Dia Internacional da Mulher

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8 de Março de 2017 - O Dia Internacional da Mulher é o principal tema da edição de Março do Portugal Post. Neste contexto, e à luz da conhecida e muito actual frase de Kemal Atatürk «Os jovens são o futuro da Nação», Cristina Dangerfield-Vogt foi conversar com estudantes universitários berlinenses com idades entre os 22 e os 30 anos. André e Friedrich, luso-alemães, Tuna, turco-alemão, Anna, alemã, Mariana, portuguesa e, Seçil, turca, responderam a várias questões sobre a importância do Dia Internacional da Mulher, as questões de género, tradições e contemporaneidade no relacionamento entre jovens, inter alia. Publicamos aqui a versão completa do trabalho da jornalista.

 

Abre e segura a porta para a rapariga passar?

André: Sim, segundo o princípio «ladies first».

Friedrich: Por vezes abro, outras não, depende com quem estou e se estou ou não com pressa.

Tuna: Sim, por princípio seguro a porta para todos, especialmente, e sempre, para as mulheres, por cortesia.

 

Gosta que o rapaz segure a porta para a deixar passar primeiro?

Anna: Gostaria muito. Por vezes, o meu namorado faz isso. 

Mariana: É sempre simpático que alguém nos segure a porta para passarmos, não necessariamente um rapaz.

Seçil: Sim, gosto.

 

Abre a porta do automóvel para a rapariga sair ou entrar?

André: Quando a rapariga demora a sair, abro-lhe a porta.

Friedrich: Habitualmente não abro a porta, excepto se for uma senhora mais velha.

Tuna: Sim, faço ambos regularmente. 

 

Gostava que o rapaz abrisse a porta do carro para si?

Anna: Não, é pouco prático. Só se estiver muito carregada e não conseguir abrir a porta eu própria.

Mariana: Não é algo que espero que alguém faça por mim, é bastante fácil abrir uma porta.

Seçil: Para sair não, mas para entrar. É um comportamento simpático.

 

Quando anda no passeio, dá o lado de dentro à rapariga?

André: Vou sempre pela esquerda (lado de fora), porque sempre foi assim.

Friedrich: Nunca.

Tuna: Depende da situação. Se a rapariga se sentir mais confortável ou se mo pedir, sim.

 

Gostaria que o rapaz lhe desse o lado de dentro do passeio?

Anna: Não penso que seja necessário.

Mariana: Não sei se gostava ou não, na realidade nunca pensei que lado do passeio prefiro.

Seçil: Não é muito importante, mas se o rapaz pensar nisso e sentir que me pode proteger, é simpático.

 

No restaurante, ajudam a rapariga com a cadeira e só depois se sentam?

André: Talvez faça isso depois dos 30.

Friedrich: Não.

Tuna: Em geral, espero pela rapariga e deixo-a passar à minha frente. Ajudo todos com a cadeira, sempre que for necessário.

 

No restaurante, gostaria que o rapaz a ajudasse a empurrar a cadeira e que só depois se sentasse?

Anna: Não, porque posso fazer isso, sozinha.

Mariana: É bastante fácil sentar-me sem que alguém me ajude. Não espero que ninguém o faça. Acho que se algum rapaz o fizesse, seria mais por piada.

Seçil: Uau, ficaria muito bem impressionada.

 

Como se sentem relativamente às raparigas/aos rapazes em casa, na faculdade, no emprego, na sociedade?

André: Sinto-as como iguais.

Friedrich:  Tal como com os rapazes. Se me aborrecerem ou parecerem pouco inteligentes não tenho paciência, se forem simpáticas e divertidas gostarei da sua companhia.

Tuna: Numa relação de amizade sinto-as como iguais, normalmente. Mas isso depende sempre da pessoa.

Anna: Sinto-me igual até chegar aos trabalhos de grupo na faculdade. Frequentemente os rapazes subestimam a capacidade das colegas e mostram que mental e fisicamente se consideram mais fortes e que podem fazer mais do que nós.

Mariana: Na minha experiência pessoal não encontro diferenças extremas entre mulheres e homens. É como ser preto, branco ou cor-de-rosa, não é razão para pôr tudo na mesma caixa e dizer que gosto ou não gosto.

Seçil: Não posso dar só dar uma resposta. Com alguns é simpático e agradável e com outros menos, porque lhes falta a elegância.

 

As mulheres fazem carreira, desempenham tarefas domésticas, cuidam dos filhos. Perderam-se algumas regalias? O cavalheirismo? Vivemos numa sociedade com mais igualdade?

André: Não se perderam regalias e as mulheres independentes são mais interessantes.

