Crónicas de Miguel Szymanski


“O Cantinho da Amizade”

Estamos sentados os dois, um à frente do outro como velhos amigos, a começar o almoço no restaurante de uma rua castiça de Lisboa, entre nós só uma pequena mesa de toalha colorida, dois pratos, azeitonas e um jarro de vinho tinto. Na realidade, acabei de conhecer o diplomata e de lhe apertar a mão pela primeira vez cinco minutos antes em frente ao café, no meio do parque verdejante do Campo Mártires da Pátria, ladeado pela velha faculdade de Medicina, o Goethe Institut, a Embaixada da Alemanha e, do lado mais pobre, casas com roupa pendurada a secar nas janelas como bandeirinhas num velho navio.

 

Depois de uma breve hesitação, aceitara dias antes o convite do diplomata da Embaixada da Alemanha para irmos almoçar. O motivo que referiu para me convidar, no e-mail que enviou para a redacção do diário sedeado em Berlim, despertou a minha curiosidade. Queria “agradecer-me pessoalmente” por uma crónica que publicara uma semana antes no diário alemão TAZ, onde duas vezes por mês publico pequenos textos sob o titulo “Zu Hause bei Fremden” (Em Casa com Estranhos). Sugeriu o restaurante por SMS e eu confirmei. Fazemos um brinde. O diplomata, robusto e compacto, com cara de quem nasceu no campo e foi para a cidade, sorri um sorriso de quem também sabe o que é sofrer, sem se perceber se por dores da alma ou do corpo. À noite canta-se Fado no “Cantinho da Amizade, leio num cartaz afixado na parede. Na minha última crónica para o TAZ tinha escrito sobre uma conferência em Lisboa no início de Março com o ministro de Estado para a Europa do governo Merkel, um senhor de nome Michael Roth pertencente ao SPD. O ministro alemão, 45 anos de idade e desde os 28 deputado do Bundestag, viera a Lisboa para “dialogar com jovens portugueses”, como dizia o comunicado de imprensa do evento. Eu, como jornalista e correspondente na capital portuguesa, tinha sido previamente contactado pela organização (um think tank de Berlim ligado aus Auswärtiges Amt, o ministério dos Negócios Estrangeiros de Berlim) para sugerir nomes de participantes nos workshops e na conferência com o ministro. Como há dias em que ainda acordo a acreditar na humanidade em geral, e na política por arrasto, momentos de ingenuidade, achaques felizmente passageiros, fiquei feliz por alguém no governo de Berlim querer conhecer e dialogar com jovens portugueses. Sugeri nomes de pessoas com projecção pública, com ideias próprias, de todos os quadrantes, sem ligações a partidos ou sindicatos. Não deveria ter ficado tão admirado como fiquei com o baixíssimo nível da intervenção do ministro. A apresentação dos “work shops” fora feita imediatamente antes do discurso do ministro por jovens que falavam e apresentavam as sua ideias inócuas como alunos do ensino secundário com receio de decepcionar o professor. O diálogo entre os jovens portugueses e o ministro alemão foi nulo. Todo o evento “Diálogo sobre a Europa” entre o jovem ministro, velho como uma raposa, e os jovens do país do Sul da Europa em crise não passou de uma caricata operação de marketing, vazia, sem substância, espírito ou conteúdo além de frases feitas decalcadas de outros discursos. Quando o ministro acrescentou algumas banalidades sobre a crise dos refugiados na Europa, repetiu várias vezes que o assunto exigia uma mais célere “solução final” (no contexto entendia-se que se referia-se à decisão dos processos de asilo). Ainda lhe dei desconto: a falar em inglês poderia estar-lhe a escapar a conotação nazi do termo “final solution”/ “Endlösung”, que na actualidade não cai particularmente bem no discurso de um ministro de Berlim. Próximo do final do evento, ainda ao ministro gesticulava de pé como um guarda sinaleiro, passou-me repentinamente o ataque de ingenuidade. Tal era o vazio de conteúdo, de diálogo e de empatia que se fez luz e fique curado do meu episódio de credulidade. Toda aquela encenação fora meticulosamente organizada e financiada para aquele político de carreira poder publicar no site do ministério e nos jornais meia dúzia de fotografias em pose “ministro dialoga com jovens da Europa do Sul”. Deixei passar três semanas até escrever sobre a risível prestação do ministro em Lisboa na minha crónica no TAZ, que desencadeou o almoço com o diplomata . “Toda a gente na Embaixada” teria concordado comigo, diz-me ele, que o ministro só viera a a Lisboa (já tinha ido a Atenas, brevemente irá a Madrid) para conseguir alguns cromos coloridos para o seu álbum de vaidades, tal como eu escrevera, disse-me ainda durante os aperitivos. Saí do almoço com a sensação de dever cumprido. A vida é assim, às vezes acreditamos que no mundo existe mesmo um “Cantinho da Amizade”. Mas como a terra não é plana, temos sempre que admitir a hipótese, de o almoço ter sido marcado por ordem do ministro para preencher os brancos na minha “ficha”.

