À conversa com Rita Redshoes

 Rita Redshoes em Berlim à beira do Spree © Tiago Palma
Rita Redshoes em Berlim à beira do Spree © Tiago Palma

A cantora e compositora portuguesa Rita Redshoes está em Berlim a gravar o seu quarto álbum a solo nos estúdios da Riverside, com o produtor Victor Van Vugt, conhecido por ter trabalhado com Nick Cave, PJ Harvey, The Pogues, Sonic Youth e muitos outros grandes nomes da música. O Portugal Post teve o privilégio de encontrar o mítico produtor australiano e conversar com Rita Redshoes nos estúdios de gravação em Kreuzberg.

 

Estás na Riverside mas até aqui foi um longo percurso. No início, foste vocalista na banda do teu irmão e agora vais gravar o teu quarto álbum a solo aqui em Berlim com um produtor que tem lançado grandes nomes do pop.

Sim, e comecei na escola mesmo, num grupo de teatro onde fui baterista do grupo de música que acompanhava as peças e, paralelamente, o meu irmão já tinha uma banda de garagem nos anos 90, e então comecei a cantar com eles e, desde aí, percebi que isto me dava mesmo gozo fazer e continuei sempre.

 

Começaste logo a cantar em inglês ou isso veio depois?

Na verdade, comecei logo a cantar em inglês. Isto porque quando entrei para a banda do meu irmão eles tinham um vocalista que cantava em inglês e quando eu entrei até era uma péssima aluna em inglês e foi uma óptima maneira de eu ficar melhor aluna. Comecei a escrever com esse outro vocalista a meias e a cantar inglês. Não foi uma opção muito pensada, eu queria era cantar, fosse em que língua fosse. Nessa altura era muito pouco cool cantar em português. As bandas dos anos 90 eram uma espécie de descendentes da música norte-americana e daí o inglês estar muito presente nessa altura.

 

Conseguias expressar certos sentimentos ou os sonhos ou a tua imaginação melhor em inglês do que em português?

Não é tanto na escrita porque, obviamente, o português é a minha língua materna e consigo encontrar imagens e até acho a língua portuguesa mais rica. Mas a sonoridade cantada da língua inglesa é muito mais simples, no bom sentido, do que a portuguesa. A nossa língua tem muitas arestas e isso, às vezes, não é muito musical, daí o português com um sotaque brasileiro parecer cantado logo quando é falado. No inglês as palavras são mais curtas, mais redondas, mais vogais, daí ser mais simples cantar em inglês e depois também uma questão de habituação, ter ouvido muita música em inglês desde pequena. Os meus pais ouviam muita música vinda de fora. Era uma coisa comum para mim.

 

Essa tua coisa dos sonhos acho muito interessante, esse sonhares muito. Aliás escreveste um livro «Sonhos de uma Rapariga quase normal», com 40 sonhos teus, 40 ilustrações, com 7 músicas a acompanhar. Como é que tu foste parar a estes números cabalísticos?

Só fiz essa leitura posteriormente. Mas tal como nos sonhos, acredito muito que o nosso inconsciente tenha um poder muito presente no nosso consciente, nós é que no consciente pomos uma data de filtros para acalmar um bocadinho o inconsciente. Mas eu acho, e a música também vem um pouco daí, do nosso lado inconsciente, que nos envia mensagens e que depois nós reagimos, fazemos, decidimos, dizemos, e só depois é que conseguimos analisar, e no meu caso os 40 sonhos e as 7 canções têm muito a ver com o lado inconsciente. Eu não escolhi fazer 40 sonhos, por toda a simbologia do 40 ou do 7, mas isso já lá estava, porque já estava em mim, e quando tomei a decisão é o que estava lá.

 

Interessante é também que tenhas feito psicologia clínica.

Eu fiz psicoterapia, fiz psicanálise durante cinco anos, trazia-me muito, porque é na vertente de Freud, do inconsciente, que tudo isso está muito presente. Essas leituras que não são as racionais. Mas como pessoa eu vivo um pouco assim, fui fazer o curso porque me apaixonei pelo processo de autoconhecimento que passei na primeira psicoterapia. Não era minha intenção vir a ser psicóloga, nem utilizar essas ferramentas do curso para me analisar a mim ou os outros com quem me relaciono até porque não acredito nisso. Acredito que nós nos conhecemos com os outros. É no meu espelho do outro que nos reconhecemos e conhecemos. Foi mais por achar o processo fascinante e tentar perceber que teorias estão por trás.

 

Exerces a tua profissão?

Não.

 

Consegues viver da música?

