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A Velha Bruxa: conto-manifesto de Pedro Monterroso

Entrevista | Pedro Monterroso, autor de “A Velha Bruxa”



Rita Guerreiro

© Raquel Lima

Pedro Monterroso, educador português que reside em Berlim há quase nove anos, tem novo livro editado: “A Velha Bruxa”, um manifesto contra estereótipos gratuitos e pela justiça e igualdade de tratamento. As ilustrações, parte fundamental desta história sobre bruxedos, são da ilustradora brasileira Taline Schubach.

“Desde cedo se preocupou com os feitiços que os adultos fazem para esconder e manipular a realidade”, podemos ler na sua biografia. E é justamente nessa linha que nasceu “A Velha Bruxa”, que terá o seu o lançamento oficial online, ainda durante este mês de novembro, já a pensar no Natal.


Pedro Monterroso estudou sociologia e fez mais tarde o mestrado em serviço social. Trabalha numa escola bilíngue, alemã-portuguesa, como pedagogo, com o foco profissional na integração/inclusão infantil. Em Berlim está em casa, como contou ao PT Post: “Sinto-me muito bem aqui, mas também porque estou em contacto com a língua portuguesa que tanto gosto. Tal como disse um personagem de Agualusa, se a pátria é Portugal, ‘a língua é a minha mátria’, daí também me sentir bem nesta cidade, que tem muitas dimensões, e me permitir conviver paralelamente à língua dominante com a língua portuguesa”. Escreve regularmente para jornais e revistas locais e online, é autor do blog http://garatujos. wordpress.com e publicou, junto com a ilustradora Ruiting Zhang, o livro “Metáforas que me ensinam a pescar” (2017).


O PT Post esteve à conversa com Pedro Monterroso, que nos falou deste seu novo conto-manifesto, uma história curta não apenas sobre bruxas, mas so bretudo sobre a necessidade de desconstruir preconceitos para conseguirmos uma sociedade mais justa- “uma porta aberta” para a sua discussão crítica e consciente.

Portugal Post “A Velha Bruxa” é uma clara crítica aos contos de fadas para crianças. Porquê esta temática?


Pedro Monterroso É uma crítica aos contos de fadas porque eles são o fundamento da vida adulta, as primeiras histórias que os adultos ouvem são em forma de contos. Então temos de começar a desconstruir por aí, desde a infância. Jodorowsky, um conhecido “bruxo”, no seu filme autobiográfico “A dança da Realidade”, a certo ponto do filme interage com a criança que ele era, ou seja, com o seu passado, inclusive abraçando, num ato de proteção e de cura do passado, o que também pode ser visto como a criança interatuando com o seu futuro.

A nossa Bruxa levanta uma questão do sagrado e do profano que, como vês, para mim é um tema muito caro e que tem também uma componente afetiva: a minha esposa, para quem o texto originalmente foi escrito, em 2010, é terapeuta holística, trabalha com Reiki, ThetaHealing, entre outras terapias, e para mim quem trabalha com essas artes, trabalha com magia, e é portanto uma bruxa, no sentido mais nobre do termo, que é o sentido religioso mas também político.


O termo bruxa começou por ter uma conotação pejorativa, advinda de uma imposição das religiões monoteístas e profundamente patriarcais. Na Idade Média, o tempo da perseguição às “bruxas”, todas as mulheres que não interessavam, eram denominadas de bruxas e por isso as histórias e as historinhas as vestiram de preto, lhes puseram rugas no nariz, as caracterizaram como mulheres pobres, solitárias e malévolas em contraponto aos sacerdotes que se vestiam de branco (que detinham o poder da cura espiritual) e, mais tarde, aos médicos, também simbolizados com a bata branca (que detêm o poder de cura física), numa clara divisão cartesiana.


O que eu me pergunto é: quantas dessas mulheres não eram (e ainda não são) mulheres de respeito nas suas localidades, com poder económico, influentes que simplesmente não interessavam? Daí que a caça às bruxas não seja só uma caça às “feiticeiras”, propriamente ditas, mas a todas as mulheres subversivas a um sistema que se impunha e, de certa forma, se continua a impor. Eu acho que o termo bruxa pode ser um termo empoderador e, hoje, volta-se a falar muito do sagrado feminino e eu fico feliz quando vejo que certas mulheres, à minha volta, se apelidam como bruxas. O termo bruxa passa a ter uma questão não meramente religiosa mas também política. Aí entra também a sociologia, que é uma das minhas paixões!