Miguel Szymanski


Portugal de A a Z em 30 anos de viagens

Alemanha, Frankfurt am Main

Na velha Franckeschule, uma escola primária no bairro de Bockenheim, desço as escadarias de pedra a correr, depois de levar a minha filha à sala de aulas, onde se estreou nas lides escolares no mês anterior.

Atrasei-me um pouco, o edifício está já vazio e silencioso. Um vulto

desvia-se no último lance de escadas quando vou a descer. Não dou

atenção, como sempre, já estou a ficar atrasado para o dia de trabalho na redacção junto à Westbahnhof. Só registo que é alguém com uma esfregona na mão. De passagem, ouço um “Desculpe” em voz suave, quase

imperceptível. ‘Desculpe’?, ‘desculpe’, em português, não me enganei,

foi isso que ouvi? Viro-me para trás, vejo uma mulher, ainda jovem,

com ar cansado. Falou em português e só por isso apetece-me abracá-la.

Passa das nove da manhã, mas esqueço as horas e o atraso para

falarmos. Conta-me que começou às quatro da madrugada a limpar

escritórios no centro de Frankfurt, levou o filho com ela, que ficou a

dormir ao pé da mãe, enquanto a mãe trabalhava, e às sete foi pô-lo no

infantário para começar as limpezas na escola. Como todos os dias vai

ter de trabalhar até às dez da noite. O impecável mundo alemão também

são lágrimas de Portugal.

 

 

EUA, Nova Iorque

Na bilheteira do metro, o funcionário olha para as moedas estrangeiras

que por descuido saíram do meu porta-moedas e pergunta “de que país é

que você é?“. Sou português, respondo-lhe. O homem sorri: “Tinha um

tio português! O meu tio Joe, que já morreu há muitos anos. Era o meu

tio preferido, um homem muito trabalhador, muito generoso. Sabe, ele

foi pedreiro aqui e trabalhou muitos anos nas obras do World Trade

Center“. Onde quer que haja torres, túneis ou tormentas, haverá

portugueses a trabalhar e velejar pela vida.

 

 

Índia, Goa

Depois de dois meses a viajar pela Índia, apanhei o barco de Bombaim

para Sul, ao longo da costa, com destino a Goa. Vasco da Gama fez este

caminho; Camões andou 17 anos por estas paragens. Nasceu quando a

expansão do Império português estava no seu auge; morreu quando o

Portugal, podre, caiu na mão do rei do império vizinho. Que chegada

admirável, vindo do mar, a esta cidade a que se chamou a Roma do

Oriente: as casas caiadas de branco, as igrejas, as pedras da calçada,

tudo é português. Mas em Goa, com tantas línguas diferentes em

concorrência, a de Camões já só é pouco mais do que uma memória. O

concani, o marati, o gujarat, o hindu e o inglês fizeram esquecer

quase por completo a língua dos velhos e tantas vezes cruéis

lusitanos. No hotel, a recepcionista é indiana e os impressos estão

escritos em inglês. Quando saio e entrego a chave na recepção,

pergunto-lhe o nome. “Amália", responde. Há nomes que são música nos

ouvidos. Mas só há um que é fado.

 

 

Marrocos, Marraquexe

Tínhamos feito a viagem de capota aberta, na parte de trás do meu

velho G-230 estavam umas folhas, caídas de uma alfarrobeira no

Algarve, onde passáramos o fim-de-semana na quinta de uns amigos.

Estacionei o jipe num parque na cidade velha de Marraquexe e,

imediatamente, o guarda do parque e algumas crianças aproximam-se.

Enquanto ajudam a tirar as malas e as mochilas, o velho guarda

descobre duas alfarrobas, secas e pretas, e levanta-as no ar com ar de

espanto. “Alfarroba“, digo-lhe eu. As crianças e o guarda riem-se e

repetem entusiasmados “Alfarroba, alfarroba!“. Em marroquino utilizam

a mesma palavra e foram os seus antepassados que deram nome que usamos

em Portugal. Alcântara em árabe quer dizer “a ponte". E culturalmente

é isso que liga Portugal ao seu vizinho a Sul. Não pelas fortificações

militares portuguesas em Marrocos, que essas existem em todo o mundo.

Nem pelas guerras ou conquistas mútuas de territórios, que essas

acabam muitas vezes por aproximar mais as culturas do que separá-las.

