Solidão e viver só

A solidão faz parte da condição humana, em certa medida, nascemos e morremos sozinhos, mas os padrões culturais impunham até há muito pouco tempo como norma o casamento e a vida a dois. Em Portugal, há uma ou duas gerações era impensável sair de casa dos pais para ir viver sozinho, saía-se para casar. Noutros países, no entanto, como por exemplo na Alemanha, é comum  desde há bastante tempo a saída de casa  dos pais por parte de jovens  para viverem em comunidades de estudantes, experimentando a maior parte desses jovens uma autonomia precoce em relação aos pais.  Hoje em dia, mesmo em Portugal, é muito mais frequente  os jovens saírem de casa para viver sozinhos, sendo nessa opção uma escolha e não um constrangimento.

 Viver sozinho é caro, implica uma certa capacidade financeira que nem todos dispõem, mesmo que gostassem de fazer essa opção. Talvez por isso seja nos países mais ricos que a percentagem de pessoas que vive sozinha é  maior. O campeão dos agregados familiares de uma única pessoa é a Suécia onde 59, 4%  são agregados dessa natureza. Na Dinamarca, a percentagem é de 43,9% enquanto a Noruega, a Finlândia e a Alemanha andam pelos 40%, quase dez pontos percentuais acima da média da União Europeia (UE), que é de 31,7% . De acordo com o Censos de 2011, as pessoas que viviam sozinhas em Portugal representavam 21,4% do total dos agregados familiares existentes – um valor que, é quase o dobro do verificado em 1991, quando a percentagem era de 13,8%.   Verifica-se que das pessoas que vivem sozinhas em Portugal 62% são mulheres. Se muitas são viúvas e idosas, o facto é que a conquistas de igualdade de género, o maior nível de escolarização e de capacidade financeira fazem com que para muitas mulheres façam, hoje em dia, da opção de viver sozinhas  uma escolha.

Talvez mais significativo do que os números seja a forma como as diferentes pessoas lidam com a experiência de viver sozinho Se para algumas esta experiência é vivenciada como angustiante, para outras é uma forma de libertação. Também factores económicos e sociais podem influenciar a experiência de se viver sozinho. Não é mesma coisa viver sozinha quando se é uma viúva idosa e pobre ou uma jovem mulher bem - sucedida de classe média alta.

Viver sozinho pode ser diferente de viver só. E essa nuance é importante para distinguir a forma como as pessoas experienciam uma casa vazia ao chegarem a casa, à hora da refeição ou quando vão dormir. Nestas circunstâncias as pessoas que se sentem mais sós estão muitas vezes por projectar um vazio que está mais dentro delas do que no exterior. Tanto assim que há gente que vive acompanhada e que sente um enorme sentimento de solidão.

 Precisamos dos outros para sabermos quem somos e para criarmos dentro de nós imagens positivas de forma a que, mais tarde, sejamos capazes de lidar com a adversidade. E este processo acontece desde a infância. Também para a nossa evolução enquanto seres humanos dependemos de outros que são para nós significativos. Se gostamos de alguém, passamos a imaginar o que queremos dessa pessoa e o que o outro quer de nós, o interesse na relação e o pensar o vínculo obriga-nos a reflectir sobre nós próprios. Os outros são sempre importantes, portanto, o verdadeiro solitário é aquele que não tem ninguém dentro de si, estando ou não essa pessoa dentro de casa.

Há pessoas que depois de um divórcio ou da morte de um cônjuge vivenciam o facto de viverem sozinhas como um constrangimento, sentindo o silêncio da sua casa  como insuportável e entrando em depressão. Muitas outras vivem os processos de viuvez e divórcio e a oportunidade de viver sozinhas como uma libertação no sentido que passam a ser completamente donas do seu tempo e dos seus movimentos. Mas as que são verdadeiramente felizes nesta situação são aquelas que continuam a privilegiar relações de intimidade com familiares, amigos e namoradas, mesmo que nem sempre partilhem o mesmo espaço.

O sentimento de solidão pode ser, no entanto acentuado, por questões não meramente psicológicas. Por exemplo, o envelhecimento da primeira geração de emigrantes faz com que actualmente muito idosos portugueses vivam sós na Alemanha e noutros países de emigração, sendo que nem todos dominam a língua do país que os acolheu. Esse desenraizamento, a distância em relação a familiares, a morte do conjugue podem gerar um enorme sentimento de solidão.