Portugueses na Alemanha

Nem heróis nem mártires....  

- ou: a necessidade de rever os discursos sobre a e/imigração   



Para o ano que vem (2014) , completam-se 50 anos da celebração do acordo de angariação de mão de obra entre a Alemanha e Portugal. Parto do princípio de que, à semelhança do que já aconteceu com outras comunidades migrantes (italianos, turcos), também a comunidade portuguesa na Alemanha não deixará passar essa data desapercebida e irá procurar formas dignas de a assinalar e celebrar.
Para que a celebração desse aniversário seja ocasião de algo mais do que um simples „acto oficial“ a realizar num qualquer „salão nobre“ das instituições deste ou do nosso país de origem, proponho que se comece desde já a reflectir e a fazer o balanço destes 50 anos de imigração portuguesa na Alemanha, perguntando-nos o que é que de facto queremos celebrar e se há ou não razões para festejar...



No que toca aos temas da emigração / imigração, parece-me que muitas vezes se cai, tanto por aqui como em Portugal, num discurso patético (quer dizer „doentio“,  de „pathos“, de onde vem a „patologia“), cheio de exageros de linguagem, feito da repetição de banalidades e de lugares comuns. Raramente se encontra uma análise serena e objectiva da emigração. E isto vale nas duas direcções: tanto para aqueles que empolgam a emigração e fazem dela uma „história de sucesso“, como para aqueles que encaram a emigração como uma „desgraça histórica“, mesmo que não tenham coragem de o dizer abertamente.


Há de um lado esse discurso meio poético meio político-demagogo que realça da e/imigração o que ela tem de  „história de sucesso“, não se cansando de reclamar para os emigrantes um estatuto de heróis: gente corajosa e empreendedora, que deixou o seu país e, ultrapassando todas as dificuldades da língua, da cultura, do clima, das saudades, „chegaram, viram e venceram“. E seria graças a eles e às suas remessas financeiras que o nosso país se tem mantido acima de água, atravessando crises umas atrás das outras....

E vai daí nunca será demais reclamar de Lisboa apoio para os emigrantes... eles afinal „quase que merecem mais do que aqueles que lá ficaram“...
A emigração é vista assim como segunda epopeia dos portugueses no mundo, depois da grande epopeia dos „descobrimentos“ que os Lusíadas imortalizaram. Tudo muito bonito, é o discurso que fica bem a esses que tem de dizer umas palavras na abertura de um jantar nas associações de emigrantes ou no início de um festival de folclore... até pode dar para ganhar votos, mas anda bem longe da realidade  que foi e continua a ser a vida e o trabalho na emigração.

Do outro lado, há o discurso do „coitadinho do emigrante“, que é assim um „escorraçado da sua terra“, forçado a ter de viver no exílio em terra estranha, longe da sua „terra natal“, sufocado pelas saudades, morto por ver chegar a hora de regressar...  

Veja-se a cena desse jovem enfermeiro que recentemente escreveu uma carta ao Presidente da República, antes de emigrar para a Inglaterra (com trabalho garantido e bom ordenado!), num tom de fazer chorar mesmo os corações empedernidos e de por o pais de boca aberta diante dos écrans. Vejam-se as imagens do „Portugal no coração“ e dos programas para emigrantes da RTPi....



É o choradinho patriótico que vê na emigração a „desgraça“,  inevitável mas sempre desgraça, e que, no fundo, se bem virmos, dá do emigrante essa imagem negativa de quem partiu porque foi incapaz de governar a vida na sua terra...  

 Um discurso que, debaixo deste tom mórbido de compaixão, acaba por nos ofender.

Creio que são muitos, cada vez mais, os emigrantes que não se reconhecem nem num nem noutro tipo de discurso.

Importa, por isso, aproveitando esta ocasião de preparação do 50º aniversário do contrato para a emigração de mão de obra portuguesa para a Alemanha, fazer reflexões sérias, que analisem a imigração laboral portuguesa na Alemanha de forma diferenciada, nos seus diferentes aspectos: económicos, políticos, sociais, e dos dois lados: do lado do país de origem como também do lado do país de acolhimento. Reflexões que façam o balanço a partir de dados objectivos e não sentimentais. Reflexões que podem ter em conta destinos individuais e biografias exemplares mas que sobretudo saibam repensar a e/imigração portuguesa na Alemanha no seu conjunto, como fenómeno colectivo, a ser comparado com a experiência feita pelos outros povos com quem convivemos. Reflexão que não esqueça a situação diferente das diferentes gerações e recorde o passado, sem esquecer o presente e o futuro.



Voltaremos ao tema.



Joaquim Nunes

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Kommentare: 1
  • #1

    Antonio da Cunha Duarte Justo (Sonntag, 02 März 2014 17:21)

    Uma boa reflexão!
    Um discurso da emigração incluirá sempre um certo patos, não fosse ele um discurso migrante reduzível ao cantar do cuco e não tivesse ele algo comum à experiência de Belém! Naturalmente que precisamos de difrentes discuros, que não se deve exgutar num só discurso pseja ele, literário, político, económico, sociológico ou antropológico.
    António Justo