© Taline Schubach

PTP Estereótipos, ideais de beleza, justiça, intenções das personagens são abordados no conto. É muita coisa em tão poucas páginas. O que esperas que os leitores retirem deste pequeno conto?


PM Realmente é muita informação condensada em poucas páginas, mas a minha ideia com este livro, e daí também as ilustrações, é que seja uma porta aberta. Não tenho pretensão de fechar as questões que há em relação às histórias infantis num só livro, nem de achar que tenho tempo (ou conhecimento!) para tal. Mas ouso com ele abrir portas, não só aos leitores mas também para mim. Este livro deu-me ideias para outros contos, outras perguntas, outras bruxarias. Gosto muito de contos, mas essencialmente daqueles micro-contos que às vezes em poucas palavras nos deixam perdidos com perguntas e imagens que não esperávamos. Além disso, eu não venho dizer nada de novo, apenas quero entrar, nesse tribunal, em que me tomei de coragem e entrei, e, como diz a Taline na sua biografia, “dar a palavra aos que não têm voz, nem vez”. No fundo essa é a missão do livro, que se entre nesses contos, onde estão as personagens, os autores e a própria ideologia e que se pergunte: porquê?


No fundo, com este livro eu pretendo provocar de uma forma criativa, remetendo-me para o universo infantil, não pretendendo que seja uma mera provocação, que hoje infelizmente é o que impera nas redes sociais, as palavras tornaram-se baratas (nunca fez tanto sentido o termo fala-barato) mas que ajude a discussão sobre um assunto a abrir-se. E que se abram as portas desses julgamentos!


PTP “Basta do peso das histórias inalteráveis e este é o meu manifesto: basta de trazer adjetivada a priori a vida pela circunstâncias de onde e como se nasce. E espero, para todas as crianças, que não seja um espelho mentiroso, que lhes determine o valor”. Podes explicar melhor a tua visão?


PM Quanto à literatura infantil mais convencional, que ainda é a mais vendável, está cheia de estereótipos e de uma linguagem professoral, de cima para baixo e, tal como a sociedade, segue um modelo hierarquizado, que reproduz valores que são centrais para a manutenção de um sistema social conservador e até reacionário. Há uma clara ideologia nos contos clássicos para a infância, não nos iludamos, é importante para quem escreveu esses contos que as crianças apreendam os valores de submissão, do julgamento do que é bom e do que é mau de acordo com o sistema vigente. Aí, junto com muitos outros, entra o meu texto da Bruxa, que eu gosto de ver como um manifesto. Quando o escrevi, em 2010, achei que ele era não só atual, como tinha um quê de ironia e de humor que eu gostei muito. Tenho muitos que poderia tirar da gaveta, mas este aqui tenho-lhe um carinho especial, porque foi escrito para a minha esposa, que à época era uma grande amiga.


Este tema faz-me muito sentido também porque vivi a realidade que vivi, que foi em Portugal. O nosso país é muito marcado por uma cultura classista, onde a classe social e o status sofrem de uma hiperinflação. A Velha Bruxa é uma mulher pobre, provinciana, provavelmente de origem cigana, que cozinha porções e não apenas poções. Com esta história quero denunciar a estigmatização social que é reproduzida desde a infância.

© Taline Schubach

PTP É um conto bastante curto, pode ler-se de um trago. Apesar de utilizar personagens bastante conhecidas de livros infantis, dirige-se aos adultos e às crianças simultaneamente?


PM O livro não é diretamente para as crianças, mas indicado para a infância, na medida em que todos os adultos têm uma criança que convive com eles, que algum dia já foram, que ainda o são em certos momentos e onde estão muitos traumas, medos e, neste caso, preconceitos que precisamos de desconstruir. Ora para desconstruir temos de ter uma abordagem mais radical, e ir à nossa própria infância. Mas também podemos começar já por construir junto com as crianças de hoje novos valores. Eu estudei sociologia, e aí sempre aprendi que o objetivo da ciência é chegar a novas e boas questões e não necessariamente respostas simples. Ou simplistas.


O livro, embora remeta para um universo infantil, tem uma linguagem que é mais direcionada para adultos, que eventualmente leiam e interpretem com as crianças. Um tema que seja trabalhado desde a infância passa a ter uma abordagem radical, já que a palavra radical vem de raiz. Então sejamos respeitosamente radicais e levantemos novas questões desde a infância. Estarei aberto através de uma página no Facebook para discussões sobre este tema ou outros temas paralelos, que visem a mudança social desde a raíz.


