O milionésimo “Gastarbeiter”, Armando Rodrigues de Sá chegou há 52 anos  

Um testemunho de quem assistiu à sua chegada

Era em 1964 e eu trabalhava como secretária (a bem dizer como técnica, secretária e criada para todo o serviço emergente) no Consulado Honorário de Portugal em Colónia. Este Consulado estava sob a supervisão do Consulado Geral de Portugal em Düsseldorf. O Senhor Cônsul era um dos irmãos Mauser, de uma empresa que, em tempos, era conhecida pelas suas espingardas de caça e militares, mas que, entretanto, já fabricava outros produtos mais procurados. Era o meu primeiro e, praticamente, único trabalho dependente digno de menção da minha vida profissional.

Naquela altura era nova, inexperiente, ingénua e tímida apesar do diploma universitário (Diplom-Übersetzerin) que já possuia. Qualquer dia chegou a notícia ao Consulado que o milionésimo “Gastarbeiter” (ou seja: “trabalhador convidado”) estava para chegar à Alemanha e que seria um português. Alguém tinha a ideia que o Consulado Português deveria estar presente na sua chegada para o receber.

O Senhor Cônsul, muito ocupado, decidiu prontamente que eu teria de estar lá no acto da recepção e felicitar pela parte do Consulado de Portugal o nosso (entâo chamado) “milionário” Armando Rodrigues. O acolhimento teria lugar na estação central de Colónia que ficava a 5 minutos do Consulado. Lá fui eu com um raminho de cravos vermelhos na mão (ainda nem se sonhava com a Revolução dos Cravos).

Quando o homenageado se apeou na estação foi imediatamente rodeado por representantes oficiais e jornalistas, recebeu flores e uma mota (como se via na fotografia do Portugal Post 11/13). Não sei quem falou com o Sr. Rodrigues em português, nem quem o fez entender o que se passava e qual era o motivo do alvoroço. Sei apenas que lá arranjei, sem que desse muito na vista e quase às escondidas de tão acanhada, uma oportunidade para lhe entregar os cravinhos e os cumprimentos do Sr. Cônsul, desejando-lhe todas as felicidades para a sua estadia na Alemanha. Lembro-me vagamente que um jornalista me queria fotografar com o Sr. Rodrigues, mas não me lembro se o fez; pouco depois consegui furtar-me e voltar ao meu escritório do Consulado.

Nunca mais vi o Senhor Armando Rodrigues na Alemanha nem soube do trabalho ou da sorte dele. – Faz alguns anos já que vi por acaso uma reportagem sobre Portugal num qualquer programa da televisão alemã, no qual também falaram da vida e do falecimento do Senhor Armando Rodrigues, do milionésimo “Gastarbeiter”, bem como das condições em que vivia a família dele.

 

Barbara Böer Alves

Foto: DPA