Friedrich: Vivemos numa sociedade com mais igualdade. As mulheres ganharam muito com a emancipação porque se quiserem trabalhar podem fazê-lo. Por outro lado, as mulheres que gostariam de ficar em casa, de algum modo perderam essa possibilidade.

Tuna: As sociedades e sistemas modernos permitem-nos, a cada um, tanta igualdade quanto é possível permitirem. Cada um pode fazer ou não fazer o que quiser. Respeito a forma de cada um viver e planear a sua vida, desde que respeitem os valores ocidentais fundamentais (Direitos Humanos, Liberdade, etc.). Desde conservador a progressivo passando por todas as facetas intermédias. O que não aceito é a pressão artificial para forçar as mulheres jovens a viverem de forma moderna. As mulheres devem fazer carreira, ter filhos e educá-los de forma moderna e, simultânea e sistematicamente, de forma paternalista, impõe-se como elas devem viver. Por isso, como homens, ficamos confusos. Deve ou não ajudar-se a mulher? Ela quer ser forte e livre e por isso não precisa de ajuda ou devemos ajudá-la a levar a mala pesada? Como homem sinto-me, cada vez mais, neste dilema quotidiano nas decisões simples, não querendo ferir susceptibilidades e, assim, muitas vezes, o cavalheirismo fica pelo caminho. No que concerne a igualdade de direitos vivemos numa sociedade muito desenvolvida, querendo dizer com isto, que existe, porém, igualdade exclusiva quase absoluta, sem se tomar em consideração a maioria das mulheres. Sob a bandeira do feminismo extremo, cada vez mais se exige uma preferência das mulheres.

Anna: As mudanças são óptimas e é positivo não se ficar agarrado às tradições. Mas cada família tem de encontrar o seu equilíbrio, mesmo que seja mais tradicional. Os homens deviam manter o cavalheirismo, porque é agradável ser bem tratada

Mariana: Felizmente, no meio em que vivo, que imagino não seja representativo de toda a sociedade, tanto homens como mulheres trabalham dentro e fora de casa e cuidam dos filhos. Cavalheirismo é um termo estranho para mim. Ter em atenção as necessidades do outro e ter gestos que demonstrem carinho ou preocupação devem partir dos dois sexos.

Seçil: Homens e mulheres deviam ser gentis uns com os outros. Os homens expressam a gentileza de forma diferente das mulheres. Não é mau se as mulheres cuidarem apenas dos filhos, se assim o quiserem, deveriam ser livres de o fazer. O problema é quando os homens se sentem bem a humilhar ou desconsiderar as mulheres. Alguns maridos não deixam as mulheres trabalhar, ter amigos ou ganhar dinheiro. (Isto porque alguns homens têm medo das mulheres independentes). Cavalheirismo deveria voltar com igual liberdade para homens e mulheres.

 

As diferenças anatómicas entre homem e mulher devem reflectir-se nas tarefas de cada um?

André: Cada um tem os seus pontos fortes e fracos e não é possível aplicar um critério rígido aos géneros.

Friedrich: O homem pensa menos emocional enquanto a mulher decide muitas vezes emocionalmente e por esta razão há menos mulheres nos lugares de topo nas empresas.

Tuna: Está provado que do ponto de vista da evolução e biológico, os rapazes e as raparigas desenvolvem interesses sociais e gostos diferentes. Por isso, cada um deve decidir por si, como configura a sua vida. Os requisitos paternalistas ou idealizados provocam extremos opostos, causando demasiada pressão sobre as mulheres.

Anna: Por vezes as mulheres pensam demais ao analisar as situações e, por isso, é bom que os a maioria dos homens tenham a coragem de fazer as coisas sem pensar demais. Em geral, não é possível estereotipar comportamentos porque estes dependem da personalidade de cada um. 

Mariana: Na maioria das situações, não. Mas quando se fala num casal em que a mulher está grávida, o papel de cada um é diferente e deve ser complementar. Em geral, a tarefa que cada um desempenha não deve ser definida pelo género, mas pelas suas aptidões e gostos.

Seçil: As características físicas afectam a forma como homens e mulheres se comportam. As mulheres mostram mais as emoções do que os homens. Isto também pode afectar os tipos de inteligência, o que significa que as tarefas que as mulheres e os homens desempenham podem diferir. Porém, não posso dizer que haja uma grande diferença além da física.

 

 

O que entendem por igualdade de género? A homossexualidade feminina influenciou como a sociedade vê as mulheres?

André: Que ambos os géneros têm as mesmas possibilidades, o que, muitas vezes, não é a realidade.

