Antologia de poesia lusa e alemã documenta história do século XX em rimas

Com a chancela da Tinta-da-China, esta antologia de 528 páginas, escritas em português e alemão, intitulada 'Às Vezes São Precisas Rimas Destas -- Poesia Política Portuguesa e de Expressão Alemã (1914-2014)', reúne mais de cem textos de quase cem poetas, traçando um panorama dos acontecimentos políticos desde a I Guerra Mundial até ao século XXI.

Luiza Neto Jorge, Sophia de Mello Breyner ANdresen, Ruy Belo, Fiama Hasse Pais Brandão, Natália Correia, José Gomes Ferreira, António José Forte, Ana Hatherly, Mário-Henrique Leiria, David Mourão-Ferreira, Almada Negreiros, Carlos de Oliveira, Alexandre O'Neill, Fernando Assis Pacheco, Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Miguel Torga, Vasco Graça Moura, José Afonso, Manuel Alegre, Eugénio de Andrade e Mário Cesariny são apenas alguns dos autores portugueses incluídos no livro.

Entre os escritores de língua alemã, contam-se nomes como os de Ingeborg Bachmann, Paul Celan, Nelly Sachs, Heiner Müller, Georg Trakl, Wolf Biermann, Ilse Blumenthal-Weiss, Bertolt Brecht, Hermann Broch, Hans Magnus Enzensberger, Günter Grass, Arno Holz, Kurt Schwitters, Gottfried Benn e Alfred Lichtenstein, entre muitos outros.

A antologia 'Às Vezes São Precisas Rimas Destas -- Poesia Política Portuguesa e de Expressão Alemã (1914-2014)' foi organizada pelo Goethe - Institut Portugal, com seleção de poemas de João Barrento, Helena Topa, Joachim Sartorius e Fernando J. B. Martinho.

Trata-se de uma obra que teve como ponto de partida a antologia de Joachim Sartorius 'Niemals eine Atempause. Handbuch der politischen Poesie im 20 Jahrhundert', publicada em 2014 ('Sem pausas: Manual de poesia política do século XX', em tradução livre).

"Provêm dessa antologia todos os textos escritos originalmente em alemão, acrescidos de mais alguns cuja relevância poética e política nos pareceu importante trazer aos leitores portugueses", esclarece uma nota do editor, que acrescenta que "a seleção dos poemas portugueses seguiu um critério pessoal, tendo em conta, no entanto, os poemas em língua alemã com os quais existem claras correspondências".

A antologia obedece a uma sequência cronológica e os poemas são apresentados nas duas línguas, seguindo o critério de os originais estarem sempre nas páginas pares e as traduções nas páginas ímpares.

A obra procura documentar o olhar que os poetas lançaram sobre o século que passou, quer nos assuntos de impacto mundial, como a bomba atómica sobre Hiroxima, que nos temas comuns, como a vida sob ditadura e "a fuga e o exílio", quer nos acontecimentos particulares da história de cada país, como a Guerra Colonial ou 'A Hora Zero na Alemanha', sobre os quais só escrevem os poetas portugueses ou alemães, respetivamente.

Assim, os capítulos estão divididos conforme os diferentes temas e são precedidos por uma breve introdução histórica. No final do livro, há um capítulo dedicado apenas a notas biográficas sobre cada um dos autores.

Na introdução da obra, Joachim Sartorius começa por lembrar que sempre houve escritores políticos e poesia politicamente empenhada, muitas vezes "oca" e "sem durabilidade", mas que também "há um 'corpus' considerável de poemas que são «políticos» e que, portanto, refletem as grandes lutas e os conflitos do século XX, sendo, ao mesmo tempo, bons poemas".

O poeta, tradutor e cronista explica que foi esse o critério que esteve na base da seleção que fez dos poemas e que, muitos deles "relatam um sofrimento indizível, medo e solidão, tormentos sem medida".

Esse aspeto leva o autor a uma reflexão em torno da sentença de Theodor W. Adorno - entretanto refutada - de que "escrever um poema depois de Auschwitz é bárbaro", para questionar "até que ponto a transformação pela arte correria o risco de estilização estética".

Joachim Sartorius responde à questão considerando que "o sofrimento e a dor, a tortura e a prisão têm direito à expressão" e afirmando que a maioria dos poemas desta antologia escapa - na sua perspetiva - ao risco da estetização.

"Às vezes são precisas rimas destas", expressão que dá título à antologia, é um verso do "poema de combate" de Vasco Graça Moura, que exprime - na opinião de Sartorius - a função da poesia nestes tempos: "os poemas comentam o curso do tempo, exprimem o horror, fazem acusações ou apelos".

"Ao construir esta antologia parti, pois, da convicção de que não há outro género de textos publicados, sejam eles discursos, manifestos ou reportagens jornalísticas, que tenham proferido juízos tão verdadeiros sobre a história e a política como a poesia".

Lusa