"Sopa dos Pobres" centenária apoia 400 pessoas por dia , algumas há mais de 20 anos

A “Sopa dos Pobres” comemora este mês 100 anos, ao longo dos quais acompanhou as transformações dos problemas sociais e diversificou as respostas aos mais desfavorecidos de Lisboa, apoiando atualmente cerca de 400 pessoas por dia.

Também conhecida como a “Sopa do Sidónio” e “Refeitório dos Anjos”, a “Sopa dos Pobres”, que começou por oferecer refeições aos pobres da cidade, é hoje o Centro de Apoio Social dos Anjos (CASA) e presta vários tipos de ajuda a sem-abrigo e a pessoas sem morada fixa, algumas das quais há 20 anos.

Apesar do refeitório ser a “resposta principal e mais visível”, servindo diariamente cerca de 200 refeições ao almoço e 140 ao jantar, o centro tem “ateliers ocupacionais”, um centro de acolhimento temporário, balneários e uma lavandaria, onde os utentes podem tomar banho ou pôr a sua roupa a lavar e a passar, disse à agência Lusa o diretor do CASA, Bruno Caldeira.

As refeições são servidas a partir do meio-dia, hora a que se começa a formar uma fila junto ao edifício na avenida Almirante Reis, desenhado pelo arquiteto Lino de Carvalho, para acolher a Cozinha Económica dos Anjos, cuja gestão foi entregue em 1914 à Sociedade Protetora de Cozinhas Económicas de Lisboa e mais tarde, em 1928, à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML).

Ordeiramente, homens e mulheres dos 18 aos 80 anos entram no refeitório e mostram à “D. Nazaré” o seu número de código, atribuído pela Santa Casa, que lhes dá acesso ao equipamento.

Aos poucos, as 25 mesas do refeitório vão sendo ocupadas pelos utentes que, numa quarta-feira de março, podiam escolher entre um prato de peixe frito, com arroz e salada, e frango assado, acompanhados de sopa e fruta para a sobremesa.

Há pessoas que frequentam o refeitório “há bem 20 anos”, contou Bruno Caldeira, explicando que “são situações em que há alguma cronicidade e que é necessária esta intervenção”.

“Aquilo que também temos que perceber é que a reintegração social e profissional nem sempre é um processo fácil”, sendo, por isso, importante garantir que “as pessoas têm a melhor qualidade de vida possível, tendo em conta as suas circunstâncias”, sublinhou.

Para Bruno Caldeira, “é bom” que existam este tipo de respostas, porque permitem uma intervenção duradoura “sem nunca pôr de parte a possibilidade de as pessoas encontrarem uma resposta mais adequada” para si.

Carlos Cunha, 59 anos, é cliente do centro dos Anjos há quase 12 anos, e os agradecimentos são muitos: “Dão roupa lavada, banho, boa comida, os funcionários são impecáveis, temos enfermeiros e temos cinema ao domingo. Só falta darem o pequeno-almoço”.

À Lusa recordou os onze anos vividos com dificuldade na rua. “Os primeiros dias para dormir na rua é complicado, as pessoas a passar, sentia-me envergonhado, depois habituei-me”.

“Agora estou no albergue de São Bento, também é um grande albergue. Quem tem rendimentos dá um euro, tem pequeno-almoço e jantar. Eu venho aqui almoçar e janto lá”, contou.

Considera o refeitório como “o pai, a mãe, o filho, a sogra”. “É uma casa que alimenta muito, com “muito asseio”, disse Carlos Cunha, apontando com um sorriso para Nazaré Valoroso, funcionária da Santa Casa, a quem chamou “mãe dos pobres”.

Nazaré Valoroso trabalha no refeitório há quase 16 anos e conhece bem os que o frequentam. “Uns são desempregados, outros são excluídos das famílias”, mas também há “jovens que andam à procura de emprego e não têm como sobreviver e aqui recebem uma pequena ajuda para seguirem em frente”.

Muitos chegam com “alguma vergonha, porque chamam a isto a sopa dos pobres”, mas ela diz-lhes para não ficarem embaraçados. “Isto é um refeitório normal e a gente não sabe o dia de amanhã”, vincou.

Ao longo dos anos, Nazaré Valoroso fez muitos amigos e disse ser “muito gratificante trabalhar” com esta população.

“Eles são amigos das pessoas, se a gente for a algum lado e for maltratada, eles defendem-nos. Gostam muito de nós, tratam-nos bem, não tenho razão de queixa de ninguém”, frisou.

Virgílio Alves, 57 anos, reside há um ano no centro de acolhimento temporário, onde estão mais 14 pessoas. Em comum, têm o facto de terem tido alta hospitalar e não terem para onde ir.

A vida de Virgílio sofreu um revés quando ficou sem uma perna num acidente em Inglaterra. Regressou a Portugal, onde teve um AVC. "Não subia nem descia escadas, não fazia nada. Nem conseguia comer", recordou.

Esteve internado em hospitais e noutras instituições, até que acabou a viver na rua. Por intermédio de um amigo, conheceu o centro dos Anjos, onde diz ter encontrado o apoio que precisava.

Marceneiro de profissão, Virgílio Alves passa os dias na carpintaria do centro, a construir objetos em madeira. “É um entretém para mim, eu gosto do que faço”.

A história de Virgílio e de Carlos cruza-se com a de muitos que todos os dias almoçam e jantam no refeitório dos Anjos, que 100 anos depois, ainda é conhecido como “a sopa dos pobres”.

 Lusa