Crónica ::: Miguel Szymanski

Cuidado com as ratazanas

Miguel Szymanski
Miguel Szymanski

Dizem que há muitos anos as ratazanas eram magras e tinham fome. Mas já ninguém se lembra desses tempos. Ou éramos nós que éramos grandes e fortes ou ainda sonhávamos que o pudéssemos vir a ser? As ratazanas nunca perguntaram se isto ou aquilo era de alguém, de ninguém ou de todos. Foram devorando tudo o que lhes aparecia pela frente. Com o passar do tempo, engordaram. As mães ratazanas estão sempre prenhes.

 

Na cidade, à superfície, os edifícios mais ricos são fachadas ligadas por passagens debaixo da terra. É por aí que andam as ratazanas. Mas as ratazanas já há muito que não correm só pelos túneis sob as cidades.

 

Agora as ratazanas são prósperas. Vivem em sítios murados e em terrenos com cancelas, de preferência com fontes, piscinas e spas, uma coisa que lhes ficou do tempo dos esgotos. As ratazanas são predadores. Gostam de ter estátuas de humanos, das suas presas, a enfeitar os jardins e salões. As suas vítimas deixam-se enganar pelas cores e formas e o brilho, vêem palácios cor-de-rosa, palacetes brancos com colunatas, portões imponentes, jardins e relvados. Sonham sair dos seus casebres sem luz onde vivem como ratos. As vítimas não vêem a rede de canalização que liga todos os edifícios da cidade das ratazanas, os tesouros que acumulam nas cloacas, latrinas e sentinas. As fachadas têm rampas com entradas blindadas, para as ratazanas poderem entrar e sair, em coches e carros de vidros escurecidos, sem serem vistas quando se querem misturar entre as pessoas para escolher as suas vítimas e servos.

 

O resto do tempo movem-se debaixo da terra entre os casas imponentes, as dependências sem fim que têm por todas as cidades. São edifícios com nomes de santos, em latim ou noutra língua, para enganar. Ou só siglas, para esconder. As ratazanas usam muitas siglas. É o seu código. E aprenderam a usar palavras, palavras a fingir que significam coisas. Palavras que nem carcaças de coisas são. A força das ratazanas vem da descoberta que se podem alimentar do sentido das palavras, só deixam as cascas das palavras, que enchem com o que lhes apetece e que espalham por toda a cidade. Em ecrãs quando nos sentamos a comer. No carro quando vamos a conduzir, a pensar que conduzimos e afinal não vamos a sítio nenhum.  As palavras mudam de sentido ao sabor da vontade das ratazanas. O significado de pobre foi enfiado na casca da palavra classe média, na palavra cidadão enfiaram o escravo e futuro é miséria. Agora, sem se aperceber, e a repetir com orgulho em voz alta as palavras que as ratazanas viraram do avesso, o cidadão de classe média, a presa iludida a caminhar para a desgraça, pensa que decide o seu futuro.  As ratazanas estão mais inchadas, injectam produtos nos focinhos e parecem as pessoas que agora vivem como ratos.

 

Mas a rede subterrânea continua a ser o habitat natural dos roedores. Ninguém, que não seja uma ratazana, pode entrar nos esgotos e nas galerias debaixo da terra. Se alguém, que não seja uma ratazana, tenta fazê-lo, acaba por ter de recuar para voltar à superfície para respirar. Ninguém aguenta o cheiro dos despojos a decomporem-se. Se aguenta, é porque está a transformar-se numa ratazana. As ratazanas da cidade alimentam-se de tudo o que não é delas, do que é humano. E engordam. Agora já não temem a fome. Quando se abrem buracos nos caminhos que percorrem, enchem-nos com corpos de pessoas que lhes entregaram a vida a troco de nada. As ratazanas usam mensageiros, pessoas que sonham ficar sem fome de alguma coisa, que não sabem o que é. Se uma ratazana é apanhada a roer a mão ou o pescoço de uma pessoa, as outras ratazanas protegem-na. As ratazanas têm mandíbulas muito fortes. Não largam as suas presas. E a lei diz agora que podem alimentar-se de pessoas, se as pessoas não tiverem mais nada para lhes dar. Há ratazanas que já têm asas e voam com propulsão anal pelos céus a fingir que são aves, como os pombos na cidade que se arrastam pelo chão a fingir que são ratazanas para lhes damos pão.

 

A próxima vez que vir uma sigla, que ouvir alguém a falar, na televisão, ou mudo, a sorrir, do alto de um cartaz, tenha cuidado. É possível que dentro do fato com gravata por cima das siglas e das palavras, que nunca significam o que parece, esteja só mais uma ratazana.