Friedrich: Igualdade é óptimo. Contudo não me agrada quando as feministas afirmam que homens e mulheres devem ser tratados igualmente quando isso é vantajoso para elas, mudando o discurso quando consideram vantajoso agir como mulheres frágeis.

Tuna: Para mim, e na medida do possível, deve existir igualdade de género. Porém, igualdade não deverá significar que díspar e diferente sejam tratados igualmente, indiscriminadamente.

Anna: É importante que todos tenham os mesmos direitos e que as mulheres não sejam subestimadas.

Marina: Igualdade de género é ter os mesmos direitos e regalias, não esperar que sejam os homens a trabalhar e a ser cavalheiros e as mulheres a limpar a casa. A homossexualidade feminina é bom exemplo disso mesmo: um casal em que não existe um homem e nem por isso deixa de ser menos funcional, cada uma participa no seu papel de trabalhadora, companheira, mãe, seja o que for.

Seçil: Igualdade de género significa que ambos os géneros têm liberdade de expressão, de trabalho e de preferências sexuais. A homossexualidade mostra que há sempre pessoas diferentes de nós e isto não significa necessariamente que sejam más pessoas. A homossexualidade mostra às mulheres como também elas podem serem corajosas.

 

Acham que muito ou pouco mudou desde a mulher ser cidadã com menos direitos do que os homens no séc. XIX? O que mudou?

Anna: Muito mudou desde que as mulheres adquiriram mais direitos, porque os modelos de comportamento passaram a ser diferente. As mulheres não têm de ficar em casa a cozinhar para o marido e a família. Elas podem trabalhar e prosseguir carreira. É bom que os homens não esperem isso das suas mulheres e também cozinhem para a família e fiquem em casa a cuidar do bebé.

Mariana:   Claro que sim, pelo menos na sociedade em que vivo. Imagino pouco provável viver a vida que vivo à 100 anos atrás. Viajo sozinha para todo o lado, tenho 24 anos e nenhuma vontade de num futuro próximo casar e ter filhos porque quero continuar a passear pelo mundo e a viver experiências novas. E, felizmente, ninguém à minha volta me diz que isso seria o certo a fazer. Tenho toda a liberdade que preciso, pelo menos quando comparada com a dos homens que me rodeiam. 

Seçil: Não mudou muito. Apenas a forma como se discrimina e “se usa” as mulheres é diferente. No passado as mulheres ficavam em casa e cuidavam das crianças. As decisões importantes eram tomadas pelos homens. Agora há mais mulheres a trabalhar, mas não há muitas mulheres em lugares de chefia. Quando a TV não existia, as mulheres eram tratadas como objectos sexuais nas ruas, agora são tratadas dessa forma na TV, nos anúncios televisivos, vídeos clips, etc. E isso vende!

 

Como é na Alemanha, em Portugal e na Turquia?

André: Em Portugal e na Alemanha temos sociedades muito abertas.

Friedrich: A Alemanha e Portugal são países mais abertos do que a Turquia.

Tuna: A Turquia ainda é uma sociedade patriarcal machista. Desde os turcos ditos “seculares”, passando pelas famílias liberais e acabando nas conservadoras, a imagem das mulheres na Turquia mantem-se quase inalterada. Na Alemanha há uma ampla igualdade, excepto em algumas pequenas questões, que serão resolvidas ao longo do tempo.

Anna: Na Alemanha o modelo de comportamento tradicional das mulheres mudou e deu lugar a direitos iguais. Em Portugal e na Turquia é um pouco como na Alemanha há alguns anos atrás e ainda se acredita que as mulheres devem desempenhar certas tarefas e não podem fazer tudo o que os homens podem.

Mariana: No meu meio as pessoas partilham as mesmas opiniões que eu. Em Portugal existem muitas pessoas sexistas, que se regem por valores que não fazem sentido na sociedade de hoje.

Seçil: Na Turquia a homossexualidade não é publicamente aceite e não é bem-vinda na esfera pública nem em famílias que pratiquem notoriamente os modelos de comportamento tradicionais. Quanto aos direitos das mulheres estamos longe da sociedade ideal.

 

O que pensam das quotas femininas?

André: Penso que o trabalho deve ser avaliado segundo as qualificações e o desempenho e não segundo o género.

Friedrich: As quotas são inúteis e usadas à falta de melhor solução, e não contribuem para resolver a questão.

