si a pensar que estavam melhor se tivessem alguém, não é? E isso foi também um bocadinho o que eu tentei mostrar no primeiro episódio, que eu acho que vai muito para além da sofreguidão sexual, como eu digo, mas acho que também vem disso, das pessoas, de repente, se sentirem muito isoladas. Isto não foi um fenómeno só em Berlim, porque sei de algumas amigas, até em Lisboa, que nunca tinham usado aplicativos de dating e que começaram com OkCupid e o Bumble. Começaram agora sem saberem exactamente como, porquê e com que intuito, porque nem se podem encontrar com as pessoas, mas talvez porque sim, porque de repente todos entendemos essa solidão.

PTP Qual entendes ser a especificidade em Berlim para a prevalência do isolamento entre as pessoas... ou seja, apesar de uma vida muito activa, prevalecer esse isolamento?

DP Berlim reúne muitas pessoas, costumo brincar com isso e estou muito provavelmente a incluir-me, com um síndrome de Peter Pan: não querem crescer e não se querem comprometer com nada. Então eu acho que a solidão acaba por vir daí, porque ninguém se quer limitar. Nota-se muito mais, quando se combina qualquer coisa, aquele comportamento de “ah, sim, sim, eu talvez apareça”; as pessoas estão sempre à espera... fear of missing out – pode aparecer alguma coisa melhor. É uma vivência um bocadinho egoísta, em que as pessoas sentem que há tanta coisa a acontecer na cidade que ninguém se quer comprometer com nada. Acho que é uma coisa mais presente em Berlim.. nos meus últimos anos em Lisboa já se notava isso das pessoas quererem ter mais liberdade de movimentos. Mas acho que aqui é muito isso... Aliás uma coisa que para mim era impensável, em Lisboa, seria sair à noite, ir para uma discoteca sozinha, é uma coisa estranha... e aqui é uma coisa tão comum, tenho amigos e amigas que vão para o Berghain sozinhos, vão para discotecas sozinhos, é um nível de independência que eu acho que não existe em muitas cidades.

PTP Este é um registo muito distinto do trabalho que te conhecíamos... crês que o teu público esteja preparado para conhecer este teu lado mais “maroto”?

DP (ri-se) Pessoas que me conheçam mal, não conhecem este lado, é verdade. As pessoas que me conhecem bem, e eu aqui nos últimos anos em Berlim tenho estado mais ligada a grupos de spoken word internacionais, muito falado na língua franca inglês, e são grupos que gosto porque misturam muitos géneros: o spoken word, poesia, comédia, story telling, às vezes combinações de várias coisas... E, nesse grupo, obviamente muitas pessoas não falam português, e portanto este podcast vai passar-lhes ao lado, mas conhecem-me não só dos poemas que eu digo – que não são marotos, de todo, tens toda a razão - mas faço sempre algumas intervenções e digo coisas que já anunciam um lado mais cómico. Eu acho que o podcast, mais do que maroto, é mordaz, estou a explorar uma vertente mais de comédia, que é aquela vertente que eu aplico sempre no meu dia-a-dia. Acho que sempre apliquei isso e as minhas amigas que me deram este empurrão para eu fazer o podcast são pessoas que já há muitos anos são, costumo brincar, as minhas maiores fãs, porque já há muito tempo que acham que eu devia fazer stand up comedy. Só que claro, como dizes, e bem, eu não estou habituada a isso, tenho feito coisas com mais seriedade na poesia, mas acho que é um lado mais assim do quotidiano, esta abordagem mais mordaz, cómica e observadora.

PTP Quem te ouve percebe que há um grande à vontade para falar da sexualidade e utilizar palavras muito directas. Entendes que a Alemanha dá mais liberdade para falar da sexualidade ou é tudo uma questão geracional e dos tempos e, hoje em dia, estamos todos mais emancipados?

DP Não, acho que a Alemanha aí , concordo... Bem, primeiro, estar fora do meu país acho que me deu mais liberdade criativa, neste sentido de me sentir um bocadinho menos julgada. Acho que a Alemanha é um país onde as pessoas falam mais abertamente no geral, são mais honestas do que nós no geral e depois na sexualidade, incrível, não é, eu fiquei!... Tive uma vez uma conversa com uma amiga alemã e éramos as duas, cada uma da sua forma, a ficar chocadas com o que ouvíamos. Eu, por um lado, por saber que eles falam de sexualidade desde tão novos com os pais e que os namorados aos quinze anos já dormem lá em casa e pensar que isso são coisas que em Portugal não acontecem. Nós não falamos abertamente sobre a sexualidade e isso é uma coisa que também vou tentar explorar no podcast, que também traz algumas coisas caricatas para estas situações do dating. Porque eu quando eu falo em dating e falo no estrangeiro, falo de muitas nacionalidades que têm abordagens muito diferentes, todas elas, face à sexualidade e ao falar da sexualidade e, portanto, há uma série de mal entendidos e coisas que ficam estranhas muito rápido porque as pessoas têm certos pudores... Eu própria sou uma pessoa que tenho muitos pudores, isto para mim também é muito diferente. Eu tenho este tipo de conversa na brincadeira quando estou com os meus amigos, mas agora estar a gravar isto num podcast, usar estas expressões... Isso é para pensar “bem, os meus pais vão ouvir isto e o que é que eles vão pensar!”... Coitados, já estão de quarentena, como toda a gente, a agora ainda têm que levar com isto, pronto!... Mas para mim também é um exercício, explorar uma outra personagem.

PTP Queres antecipar um bocadinho o que os “teus doces” podem esperar nos próximos episódios?

DP Eu já tenho uma lista, isto é incrível, com quinze tópicos. Posso dizer que vai haver, obviamente, muitos episódios que vão rodar à volta desta temática das dating apps e também demonstrar que nós temos muito medo e as dating apps dão-nos uma visão muito diferente do que é que é o dating, mas que o dating mesmo quando já esta fora das apps é muito influenciado por uma série de ideias. obviamente vou explorar muitos temas de Berlim, vai haver poliamor, essas coisas das relações abertas – é uma relação aberta ou libertinagem? –, e vai ser muito por aí... depois há outras coisas que ainda estão a ser trabalhadas.

PTP E qual tem sido o feedback inicial que tens recebido?

DP É muito bom, de pessoas que me conhecem e de pessoas que conhecem os meus amigos que têm partilhado, e falam que é um podcast que está muito bem escrito, muito bem estruturado. Claro que as pessoas ficam surpreendidas, mas gostam daqueles usos de certas expressões todas misturadas e enviesadas para um pendor mais sexual e pronto.. no geral o feedback tem sido muito bom, daí ter aceitado falar contigo, porque senão estava escondida debaixo da cama a fingir que isto nunca tinha acontecido (ri-se)!


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