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Ópera bufa

Miguel Szymanski

No regresso a casa de carro, a passar a Ponte 25 de Abril, ligo a telefonia para ouvir notícias às 22 horas em ponto.


Na TSF: futebol.


Na Rádio Renascença: futebol.


Na Rádio Observador... já quase que adivinhava: futebol.


Estas são as principais rádios de notícias. É miserável; diria até mais: é triste.


Carrego na Antena 2, Carmen, Bizet. Bela interpretação, não é um noticiário, mas menos mau, penso. Passados uns minutos, quase a chegar a casa a São João da Caparica, de repente interferências no espaço hertziano... gzzzz, bvvvv... e uma voz: “...zero a zero, um resultado sem golos...” gzz, grzzz... e regressam as castanholas e os outros instrumentos exaltados numa melodia hipnótica.


Em Portugal o futebol serve para apagar todos os outros temas ou como sucedâneo para, por “interposta pessoa“, se falar de corrupção, fuga ao fisco ou lavagem de dinheiro. O futebol profissional, gerido por estruturas criminosas, desvia a atenção do que se passa nos bastidores do Estado e da Economia, onde se trabalha com múltiplos dos valores que rolam pelos relvados, como a banca, os grandes escritórios de advogados, as parcerias público-privadas, os fundos, os subsídios, os perdões fiscais, as vendas de participações do Estado, de grandes empresas, os contratos públicos, as adjudicações directas, o financiamento de partidos etc.


O mundo dos clubes de futebol funciona como um circo aberto onde cada um na plateia, sentado no sofá em casa, em frente à televisão, ou no carro, a conduzir, tem as suas cores, veste a sua camisola, com as suas insígnias e assim não precisa de pensar no que se passa, nem de olhar para os locais onde se decide as nossas vidas. Não é num campo rectangular com linhas brancas sobre um fundo verde. A nossa vida é decidida em gabinetes e salas de reuniões no topo de edifícios com vistas panorâmicas onde se sentam pessoas que ninguém elegeu. Em restaurantes onde a refeição para um investidor ou banqueiro, dois advogados e um secretário de Estado custa o equivalente a vários salários médios nacionais. Na sede dos partidos e no palacete atrás da Assembleia da República, depois de se negociar com o ocupante no Palácio de Belém.


Nos últimos meses o Covid-19 monopolizou toda a atenção. Convém explicar: pela minha parte, decidi ficar em quarentena voluntária numa altura em que a Direcção-Geral da Saúde não a considerava sequer necessária (tinha tido contacto próximo com uma pessoa que poucos dias depois foi internada com o diagnóstico Covid-19 e morreu). Comecei a usar máscara em espaços fechados quando oficialmente ainda era desnecessário fazê-lo. Mantenho distância física das pessoas que pertencem a grupos de risco. Não sou um ‘negacionista’. Sou demasiado hipocondríaco para negar qualquer tipo de doença, muito menos uma pandemia.


Mas convém ter bem presente: a maioria das medidas com força legal não é ditada por imperativos científicos. As novas ‘regras’ de saúde pública, que, em Portugal estão a levar ao isolamento sob vigilância policial até de pessoas com testes negativos, a proibir umas reuniões e manifestações, ou a permitir outras, são de natureza política, reflectem directamente o conceito dos decisores políticos sobre o que é o papel dos cidadãos, o poder de uma burocracia, de um governo e do próprio Estado.

Por isso mesmo muitos tribunais na União Europeia têm travado medidas impostas pelos governos em matérias que vão de questões laborais, de protecção de dados, de horários do comércio ao direitos de reunião e manifestação.


Foto: Joshua Rawson Harris & Chaos Soccer Gear - Unsplash Composição : Kardo

Mas à medida que o Covid-19 perde espaço no palco mediático, por cansaço da plateia, regressa em força o futebol. E para quem tenta resistir ao omnipresente esférico, há sempre dois ou três temas alternativos. Na actual conjuntura temos a pandemia, o futebol, Trump e as eleições nos Estados Unidos da América. O português médio já sabe mais sobre a nomeação de juízes para o Supreme Court nos EUA do que sobre a nomeação do presidente da Assembleia da República em Portugal. Vale tudo menos falar da política nos bastidores de Lisboa.


Se se tem mesmo de falar de política, que seja da festa do Avante, defendida por velhos comunistas com mais rugas do que matusalém e atacada por velhos do Restelo e jovens betos de Campo de Ourique e das Avenidas Novas. Ou então, discute-se que actriz ou socialite vai aos comícios do novo e caricato partido populista e do seu não menos patético líder.


O ‘Chega’ de André Ventura, para chamar os bois pelos nomes, foi criado e alimentado com enormes doses de mediatismo. Assim ninguém fala do PS, PSD, do Bloco ou do PSP (o CDS já voltou ao seu formato táxi, ou, como se dirá agora, Uber). O ódio do Senhor Ventura, especialista em truques fiscais, à etnia cigana é inversamente proporcional ao amor de D. José à bela e orgulhosa cigana Carmen de Bizet. Em comum só têm a propensão para um desfecho trágico.


Mais difícil é chamar os boys do regime pelos nomes. Aqueles que mudam os árbitros a meio do jogo e os substituem pelos seus fiscais de confiança, seja num tribunal de Contas ou nas instâncias da União Europeia.

Uma coisa é certa: Quando chegarem os milhares de milhões da União Europeia estaremos todos a olhar para os passes de bola do Benfica, Sporting e Porto. Estaremos a contar os testes positivos numa escola em Lisboa e num lar em Trás-os-Montes.


Estaremos indignados a comentar as tropelias do verdadeiro Donald Trump ou da sua edição de bolso portuguesa. Porque a vida política em Portugal não é uma obra de Bizet. É uma ópera bufa.


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