Tuna: A questão das quotas femininas cria para as mulheres que trabalham arduamente o problema de serem remetidas para «as mulheres das quotas», ficando sob pressão social para subirem rápido e, em parte, elas não conseguem gerir esta pressão excessiva. Numa sociedade livre, também os modelos de vida conservadores deveriam ser possíveis, dado que são valorizados por uma parte da sociedade. Por esta razão, há menos força de trabalho feminino, embora a nível estatístico ser registe uma representação excessiva das mulheres relativamente à proporção de homens no mercado de trabalho. Estes são temas que ainda precisam, no mínimo, um século para se afirmarem e não podem ser impostos e forçados de um dia para o outro por legislação sobre quotas femininas.

Anna: É bom haver quotas porque coloca as mulheres em posição de igualdade perante os homens. Porém é disparate olhar apenas para o número de mulheres ou homens em posições de topo porque a avaliação deve ser feita com base no desempenho e não no género

Mariana: Acho que todas as posições devem estar abertas a pessoas de todos os géneros, ter um limite imposto do número de mulheres ou homens que trabalham em determinado sítio, não tem para mim muito sentido. A melhor pessoa para um determinado trabalho é aquela com a formação e experiência mais adequada. Se houver realmente mais homens que mulheres aptos a esse cargo, então que assim seja. O mesmo funciona obviamente ao contrário. Digo isto, baseando-me no tipo de vida que me é familiar. Em sociedades onde as mulheres são ainda descriminadas no trabalho, esta é provavelmente uma boa medida para incluir as mulheres e forçar os homens a perceber que todos têm as mesmas capacidades.

Seçil: Na verdade, o sistema é bom para o nosso tipo de sociedade. Se deixamos os gestores (na sua maioria homens) decidir sobre quem empregam, os escolhidos seriam maioritariamente homens.

 

Será que se foi longe de mais, v.g. feminismo, e que se terá de dar passos para tanto o homem como a mulher voltarem a encontrar o seu equilíbrio feminino e masculino? Ou chegámos à perfeição?

André: Estamos no bom caminho, mas é sempre possível melhorar.

Friedrich: Alcançamos a situação quase perfeita.

Tuna: Muitas vezes, as feministas procuram, de forma idealística, e de um dia para o outro, transformar a sociedade dominada pelos homens, no extremo oposto, isto é, numa sociedade dominada pelas mulheres.

Anna: Deveria desacelerar-se o feminismo, dado que na Alemanha há igualdade de género e cada um deveria decidir por si em sua casa. Nos países do terceiro mundo, os direitos das mulheres têm de ser implementados.

Mariana: Não me parece que se tenha ido longe demais, tendo em conta que em alguns sítios ainda existe um estilo de vida regido melo machismo e desrespeito pelas mulheres. Há pessoas que usam o feminismo como desculpa para assuntos sem grande conexão com o tema, mas não acho que se tenha ido longe demais.

Seçil: Não alcançámos, de forma nenhuma, uma sociedade perfeita. Precisamos de mais igualdade. Os homens não têm de “tentar” ter comportamento de igualdade, mas devem pensar em termos de igualdade com naturalidade.

 

Qual é o significado do Dia da Mulher para si?

André: Sinceramente, não me diz muito. O dia da Mãe é mais importante.

Friedrich: Penso que é como outro dia qualquer.

Tna: É apenas um símbolo de relações públicas e não resolve problema nenhum.

Anna: O Dia da Mulher lembra o que conseguimos alcançar na igualdade do género nas últimas décadas. Para a minha geração não é especial porque temos direitos iguais mas será mais importante em países que não sejam tão avançados como a Alemanha.

Mariana: Celebrar a liberdade das mulheres e lembrar que só recentemente puderam ter acesso a todos os direitos que os homens têm e que muitas vivem em sociedades em que não são livres e independentes e em que o homem continua a ser privilegiado.

Seçil: Sim, porque chama a atenção para a posição das mulheres no mundo e encoraja a agir.

 

Não deveria também celebrar-se o Dia do Homem?

André: Sim, mas nunca é mencionado.

Friedrich: Não vejo razão para isso. Devíamos celebrar cada dia, tentando alcançar «o melhor» para cada dia que vivemos.

Tuna: Não, não resolve nenhum problema e é apenas política simbólica.

Anna: Não, porque os homens nunca tiveram problemas de igualdade.

Mariana: Porque não? Há certamente motivos para celebrar a existência do homem, e também questões que são importantes mencionar que são muitas vezes esquecidas (como os homens também serem vitimas de violência domestica, abuso sexual, discriminação em algum tipo de trabalhos, etc.).

Seçil: Nada tenho contra isso.

 

p.s. O dia do homem é celebrado a 19 de Novembro, desde 1999.

 

Cristina Dangerfield-Vogt em Berlim