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Aplausos


Quando menos se espera, tudo acontece. Mais que isso, tudo se precipita! Pelo menos, foi isso o que vivemos no último mês. Ainda mal havíamos tido tempo de recuperar o fôlego após a formalização do chamado travão de emergência no que respeita a medidas extraordinárias de combate à crise pandémica (sendo que emergência, no caso, representou um mero mês de tagarelice política), quando, de repente, damos por nós a sentarmo-nos de novo em esplanadas e, ainda mal habituados a esse suposto normal, que se nos tornou estranho, já estamos a jantar no interior de restaurantes, a assistir a espectáculos em espaços fechados e, não tarda, a dançar em espaços exteriores com um número de pessoas que já não sabemos o que é.


Mesmo na chamada reabertura, o que não falta é margem para a crítica: como em tudo, mais uma vez, o Estado quis teimar em descurar a realidade que vivem os agentes económicos, não sabendo indicar oportunamente a flexibilização das restrições vigentes durante tanto tempo, permitindo-lhes o devido planeamento e preparação. Tal como voltou a mostrar impreparação, para usar um eufemismo simpático para descrever a situação, ao não ter um plano de flexibilização de restrições progressiva associada à descida exponencial da incidência de casos de Covid-19 na população. Foram tantos os meses em que só apeteceu falar do desvario que foi a resposta à pandemia, que o perigo de me tornar repetitivo foi imenso. E foram alguns aqueles em que foi impossível evitá-lo, embora tenham sido muitos mais aqueles em que prevaleceu o esforço, por vezes hercúleo, de tentar não cansar quem se dá ao trabalho de me ler. E, agora, apetece apontar os erros mais uma vez incorridos na gestão da economia e na sociedade no âmbito do combate à pandemia, que domina as nossas vidas há já tanto tempo. Mas a verdade é que isso parece, a esta hora, despropositado.

Caramba, os prazeres esquecidos da vivência em sociedade que conhecíamos estão de volta!


Cada um os viverá à sua maneira e, para cada um, haverá sempre aquele momento único em que se apercebe disso mesmo. E que valerá a pena celebrar, sem dúvida! Para mim, foi o regresso ao teatro. Não era, de todo, a oportunidade que mais ansiava, mas proporcionou-se. E que se lixe o facto de ter passado o dia em Hannover, onde fiz um teste rápido à infecção por Covid-19, exigência para poder ir à noite ao espectáculo, para me aperceber, sentado no comboio de regresso a Berlim, que tinha de descobrir um centro de testagem na capital alemã, porque o Schiller Theater não reconhecia testes feitos noutros estados federados (por vezes, parece mesmo que vivemos em círculos: a necessidade de maior coordenação a nível federal nesta república que escolhemos para viver foi o meu primeiro texto concernente à pandemia). Mas tudo isso e tudo isto se torna menor quando, no final de uma actuação ao vivo, com risos partilhados, porque afinal se tratava de uma comédia muda muito bem conseguida – Teatro Delusio, levado a palco pelo grupo de teatro Familie Flöz –, sou tomado pela emoção de ouvir aplausos. Sim, algo tão singelo quanto aplausos numa sala em que não sou o único a gerá-los, numa emoção que vai desde a experiência sensorial auditiva à força transmitida no gesto esquecido. Ou, pelo menos, esquecido na sua existência mais pura e honesta, e não num daqueles milhentos esforços que tantos procuraram encetar no mundo virtual, tentando dar-lhe uma aparência de normalidade, que só se podia revelar artificial e, se permitem a honestidade, francamente frustrante.


Neste momento que vivemos, não esqueçamos as privações que tantos passaram neste último ano e meio. É hora de ter confiança e voltar a consumir, apoiando a restauração, toda a indústria de lazer e o turismo para voltarmos a pôr a economia a mexer. E tudo isto não nos esquecendo, em primeiro lugar, de apoiar os agentes culturais, que foram, sem dúvida, quem mais sofreu com tudo o que a pandemia representou para as nossas sociedades, enchendo-lhes a alma com a ida a espectáculos e com aplausos: muitos, que se desejam fortes e longos.


Que seja um bom Verão!


Tiago Pinto Pais


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