Sim.

 

E estás agora em Berlim para gravar o teu quarto álbum a solo. Queres revelar-nos o que estás a fazer exactamente? Que instrumentos vais tocar?

Para mim está a ser um disco muito especial e a feitura do disco também. É a primeira vez que saio de Portugal para gravar um disco e sinto-me muito afortunada por ter encontrado o produtor Victor van Vugt, o que é mais de meio caminho andado para que as coisas resultem. Curiosamente, conheci estas pessoas há pouco tempo, os músicos e ele, e o estúdio, e sinto-me em casa, o que nem sempre acontece na produção de um disco embora seja o ideal. Estou muito feliz porque me sinto muito respeitada, ouvida e em casa. Há muito carinho pelo disco, isso é muito bonito e dá-me imensa segurança. E também estou muito contente com as canções que fiz para o disco, com as letras, é um disco muito honesto em relação a mim mesma e a forma como vivo o mundo e a minha vida. Vai haver canções em inglês e, desta vez, três em português. Isto porque sinto que há uma geração que não percebe inglês e mesmo assim gosta da minha música e se cantar na nossa língua a comunicação será mais directa e a síntese mais genuína. Além de cantar, vou gravar os pianos e outros teclados, Omnichord e as guitarras que tocarei eu. Os músicos serão baterista, baixista/contrabaixista, guitarrista e arranjador do quarteto de cordas e um quarteto de cordas. 

 

Escreveste os poemas, fizeste a música e desta vez continuas a falar de amor, sonho?

As duas coisas estão sempre muito presentes. Só através do outro e do amor do outro com o outro, que podem ser pessoas, o outro no sentido de sujeito, objecto, pode ser um animal, é esta relação de amor que nos salva no fundo e que nos dá o sentido para a vida. É um cliché não é, as pessoas no fim da vida dizem: «ai, o que eu guardo são os momentos com os outros, os bons momentos com as outras pessoas» é o amor nesse sentido. Eu não consigo fugir a isso. Posso dizê-lo de mil maneiras, o meu sentido para a vida, a emoção mais forte que se pode exprimir. E é tão difícil de exprimir ao mesmo tempo que tenho de arranjar não sei quantos meios para exprimir isso.

 

O amor é muito abrangente. Não é só o amor paixão, é também o amor pelas coisas, pela natureza, por tudo, não é? O amor que está em ti?

Sim, pela vida. Por nós próprios, que não é sempre fácil de lidarmos com esse amor connosco e é sempre um mistério na verdade.

 

E há um tema especial no teu novo disco, um tema dentro desse amor?

Não há, na verdade. São histórias. Nalgumas canções eu questiono um bocadinho o amor visto de fora, não tanto em relação a mim, a qualquer coisa que eu tenha vivido, mas sim a qualquer coisa que eu vi e às vezes uma percepção mais global. Em algumas músicas eu falo desta questão da falta de amor no mundo, em relação à forma como a política é feita e como as pessoas são tratadas. Mexeu bastante comigo toda esta questão, esta visão que tive dos refugiados, atentados, toda esta forma como estamos a viver hoje em dia e como é que isso depois se desdobra. E o outro lado, as pessoas que vêm para ajudar, que acreditam na solidariedade. Isso tocou-me bastante e de alguma forma, em algumas canções está lá, de forma muito poética, não relato coisas que aconteceram de facto, mas, em espectro, estão lá essas coisas.

 

Alguns dos vídeos das tuas músicas foram realizados por ti em que tens uma forma de estar que tem muito a ver com dança. Fizeste ballet durante oito anos, não é? Tu és uma artista multitalento. E há ainda a percepção de fora, quando se olha para ti, a maneira como te moves, como apresentas o teu tema, como cantas, como fazes as tuas músicas, como sonhas - és uma pessoa muito completa. Como é que achas que isso impacta quem está ao teu lado? Como é que tu, que és a pessoa que emana todas essas qualidades, sentes isso, como é que te percepcionas?

Eu sou uma pessoa bastante pessimista em relação a mim própria. Portanto não tenho uma visão exterior. Eu olho muito para dentro e tenho muita dificuldade em tentar perceber, é uma das minhas lutas constantes, às vezes como é que os outros me olham. Mas normalmente, os meus amigos e família dão-me um bom feedback. Mas eu passo a vida numa incessante busca interna de qualquer coisa e que ainda estou a perceber e espero que dure muito que é para eu poder fazer canções, ou seja, nunca me sento a observar o que foi para trás, como é que foi, a minha perspectiva. Claro que me emociono quando alguém me escreve e diz que a determinada altura, e isto é uma bênção, «esta tua música ajudou-me a ultrapassar isto, ou relaciono com esta fase da minha vida e estou muito melhor». Essas coisas são muito tocantes. É uma dádiva.

