VEM? Foge!

Sempre que penso que os governantes em Portugal não podem cair mais baixo, lá vem nova surpresa. Desta vez o alvo somos nós, emigrantes. Depois de terem exortado a juventude a emigrar (para enviar remessas) e apelado para a ajuda dos emigrantes de longa data (para enviarem remessas), eis que a aproximação das eleições produz novos exemplos para o que todos já sabemos: a prioridade dos nossos políticos é a apenas uma, a reeleição.

 

Assim, provavelmente um qualquer especialista de relações públicas contratado pelo Governo a peso de ouro e, só por coincidência, claro, primo, sobrinho ou afilhado de algum secretário de Estado, teve uma ideia brilhante: lançar um programa de retorno para as centenas de milhares que nos últimos anos tiveram que abandonar o país. Creio que o famoso VEM só se dirige a este grupo. Suspeito que apesar da indiferença brutal com que o Lisboa brinda os emigrados de longa data, ainda assim já se apercebeu que estes, na sua maioria, deixaram de cair nos contos do vigário.  

 

Mas talvez aqueles 300 000 que foram praticamente expulsos do país na última meia dúzia de anos, porque alguém tinha que continuar a pagar as benesses da elite mesmo em plena crise, ainda não tenham tido tempo para tomar consciência da diferença de condições de vida oferecidas pelos países da outra (verdadeira) Europa. Falo de contratos, salários que permitam viver com dignidade, segurança social, atendimento médico, e tudo sem cunhas nem corrupção apenas por uma questão da inviolabilidade dos direitos humanos.

 

Mesmo que a partida destes novos emigrantes se tenha feito em condições muito diferentes da emigração no século passado, deixar o país, a família e os amigos não dói menos quando as distâncias se tornaram mais curtas por causa dos voos “low cost” e do skype. Muitos dos que tiveram que ir em busca de trabalho no estrangeiro voltariam imediatamente se tivessem uma perspectiva real no seu país. Neste contexto, acenar-lhe com um programa que deverá contemplar duas ou três dúzias de emigrados dispostos a estabelecerem-se por conta própria em Portugal roça o sadismo.

 

Não fica claro quem é que fará a escolha dos candidatos aos subsídios, e mediante que critérios. O que é, tradicionalmente, a forma eleita para garantir o abastecimento dos bolsos do costume. Serão 40 a 50 os contemplados com 10 000 ou 20 000 euros, o que dá para fazer uma ricas férias em Cuba, mas não, obviamente, para encarar a tarefa hercúlea e o inferno burocrático – para não mencionar os custos da corrupção – de abrir uma empresa em Portugal.  

 

O “programa para a valorização do empreendedorismo (VEM)” está inserido num “Plano Estratégico para Migrações”. Aliás, é a única para desta “estratégia” que apresenta algo de concreto, para além das formulações vagas do costume em que são peritos os nossos governantes que falam muito e dizem pouco. O dinheiro para o programa VEM tem origem não no Orçamento de Estado, mas em fundos comunitários, mais concretamente no Programa Operacional para a Inclusão Social da União Europeia, dotado de um fundo global de 2,1 mil milhões de euros. Ou alguém pensava que o Governo tinha poupado a soma, eliminando carros de serviço? Mas a origem dos fundos não está a ser muito badalada, porque os nossos governantes preferem que o povo continua e acreditar que a “culpa” é da troika e da Merkel.

 

O resto da “estratégia” inclui vagas medidas como o “apoio” às empresas que contratem portugueses que se encontrem no estrangeiro. À primeira vista um óbvio contra-senso, pois esses já têm emprego. Em Portugal é que há muitos desempregados. Mas só à primeira vista, porque obviamente trata-se aqui de mais uma prendinha em forma de subsídio aos amigalhaços industriais. Em prol da “estratégia” de garantir o “tachinho” na administração da empresa, caso os políticos agora no Governo precisem de um lugar para hibernar depois das próximas eleições.  

 

Pessoalmente gostava de dizer a este (des)Governo: VAI! O problema é que receio que venha aí mais do mesmo. Mesmo quando é no seu próprio interesse, os meus conterrâneos têm medo de quem queira tentar algo inovador ou diferente. Assim, se não votarem nos que lá estão agora, votarão nos que lá estavam antes, garantindo que nada mudará. O que será uma sorte para o grupo de empresários, funcionários e políticos que há décadas divide entre si o espólio patrimonial à custa da população dentro e fora do país. Uma coisa é certa, enquanto não houver uma verdadeira mudança de mentalidade no meu país, eu fico. Foge!

 

 

Cristina Krippahl