“A Velha Bruxa” pretende abrir essa bruxaria de levantar novas questões e de ser capaz de levantar outras que foram varridas, não com a vassoura da bruxa, mas com outras, para debaixo do tapete. Como me profissionalizei na área da educação, sendo educador de ensino especial, pretendo chegar às crianças com novas abordagens, novas formas de crescer, num sistema escolar muito formatado e determinista. Às vezes, a escola parece-me uma fábrica de cidadãos baseadas nos modelos fabris de Taylor.


Apesar de este texto ser curto, e de ter a intenção de ser lido de uma levada, tem a intenção de ser um ponto de partida, até um meio, mas não uma chegada, digamos um livro aberto, que levará as pessoas a novas questões e até a novos livros, que possam de uma próxima vez ser financiados.

© Taline Schubach

PTP Escreveste a “Velha Bruxa” há 10 anos, podes contar-nos como surgiu a sua publicação agora?


PM A publicação deste livro já é uma ideia que tive há dois ou três anos. Um livro, apesar de hoje em dia ser mais fácil do que em outras épocas de publicar, continua a ter um peso diferente de algo que é postado num blogue. Para um autor desconhecido, implica um custo, que será um investimento do qual espera um retorno, pelo que tem de ter a certeza se quer, ou não, avançar com a sua edição. Depois de me ter decidido por este texto em detrimento de tantos outros que estão na gaveta, para este em específico procurei uma ilustradora que fosse comprometida com o tema. Aliás, não poderia por exemplo ser um homem, já basta ter-me a mim, e se o tema toca o feminino precisa de uma abordagem desse lado, uma experiência na primeira pessoa.


PTP O livro tem uma pequena dedicatória inicial, que não é menos importante do que a história...


PM No fundo, também me sinto um neto das bruxas que queimaram e, tendo crescido com mulheres, que sempre tiveram interesse por aquilo que há para além da vida, presto-lhes homenagem desta forma. Este livro é dedicado à Raquel, mas também à minha mãe e à minha irmã, que são as mulheres da minha vida.


PTP As ilustrações do conto são parte fulcral do livro. Podes elaborar sobre como foi a colaboração com a ilustradora Taline Schubach?


PM A ilustração é um investimento com um custo elevado e que poderá ser de risco, como se fala na linguagem financeira. Apesar de adorar este texto que escrevi, teria muitos outros que adoraria ver publicados e até ilustrados por essa maravilhosa ilustradora que é a Taline e que eu admiro imenso, pelo trabalho dela. Aliás, convém referenciar que a Taline nesta obra teve total independência, eu não lhe encomendei nenhum detalhe, porque sabia que a interpretação dela ia ser a interpretação correta. Tratando a obra um tema feminista, é preponderante que tenha uma mulher não só como ilustradora mas como co-autora, que é assim que eu vejo este livro. Ela deu uma interpretação à obra que me surpreendeu e que lhe adicionou valor (e valores incríveis!), basta ver aquela imagem da sala do tribunal e notar quem lá está sentado: um Saci Pererê, personagem do folclore brasileiro, uma fadinha negra, uma pequena sereia que é uma nativa sul-americana, enfim, ela imprimiu novas abordagens, como mulher, imigrante, brasileira, que é.


PTP Podes falar-nos também um pouco dos outros títulos que já tens publicados, entre eles “Metáforas que me ensinam a pescar” e as colectâneas de poesia da Oxalá Editora?


PM O “Metáforas que me ensinam a pescar” é uma trip, gosto mais deste termo do que do termo viagem, pela carga sócio-histórica que tem, poética em cooperação com uma cara amiga, a Ruiting Zhang. Ela tinha umas ilustrações lindíssimas, oníricas, com umas cores muito suaves que eu me apaixonei, pela leveza e ao mesmo tempo pela profundidade das mesmas. Foi assim que lhe propus uma cooperação e surgiu aquela experiência, aquele projeto, que foi em parceria e muito criativo. Ela não entendia nada de português, então basicamente, eu tinha de lhe traduzir (quase nunca literalmente) aquilo que ela passava a ilustrar. Às vezes era algo mais fidedigno, outras vezes eram interpretações que abriam outras perguntas, e aí está a beleza desse projeto, aos meus olhos. O retorno dos leitores foi relativamente bom, mas mais difuso do que o que será deste novo livro, que tem uma linguagem e uma temática mais direta, que diz respeito a muito mais gente.