 

Não é só a qualidade da música é também o conteúdo dos teus poemas.

Para mim é isto que mais conta. Mas são breves momentos, em que leio, emociono-me e depois começo a dizer-me: que tenho que fazer mais e mais!

 

E tu continuas a sonhar, estás sempre a ter sonhos?

Todos nós sonhamos todos os dias.

 

Mas lembrar-se dos sonhos é difícil!

Nem toda a gente se lembra dos sonhos, mas eu acordo e lembro-me de todos.

 

E tens sonhos um bocado surrealistas!

Muito! Numa das apresentações do livro, estava um psicólogo que fez uma espécie de análise pública dos meus sonhos, e eu senti-me quase esquartejada, mas foi interessante. Ele dizia que era uma questão artística, mas a verdade é que eu sonho muito com políticos e com músicos de quem eu gosto. A semana passada, aqui, um dos sonhos que tive foi estar à conversa com o Marcelo Rebelo de Sousa.

 

E a conversa foi interessante?

Foi. Falámos sobre o país, como é que a auto-estima do país poderia melhorar, o que é que a política e os políticos poderiam alterar. Isto também é interessante porque de facto se está a assistir, para mim, pela primeira vez, a algumas alterações políticas no país. E isso é curioso. Ou esta noite sonhei como vou à noite ver a PJ Harvey, que é para mim uma artista de referência - sonhei com ela e com o concerto dela, e depois é tudo muito real, é muito engraçado. Por isso é que eu adoro dormir, para mim são grandes aventuras.

 

Vais continuar a escrever? Tens planos de publicação para breve?

Não. Embora goste muito de ler, de escrever, acho que não tenho talento para escrever que justifique edições, isto foi uma aventura. Eu escrevo contos e escrevo os sonhos e foi um editor, o Manuel Fonseca, que me desafiou a fazer um livro de sonhos. Não digo que não, porque gosto de muito de fazer coisas, a vida é para fazer coisas. E não vale a pena ter grandes questões existenciais, o melhor é fazer. Mas não tenho nada programado.

 

Tiveste concertos em Portugal: no Coliseu em Lisboa, no Coliseu no Porto, na Casa da Música, também em Nova Iorque, no mítico Joe´s Pub. Gostas de dar concertos? Vais continuar a fazer concertos em todo o mundo, incluindo Portugal?

Eu gosto muito de tocar ao vivo. Para quase todos os artistas antes de entrar em palco, é quase uma relação de amor e ódio, é do género «ai meu Deus, porque é que eu escolhi fazer isso, podia estar em casa descansada».

 

É uma espécie de stress positivo?

É, e acho que é bom que seja assim. No dia em que eu sentir que é igual estar no palco ou estar a jantar em casa, se calhar perdeu um bocadinho o sentido.

 

Precisas do «frisson»?

Preciso, acho que é quase de sobrevivência. E gosto muito de tocar. Para mim, eu costumo dizer, que não tenho uma sala de sonho para tocar. Para mim a sala de sonho é o público, é isso que faz uma noite especial, é essa troca com as pessoas. Claro que para uma carreira, ter no currículo que se tocou aqui e acolá é importante. Mas a minha ambição é tocar, se possível, em todo o mundo, mas a minha ideia não é as salas grandes, confesso que não, mas este encontro com o público.

 

Onde é que é home para ti, em casa com os gatos ou pelo mundo?

Embora os músicos andem com a casa às costas, home é a minha casa, com as minhas coisas.

 

Esta gravação que tu vais fazer aqui, também vai ter video clip. Vais fazê-lo novamente ou desta vez será diferente?

Confesso que ainda não cheguei a essa parte. Ainda não tenho bem noção. Haverá um vídeo. Eu faço música de uma forma pouco musical no sentido que é através de imagens. A minha linguagem não é tão de acordes, de harmonias, é mais de imagens, quando eu estou a fazer as músicas e penso num vídeo, provavelmente, já tenho uma história por detrás daquela canção e o que acontece é que partilho com o realizador que foi esta a imagem que me levou a escrever esta canção, e depois ou seguimos essa imagem ou desenvolvemos outra coisa. Isso vai existir sempre na minha perspectiva da canção. Há novos realizadores em Portugal a fazerem coisas muito interessantes e gostaria de aproveitar esse talento.