Mas porque as afinidades são tantas: na gastronomia, na música, na

língua. Açucar, Alfarroba, Alvalade (“o rapaz") ou Azeite são só

alguns exemplos de palavras que partilhamos. Mas o mais importante é

que em Marrocos um português é sempre mais do que um simples turista.

É um irmão.

 

 

Peru, Iquitos

Em Iquitos, a maior cidade no meio da selva amazónica sem ligações

rodoviárias para o exterior e só acessível de barco ou de avião,

aluguei uma pequena lancha e desço o Amazonas com o “capitão” da

lancha, o seu ajudante, e algumas galinhas vivas a bordo. Não iremos

longe, o barco mete água. Do plano de seguir duas semanas rio abaixo

até Manaus desisto rapidamente. Pedro Teixeira, que partiu do Perú no

século XVII com uma expedição para tomar a região do Amazonas para o

Império Português, teve mais sucesso. Mas ao passar pelas águas negras

cheias de taninos das folhas em decomposição dos pequenos afluentes do

Amazonas, ou a grande superfície de água cor de terra do gigante

sul-americano, recordo a conversa duma senhora portuguesa, descendente

duma das famílias que fizeram colossais fortunas com o cauchu. “Os

meus avós viviam em Manaus, mas mandavam a roupa suja toda de navio

para Lisboa, onde era lavada na água azul do Tejo, seca ao sol, e

embalada em baús perfumados de regresso para cá”. Nós portugueses,

quando somos ricos e finos, somos ricos e finos à séria.

 

Reino Unido, Londres

Ao fim da tarde vê-se as pessoas a sair dos, pubs’ com uma carga de

álcool considerável; eu vou a caminho de uma galeria onde se inaugura

uma exposição e tenho que me desviar de alguns britânicos

cambaleantes. Quando chegamos à exposição, os convidados já estão

muito alegres a beberricar o Porto de honra. Tinha lido algures que na

corte londrina se bebia álcool, muito álcool, até que, em 1622, a

princesa portuguesa Catarina de Bragança casou com o rei Carlos II de

Inglaterra e introduziu “a hora do chá“. Levámos um pouco de

civilização para Inglaterra, mas foi sol de pouca dura, pouco tempo

depois, os ingleses puseram-nos a pisar uva e a carregar as pipas de

vinho do Porto para os navios rumo ao Reino Unido.

 

Turquia, Istambul

Portugal ou Portakal em turco, como em árabe, quer dizer laranja. E

quem passeia pelos bazares turcos vai estranhar como todos os

comerciantes reconhecem os portugueses. Talvez por em Istambul ainda

viver uma comunidade de judeus expulsos de Portugal há mais de 500

anos e que ainda fala português. Uma especialidade oferecida nos

mercados turcos são figos com amêndoas, anunciados como “viagra

turco“. O vendedor explica-me: “É do figo, mas olhe que não é para ir

jogar futebol“. Figo era, quando lá estive, uma referência para

qualquer criança na Turquia. Hoje sabem quem é Ronaldo, porque o

mundo, para grande parte da população mundial, não é plano, é

esférico, e fala sempre português.

 

Zimbabué, Chivhu

O meu anfitrião, Andrew, amigo do meu tio que vive em Harare, na

capital, convidou-me para visitar a sua ‘farm”, no sul dos país,

próximo da fronteira com a África do Sul. Pouco antes da pequena

avioneta aterrar aos solavancos na pista de terra batida, ainda

sobrevoamos uma grande manada de girafas. Somos recebidos por um grupo

de crianças que vem a correr e a rir atrás do jipe conduzido por

Peter, o capataz, um velho de origem inglesa, alto e forte, de cabelo

branco e pele queimada. Pouco mais tarde, já com a mala no jipe, um

grupo de mulheres e crianças corre na nossa direcção junto a um

pequeno povoado à beira do caminho. Peter trava o jipe. As mulheres

gesticulam, gritam, agarram bebés como se alguém os quisesse roubar.

Peter sai do jipe com uma catana na mão. A noite caiu sem pré-aviso e

de dentro duma das palhotas ouve-se inesperadamente o riso de Peter.

Todos se riem aliviados e gritam as mesmas duas palavras. No carro

também começo a rir. “Tu percebes o que eles estão a dizer?“

pergunta-me Andrew surpreendido. “Percebo“, é uma espécie de dialecto

falado entre brancos e negros, uma língua franca entendida em toda a

região. “kobra piknina, kobra piknina“ é o que todos gritam depois de

Peter ter resolvido o assunto com a ponta de um pau e a catana. O

portugês contribuiu com a palavra “piknenino“, entre muitas outras,

para toda a gente aqui se entender. O português não tem mesmo

fronteiras.