Já participei em várias Antologias de Poesia com a Oxalá, editora com a qual tenho sempre o prazer de colaborar, se para tal sou convidado, porque acho que faz um ótimo trabalho na difusão da língua portuguesa cá na Alemanha. O gozo de um livro é poder eventualmente chegar a outras pessoas, ou talvez seja mais aquele ímpeto de querer materializar um pouco daquilo do que de outra forma ficasse apenas preso em forma bits e bytes.

© Taline Schubach

PTP E como encontraste a Edições Vieira da Silva?


PM Foi-me recomendada por um amigo. Mostrou abertura e tratou-me bem desde o início. Infelizmente muitas editoras fecham as portas quando és um novo autor. Hoje em dia também não é fácil para as editoras… houve uma, que eu tanto prezo, que inclusive me pediu desculpas, porque o livro era bom mas não era comercial, resposta esta que poderá afagar o ego a um adolescente que julgue vir a ser estrela de rock, mas que deixa na verdade um pouco decepcionado um adulto que procura financiamento da sua obra de arte.


PTP Contos, poesia, livros, blogues… onde é que tu estás em casa?


PM Eu gosto essencialmente de escrever e gosto de escrever desde poesia, contos, artigos com uma visão social e política, enfim, um pouco de tudo, gosto muito de usar a palavra dessa forma: escrita. Mas também não gosto de uma linguagem demasiado rebuscada, sou fã de uma escrita clara e objectiva, aliás tive uma vez um professor na faculdade, que me disse algo que guardei sempre para mim: dizia ele que não devemos usar palavras com as quais não convivemos, por isso, se não conhecemos profundamente certas palavras, não as devemos simplesmente usar, sob pena de a linguagem cair numa coisa que soa a falso e rebuscado. As palavras antes de serem usadas devem-se namorar e só depois devemos assumir o compromisso de as escrever, ou de as tatuar na folha, que é matéria orgânica (metáfora bonita, não é?). Ao mesmo tempo, como acabas de ver, sou fã de poesia e de uma linguagem menos concreta e mais mágica, por isso também me interesso muito pela escrita que vai desde Borges, García Marquez, Garcia Llorca, Calvino, Mia Couto. Esses autores, embora de épocas e de geografias distintas, são para mim referências do que é escrever bem, com uma missão social, com objetividade, embora trabalhem muito a magia das palavras e descrição do real.


PTP Foste a Portugal recentemente, como foi viajar nesta altura de novas restrições por causa do Covid? E como foi voltar a Berlim?


PM Olha, eu gosto muito de ir a Portugal e sinto muita falta dos pormenores da portugalidade no meu dia a dia. Por exemplo, sentar no café, numa esplanada, de óculos de sol a beber uma cervejinha ou um café, a ver a vida passar na rua é algo que só consigo viver em Portugal. Há sempre alguém que passa, que cumprimenta, há as conversas sobre o bacalhau assado na noite anterior, da senhora ao lado, e o mais comum e que sempre acontece é que alguém conhecido passe, te veja, e simplesmente se sente na tua mesa a conversar, mesmo sem ter sido “convidado”. Esse ócio é super criativo e quando não é, é simplesmente bonito. Além disso, eu gosto da ternura das pessoas, que, por agora, em tempos de Covid, está mascarada, mas não deixa de lá estar. Fui a Portugal, precavi-me, naturalmente, e assim que voltei fiz o teste, porque entretanto Amarante passou a estar incluída na zona de risco. Foi tudo muito rápido. Lembro-me de uma frase que a minha mãe me disse, que ela antes contava os abraços que não dava, porque é uma pessoa de afetos, hoje, ao contrário, conta pelos dedos das mãos todos os abraços que deu desde o início da pandemia. Dá-me pena pela situação económica, ver que tanta gente perde os empregos e volta a estar no limiar da pobreza, por termos uma comunicação social que se aproveita para mostrar e aterrorizar em telejornais infindáveis sobre o Covid. A Agustina Bessa Luís (uma conterrânea minha!), disse uma vez que não precisava que lhe dissessem o que estava errado no país, mas que soubessem o que estava certo e, infelizmente, isso parece que agora está a fazer falta, porque estamos sitiados por uma comunicação social ensurdecedora.

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