Cristina Torrão
Cristina Torrão

 

Queremos mais crianças, ou não?

 

Todos conhecemos o problema do envelhecimento da população e estávamos convencidos de que seria irreversível. Maior foi o meu espanto ao constatar que a Alemanha enfrentará, em breve, uma falta de professores. Prevê-se um verdadeiro boom de alunos, nos próximos quinze anos: em 2025, haverá mais 4%, passando a 8% em 2030. Boa ou má notícia?

Em Portugal, toda a gente se queixa da falta de crianças e do fechamento de escolas, em dimensões que se podem considerar dramáticas em certas regiões do interior. Criam-se agrupamentos escolares cada vez maiores e descaracterizados e protestam os pais, cujos filhos têm de mudar para uma instituição de ensino longe de casa. Além disso, clama-se que haverá cada vez mais reformados, enquanto diminui o número de pessoas no ativo, o drama de uma Europa envelhecida, onde mal nascem crianças e as despesas com os cuidados aos mais velhos explodem.

Na Alemanha, os nascimentos têm vindo a aumentar. O boom de alunos não se deve, contudo, apenas ao desejo dos alemães de constituir família, mas também ao grande número de crianças e jovens entre o quase milhão e meio de refugiados e migrantes que, desde 2015, entraram neste país e que, pelos vistos, ajudarão a rejuvenescer a população e a equilibrar o sistema de reformas. Quem sabe, certa Europa ainda se venha a arrepender por se ter deixado vencer pelo medo, cercando-se de arame farpado.

Os responsáveis pelo sistema de ensino não parecem, porém, tão otimistas, alegando que será difícil enfrentar o problema da falta de professores, aliado à necessidade de construir mais escolas e às obras de renovação de outras já existentes. As escolas do ensino primário - da 1ª à 4ª classe - vão ser as primeiras afetadas. Um estudo da Bertelmanns Stiftung diz que, em 2025, poderão ser necessários mais 24.000 professores e quase 2.400 novas escolas. O problema arrastar-se-á para os níveis de ensino seguintes, onde, até 2030, terão de ser criados mais 27.000 lugares.

Tudo isto vai exigir um investimento enorme, para o qual o governo alemão e as autarquias não se sentem preparados. Especialistas dizem inclusive que, além de professores e escolas, serão necessários mais assistentes sociais e psicólogos. Não se pode entender a escola como no passado, estamos a viver uma época de grandes mudanças e novos desafios. Além da integração de crianças e jovens com deficiência nas escolas “convencionais”, projeto que tem sido levado à prática nos últimos anos, há que trabalhar para uma boa integração dos alunos oriundos de diversos países e culturas.

No meio disto tudo, pergunto-me o que se passará na cabeça de certos políticos, quando aconselham as pessoas a terem mais filhos, sem explicar como as famílias os poderão sustentar e educar de maneira satisfatória, para já não falar no investimento que teria de ser feito no ensino, a fim de inverter a situação, num tempo em que se fecham escolas.

De qualquer maneira, considero este boom de alunos uma boa notícia e espero que se reaja a tempo de colmatar a falta de professores e de escolas. Seria interessante verificar que a Alemanha (sempre a Alemanha) estaria, daqui a uns anos, a colher os frutos de uma população mais jovem, enquanto outros países, que resolveram fechar as suas fronteiras, se continuariam a queixar do envelhecimento da sua população.

Cristina Torrão

 

 

Para o caso de ser necessário: os números foram tirados de um artigo do Zeit online:

http://www.zeit.de/politik/deutschland/2017-07/lehrermangel-steigende-schuelerzahlen-bertelsmann-studie-zehntausende-lehrer-fehlen