Crónicas de Ana Cristina Silva


A mulher transparente

“O que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no campo no meio da noite. Um fósforo não ilumina quase nada, mas permite-nos ver quanta escuridão existe em nosso redor. W. Faulkner.”

 

A citação deste grande autor americano serve-me para falar da minha convicção de que, para muitos dos grandes escritores, por detrás do exercício de escrita, existe o impulso de mudar o mundo, sabendo, no entanto, que nenhum livro será capaz de o fazer. Não há romance que mate a fome, que suprima as desigualdade ou injustiças, que termine com as guerras, e, no entanto, os escritores não se cansam de mostrar “a escuridão” em redor das mais terríveis situações humanas. Talvez por isso, Zola sublinha como os governos suspeitam da literatura, porque, afirmava ele, é uma força que lhes escapa. E se Emílio Zola não tivesse razão, os livros não teriam sido tantas vezes queimados ao longo da história.

A qualidade de um romance – dimensão sempre subjectiva  - está na capacidade de conduzir o leitor para essas zonas remotas do sofrimento e da realidade humana através da linguagem e  em que a  sua renovação constitui a autoestrada para a imaginação e reflexão do leitor. Nesse sentido, as emoções que a boa literatura suscita são eternas – basta pensar na actualidade de Shakespeare - e a forma como o escritor consegue chegar ao núcleo da alma humana é por vezes um mistério para o próprio autor, como se uma mão invisível o conduzisse. Freud considerava os romancistas os grandes mestres do espírito humano porque, dizia ele, os romancistas bebem de uma fonte que não é acessível à ciência. 

Publiquei no mês passado o meu décimo primeiro romance - A noite não é eterna - e continuo sem fazer a mínima ideia de como se escreve um romance. A única coisa que tenho para apresentar depois destes livros é a minha fé de que algo inconsciente me irá guiar na estrutura que imaginei para um novo romance e que, depois de dar corpo a um texto, terei de ter muito trabalho – esse  bem consciente – a depurar a linguagem. E sim, considero que faço parte daquela categoria de autores que gostaria de mudar o mundo.

No mês de Maio, a Oxalá Editora, uma editora ligada ao Portugal Post, vai reeditar um romance meu sobre violência doméstica – que foi para o efeito reescrito e que há muitos anos que não se encontra no mercado. “A mulher transparente” - assim se chama o romance – foi editado pela primeira vez em 2003 pela Gótica. Quando o escrevi, tal como agora, tinha o propósito de descrever o círculo vicioso de perdão, medo e destruição que as mulheres submetidas a uma relação violenta enfrentam, tornando vivo a compreensão desse círculo através das minhas personagens. Claro que sabia que não deixaria de haver violência doméstica por causa de um mero romance, mas ambicionava que através do livro, as mulheres nestas condições se percebessem melhor - aliás sobre esse aspecto tive, digamos assim,  a minha “recompensa”, na medida em que, na altura da sua primeira edição,  uma senhora que era espancada há 14 anos me disse que parecia que eu a conhecia - para mais facilmente procurarem auxílio.  Ao mesmo tempo, gostaria que a sociedade passasse a compreender melhor a natureza da prisão interna e externa em que estas mulheres suportam dentro de suas casas e não as condenassem tão facilmente quando, porventura, não fazem queixa (O “Elas gostam!!” que  tantas vezes se ouve na boca das pessoas).

Passaram-se treze anos desde a primeira edição deste romance e infelizmente não mudei o mundo, o meu romance continua tão actual como na época em que foi pela primeira vez publicado. Basta pensar nas 29 mortes de mulheres vítimas de violência doméstica que ocorreram em 2015, muitas delas já sinalizadas pelo sistema. Ou basta ver como uma juíza, em plena sessão de tribunal, criticou Bárbara Guimarães por ela não ter apresentado queixa imediatamente depois das  alegadas agressões que terá sido vítima. Se isto se passa num caso mediático, o que acontecerá nos tribunais de Portugal em que as vítimas são mulheres anónimas. Um dado relevante é o número de agressores que apenas é condenado a pena suspensa, enquanto elas perdem tudo – casa e muitas vezes emprego – para fugirem do seu carrasco. Por tudo isto, “A mulher transparente” não perdeu em nada actualidade, depois de todos estes anos.


