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A reportagem sobre a esperança por um passaporte europeu

Fabian Federl, vencedor na Alemanha


PT Post


A participação de Fabian Federl na primeira edição do prémio luso-alemão de jornalismo foi fortuita. O jornalista franco-alemão foi abordado pelo Goethe Institut, no âmbito de um outro trabalho, que lhe deu conhecimento da iniciativa. Prontamente submeteu o artigo “Der Deal / O Negócio”, que venceu o prémio por decisão unânime do júri alemão.

Foto ©Kristin Bethge

Fabian já se dedica a temas que passam por Portugal há algum tempo, como o ilustra uma reportagem sobre a máfia das amêijoas no Tejo, que nos contou ser recebido com muito mais interesse na Alemanha do que havia antecipado. Essa apreciação constitui um motivo para continuar a interessar-se pelo país, algo que não é comum verificar-se entre jornalistas alemães. Por isso mesmo, encara o prémio luso-alemão de jornalismo como um incentivo para que mais temas sejam trabalhados, com particular efeito junto de quem tem, pelo menos, um interesse base por Portugal.


O interesse deste jornalista por Portugal nasceu com a língua portuguesa, que quis aprender desde cedo na vida à conta do gosto pela música brasileira. Em casa falava-se francês, o que ajudou a que, pelo menos na leitura, já percebesse alguma coisa. Seguiu-se a aprendizagem auto-didacta, leviana, em casa, que se tornou mais séria quando escolheu português enquanto segunda área de estudos na licenciatura. Dois anos vividos no Brasil e um mestrado em estudos latino-americanos desenvolveram ainda mais o seu domínio da língua.


PT post Como surgiu o teu interesse pelos imigrantes em Odemira?


Fabian Federl Na boa verdade, a ideia partiu da fotógrafa com quem trabalho, Kristin Bethge, que ao passar férias na costa alentejana se apercebeu da quantidade de nepaleses e indianos a viver lá e a trabalhar na produção de frutas e legumes. Contou-me aquilo que viu e na investigação que conduzi a seguir encontrei notícias na Deutsche Welle, no Público e no Expresso, não exaustivas sobre a realidade que despertou curiosidade, nas quais o que era reportado sugeria tratar-se de uma forma de escravatura moderna que atingia esses imigrantes – horrível!


Aluguei um carro e fomos para Portugal à procura dessa história para relatar. Nos primeiros dias que passámos no Alentejo procurámos encontrar a validação da nossa hipótese de trabalho, a existência de uma forma de escravatura moderna. Apesar de ser apontada pelo Observatório para os Direitos Humanos e pela própria Comissão Europeia, não encontramos a história. O que encontrámos foi a esperança por um passaporte europeu, que trouxe esses imigrantes até Portugal: essa era uma história que merecia ser partilhada. A história daqueles que dão alguma coisa em troca de outra: o seu trabalho, em grande medida para empresas americanas, em troca de um passaporte europeu, uma realidade alcançável em 7 anos.


Acompanhámos Sujan Khanal por um período longo, algo que não foi planeado mas que acabou por acontecer devido ao tempo passado entre o interesse da Süddeutsche Zeitung Magazin na história e a publicação da mesma: estivemos no Alentejo em 2019 e a reportagem acabou por ser publicada em Novembro de 2020. Nesse período mantivemo-nos em contacto com o protagonista da nossa reportagem, o que permitiu também registar mudanças que ocorreram e que deram um novo fim à história que contámos.


PTP Cruzaste-te com episódios ou histórias sobre a integração destes imigrantes em Portugal? Tenho lido sobre algumas dificuldades em algumas localidades do Alentejo…


FF Sim, mas isso não fez parte da nossa reportagem. Claro que há histórias junto da população local. Na reportagem referimos a educadora de infância, Tânia dos Santos, que relata que 80% das crianças no infantário são de origem estrangeira. Ela falou-nos sobre o dono do café, também ele contente com o negócio acrescido que os imigrantes trouxeram: anteriormente havia pouco movimento nestas localidades. Por outro lado, há a situação de oportunismo desenfreado por parte dos proprietários que arrendam apartamentos/quartos.


Acresce, ainda, situações de racismo clássico. Estivemos à beira de incluir a história de alguém que tem uma actividade de agro-turismo e que referiu que os imigrantes não se encaixavam propriamente na imagem da localidade, que para ele é a do português branco.


PTP O prémio motiva-te a continuares a escrever sobre Portugal ou já estavas suficientemente envolvido com o país e continuarás a fazer o que já vinhas fazendo?


FF Sim, até porque o prémio oferece duas viagens a Lisboa. Irei certamente em Setembro a Portugal, com a fotógrafa com quem trabalho, Kristin Bethge: já temos algumas ideias para explorar. Quem sabe, daí nascerá uma reportagem que poderei vir a submeter para a segunda edição do prémio luso-alemão de jornalismo.


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