Uma porta de saída chamada Portugal

Pouco depois de ter deixado a Universidade, encontrei rapidamente um emprego. Tratava-se de um trabalho em condições precárias, é verdade, com um salário pouco maior que o mínimo nacional, pago a recibos verdes. Mas quando chega a altura de fechar os livros e arregaçar as mangas, é com um sorriso cheio de garra que se encara um novo desafio, mesmo que ele exija acordar muito cedo, fazer uma hora de comboio e mais trinta minutos a pé e tudo isso de novo já de noite, de Inverno ou Verão. Encarei, por isso, o primeiro emprego como uma aprendizagem, uma etapa temporária ou uma rampa de lançamento. No entanto, com o passar do tempo, essa rampa parecia lançar-me antes num inóspito abismo de frustração.

Trabalhava numa empresa de cariz familiar, na qual era a única funcionária entre os patrões, um casal que fazia uma ginástica diária para levar o negócio para a frente. Aprendi muito durante três anos naquela pequena produtora de televisão, mas sentia-me de mãos e pés atados, sem saber como me libertar e correr atrás dos meus sonhos. Uma vez que dedicava a maior parte do tempo a editar reportagens, comunicava pouco, sentia-me isolada e cada vez mais desmotivada. A frustração crescia como uma bola de neve, ia trabalhar contrariada, desgastada e, o pior de tudo, sem perspectivas de conseguir mudar.

Candidatava-me a programas de estágio, ofertas de empregos sem qualquer resultado: a maior parte das vezes não tinha resposta e, quando havia “feedback” ou era um “não” ou então era uma proposta tão ludibriosa que me via forçada a declinar.

Com um trabalho precário, desgastante pela distância pela insatisfação, e sem ver luz ao fundo do túnel, a bola de neve tornava-se insustentável. Sem saber mais o que fazer para mudar de rumo, decidi inscrever-me num Mestrado e apostar numa outra área. O plano era conciliar o trabalho com as aulas, mas na mesma altura perdi o emprego. O negócio atravessava um período complicado, num país à beira do naufrágio pelo que para a empresa se tornou inevitável dispensar a única funcionária a tempo inteiro. Sobrava tempo para estudar.

Mas quando menos esperava fui chamada parar a um estágio na Alemanha. Deixei de lado o curso, ainda nos primeiros meses, queria abraçar o novo desafio que há tanto tempo procurava.

No primeiro dia em que entrei na Deutsche Welle senti que caminhava para um mundo novo. Deixara para trás a pequena empresa familiar para fazer parte do puzzle imenso que é a emissora internacional da Alemanha. Ao invés de estar só, a partir dessa altura, estaria em contacto com a Alemanha, com África e com várias outras culturas. Deixaria a produção de programas de televisão para me sintonizar nas ondas da rádio, difundidas em todo o mundo. Além disso, obviamente que os métodos de trabalho são também muito díspares. Ao passo que no anterior emprego, aprendia vendo como se faz, na Voz da Alemanha para quase tudo é necessário haver formação antes de passar à prática.

Depois de tanto suar por uma oportunidade, absorvi tudo o que o estágio me poderia dar e após seis meses o melhor prémio que poderia ter recebido foi ficar cá a trabalhar! Enquanto em Portugal cerca de 3 anos de procura de emprego não surtiram qualquer efeito, encontrei na Alemanha espaço para respirar as minhas ideias, uma oportunidade.

Tal como eu muitos portugueses batem a porta a Portugal, numa atitude um pouco azeda, como se o país rejeitasse os seus filhos. Encontram um amparo, perspectivas e oportunidades em terras alheias e sentem-se mais apreciados e valorizados em casa dos outros. No nosso querido Portugal, sentimos que somos apenas mais uns quantos à procura do mesmo e que, se não nos sujeitamos a condições miseráveis, pois muito bem, a porta é a serventia da casa e haverá quem aceite.

Muitos profissionais portugueses, desde logo os enfermeiros, por exemplo, são melhor conotados fora do país, considerados altamente qualificados – e porventura também mais baratos que os profissionais do país para onde vão.

Mais do que à procura de um salário melhor, os portugueses voam para longe em busca da realização pessoal e profissional, de motivação e sonhos, até então adiados. Enquanto isso, Portugal, cria uma geração de jovens frustrados, com perspectivas limitadas e num amor em declínio à profissão.

 

Glória Sousa

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