Solidão e viver só

A solidão faz parte da condição humana, em certa medida, nascemos e morremos sozinhos, mas os padrões culturais impunham até há muito pouco tempo como norma o casamento e a vida a dois. Em Portugal, há uma ou duas gerações era impensável sair de casa dos pais para ir viver sozinho, saía-se para casar. Noutros países, no entanto, como por exemplo na Alemanha, é comum  desde há bastante tempo a saída de casa  dos pais por parte de jovens  para viverem em comunidades de estudantes, experimentando a maior parte desses jovens uma autonomia precoce em relação aos pais.  Hoje em dia, mesmo em Portugal, é muito mais frequente  os jovens saírem de casa para viver sozinhos, sendo nessa opção uma escolha e não um constrangimento.

 Viver sozinho é caro, implica uma certa capacidade financeira que nem todos dispõem, mesmo que gostassem de fazer essa opção. Talvez por isso seja nos países mais ricos que a percentagem de pessoas que vive sozinha é  maior. O campeão dos agregados familiares de uma única pessoa é a Suécia onde 59, 4%  são agregados dessa natureza. Na Dinamarca, a percentagem é de 43,9% enquanto a Noruega, a Finlândia e a Alemanha andam pelos 40%, quase dez pontos percentuais acima da média da União Europeia (UE), que é de 31,7% . De acordo com o Censos de 2011, as pessoas que viviam sozinhas em Portugal representavam 21,4% do total dos agregados familiares existentes – um valor que, é quase o dobro do verificado em 1991, quando a percentagem era de 13,8%.   Verifica-se que das pessoas que vivem sozinhas em Portugal 62% são mulheres. Se muitas são viúvas e idosas, o facto é que a conquistas de igualdade de género, o maior nível de escolarização e de capacidade financeira fazem com que para muitas mulheres façam, hoje em dia, da opção de viver sozinhas  uma escolha.

Talvez mais significativo do que os números seja a forma como as diferentes pessoas lidam com a experiência de viver sozinho Se para algumas esta experiência é vivenciada como angustiante, para outras é uma forma de libertação. Também factores económicos e sociais podem influenciar a experiência de se viver sozinho. Não é mesma coisa viver sozinha quando se é uma viúva idosa e pobre ou uma jovem mulher bem - sucedida de classe média alta.

Viver sozinho pode ser diferente de viver só. E essa nuance é importante para distinguir a forma como as pessoas experienciam uma casa vazia ao chegarem a casa, à hora da refeição ou quando vão dormir. Nestas circunstâncias as pessoas que se sentem mais sós estão muitas vezes por projectar um vazio que está mais dentro delas do que no exterior. Tanto assim que há gente que vive acompanhada e que sente um enorme sentimento de solidão.

 Precisamos dos outros para sabermos quem somos e para criarmos dentro de nós imagens positivas de forma a que, mais tarde, sejamos capazes de lidar com a adversidade. E este processo acontece desde a infância. Também para a nossa evolução enquanto seres humanos dependemos de outros que são para nós significativos. Se gostamos de alguém, passamos a imaginar o que queremos dessa pessoa e o que o outro quer de nós, o interesse na relação e o pensar o vínculo obriga-nos a reflectir sobre nós próprios. Os outros são sempre importantes, portanto, o verdadeiro solitário é aquele que não tem ninguém dentro de si, estando ou não essa pessoa dentro de casa.

Há pessoas que depois de um divórcio ou da morte de um cônjuge vivenciam o facto de viverem sozinhas como um constrangimento, sentindo o silêncio da sua casa  como insuportável e entrando em depressão. Muitas outras vivem os processos de viuvez e divórcio e a oportunidade de viver sozinhas como uma libertação no sentido que passam a ser completamente donas do seu tempo e dos seus movimentos. Mas as que são verdadeiramente felizes nesta situação são aquelas que continuam a privilegiar relações de intimidade com familiares, amigos e namoradas, mesmo que nem sempre partilhem o mesmo espaço.

O sentimento de solidão pode ser, no entanto acentuado, por questões não meramente psicológicas. Por exemplo, o envelhecimento da primeira geração de emigrantes faz com que actualmente muito idosos portugueses vivam sós na Alemanha e noutros países de emigração, sendo que nem todos dominam a língua do país que os acolheu. Esse desenraizamento, a distância em relação a familiares, a morte do conjugue podem gerar um enorme sentimento de solidão.