 

Já alguma vez pensaste em trabalhar em cinema?

Fazer música já não é fácil mas fazer cinema é mesmo muito difícil. Mas tenho uma grande paixão por todo o lado de imagem e o universo imagético. Até é a minha grande fonte de inspiração. Sim, gostaria.

 

Quando fizeste a música para o documentário «Portuguese from SoHo», já não foi um trabalho a solo, tinhas um enquadramento base, tiveste que te adaptar a ideias de outras pessoas, como é que isso funciona?

É maravilhoso. Eu tenho tido a sorte de contribuir com a parte da música para alguns filmes de realizadores de animação e curtas e longas-metragens. E é uma coisa que eu adoro. Para mim é muito saudável enquanto música e enquanto pessoa que tem uma carreira a solo, porque as carreiras a solo são muito autocentradas. E o trabalhar para teatro ou cinema é um bocadinho despir a pele a solo e entrar numa equipa e servir da melhor maneira possível, através de sons, aquela história, aquela personagem, aquela imagem, e isso é tão saudável e tão libertador que para mim quando aparecem estes projectos, e quanto a Ana Ventura Miranda me desafiou, eu disse logo que sim. Nem queria saber quase as condições. Para mim, sim, eu quero fazer, porque me dá uma liberdade que eu sei que, além de um prazer imenso que vou ter durante um período a trabalhar para as imagens para as histórias das pessoas, eu sei que vou retirar coisas importantes dali para fazer as minhas canções. Depois porque eu diria que sou muito menos restrita quando faço música para cinema; para mim tudo é possível, para os sons que eu quiser, não tenho de fazer um formato de uma canção que tenha refrão, que tenha 3 minutos, portanto é tudo muito mais livre. Isso, porque quando estou no mundo do pop, tenho de respeitar as regras instituídas, ali não, tudo é possível desde que sirva da melhor forma, que eu puder fazer, aquelas imagens e aquela história, e isso é tão libertador que para mim é um prazer imenso fazer música para cinema.

 

Isso para mim é uma revelação, não sabia que o mundo do pop tinha tantas convenções.

Existe um mercado e no mercado da música quando temos um filme vale a imagem e vale o som; no mercado da música temos o video clip mas, de facto, para passar na rádio tem de valer por si e tem de haver um entendimento rápido com o público nesta linguagem do pop. Há restrições que são desafiantes, são interessantes e das quais eu gosto, mas é bom ter oportunidade de fazer outra coisa que não tenha de respeitar isso.

 

Como expectadora do documentário «Portuguese from SoHo», senti que houve ali uma empatia e sinergias que se encontraram e funcionaram bem. Também com o José Luís Peixoto.

Há uns anos atrás a Ana (Ventura Miranda) tinha-me mostrado o trailer do documentário que na altura ainda estava a ser filmado. Mal vi disse à Ana: «esta história é incrível tens que acabar este filme». Mas longe de mim alguma vez vir a ter alguma a coisa a ver com o filme. Mas aquilo tocou-me imenso e passados dois anos a Ana ligou-me e disse-me «estamos a terminar o documentário». Aquele trailer com a Maria, que era apenas um excerto de uma das pessoas, e que me tinha emocionado tanto, de repente ver em 60 minutos mais pessoas a contar as suas histórias, e elas são muito especiais, …emocionei-me imensas vezes a ver e a tentar fazer música, ri-me imenso. Acho que o documentário tem uma génese de portugueses que embora não tenham vivido em Portugal contam ali, partilham connosco, um Portugal que eu me lembro dos meus avós, em parte dos meus pais, e isso toca-me muito. Portugal hoje em dia é muito diferente, não é aquele. Foi muito tocante e é um orgulho imenso poder partilhar isso. Quando digo que Portugal é diferente, não é porque eu tenha vergonha daquele Portugal de todo, é a nossa história e o nosso trabalho e o do Arte Institute é mostrar o que é o Portugal contemporâneo. E eu sinto-me neste lado da barricada, mas tenho um amor profundo por aquelas histórias, por aquelas pessoas, pela sua coragem e que nos abriram horizontes e isso vem um bocadinho do início, dos Descobrimentos, está lá essa semente.

 

 

Rita Redshoes diz ainda que Berlim é uma cidade em que se sente acolhida e onde gostaria de dar concertos. A artista irá continuar em Berlim para gravar o quarto álbum nos estúdios Riverside e que será lançado em Novembro.

 

Entrevista conduzida por Cristina Dangerfield-Vogt

Em Berlim, Estúdios Riverside com Rita Redshoes