Portugal abandonado

Cristina Krippahl
Cristina Krippahl

A emigração é decerto um mal. Porque aqueles que se oferecem mostram ser, por essa resolução, os mais enérgicos e os mais rijamente decididos; e num país de fracos e de indolentes, é um prejuízo perder as raras vontades firmes e os poucos braços viris.

Palavras publicadas no dia 8 de Dezembro de 1871, nas “Farpas” de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão. Pareceu-me oportuno repeti-las aqui, tendo em conta o debate em torno da “nova” emigração portuguesa.

“Porque a emigração entre nós, não é como em toda a parte a transbordação de uma população que sobra, é a fuga de uma população que sofre;”

No final do século XIX, em meados do século XX e no início do século XXI: ninguém sobra em Portugal, todos são necessários para tirar o país da miséria em que se encontra. Mas os nossos governantes, então como hoje, discordam. Acham que devem encorajar o Zé Povinho a partir para as Alemanhas e Franças, os Brasis e Angolas, fazer qualquer trabalho que consigam arranjar. O que importa é que enviem as remessas para sanear as contas por eles desfeitas. Deste modo, a nossa elite, mais sobrinhos, cunhados e comadres, poderão continuar tranquilamente a gozar os tachos passados de mão em mão, afirmando-se salvadores da nação abandonada pelos seus melhores cidadãos. Levá-los a emigrar, a construir longe uma vida impossível no seu país, sempre é muito menos trabalhoso e muito mais cómodo do que lhes criar as condições para que possam ter uma vida digna desse nome na terra onde nasceram. Havia que trabalhar para isso, havia que lutar contra os interesses estabelecidos, as estruturas da cunha e corrupção, a inércia de quem se agarra ao tacho, a prepotência dos pequenos déspotas na administração pública, a vergonha que é a Justiça, e muito mais. Para quê, se o problema se resolve bem como de costume? Podem confiar que os portugueses acatam e não se defendem. Até a imprensa internacional já o noticiou. A apatia é apanágio nacional.

“Porque não é o espírito de indústria, de actividade, de expansão, de criação, que leva os nossos colonos, - como leva os ingleses à Austrália e à Índia - é a miséria de um país esterilizado que expulsa, sacode e que instiga a emigrar, a procurar longe o pão;”

É a luta para dar casa e pão aos filhos e mantê-los na escola num país onde, até hoje, apenas 30% da população tem o ensino secundário. Há quem tenha partido para o estrangeiro também para assegurar as propinas elevadas dos filhos na escola particular. Não porque o ensino seja necessariamente melhor, mas porque há aqui a possibilidade de fazer hoje os bons contactos que amanhã abrem as portas à cunha e ao tacho. A esperança é que a grande crise mais que previsível da próxima geração – já que nada vai mudar – passe ao lado da prole a, e que toque a outros abandonar, mais uma vez, o país, os pais, a mulher, o marido, os filhos e os amigos. O progresso à portuguesa nunca tem nada a ver com trabalhar para o bem comum.

Porque não basta, como é óbvio, apontar o dedo aos que seguram as rédeas e escusar-se de toda a responsabilidade pela situação. Empurrar responsabilidades para cima dos outros é um desporto nacional no qual somos campeões. Já assumir responsabilidades é um curso sem frequentação. Mais de 40% dos portugueses nem sentem que têm o dever de votar. Embora gostem de se queixar dos governantes que têm. E todos os piores vícios e corrupções apontados ás elites são piamente copiados no plano privado e profissional. É o chamado “desenrascanço”, a solução à portuguesa que nunca perde tempo para perguntar se o meu comportamento prejudica o colega, o amigo, a família ou a sociedade em geral. A má consciência – onde existe, e é raro - é afogada numa cervejola e esquecida diante dum jogo de futebol. Os filhos aprendem em casa e depois ensinam aos próprios filhos. 

Poderia ter sido diferente. Se o ensino e a formação tivessem sido a prioridade dos nossos governantes desde a década de 80, quando a falta de fundos, graças à Europa, deixou de ser desculpa. Mas não houve quem ensinasse ás novas gerações que o cidadão tem direitos, mas também tem deveres. Em vez disso aprenderam que o “chico-espertismo” é que rende, e o resto que vá às favas. Se os dinheiros da Europa tivessem sido investidos para instruir um povo, despertar a sua curiosidade pelo funcionamento do mundo, encorajá-lo a pesquisar, criar e inovar, a situação hoje seria diferente. Mas já Salazar sabia perfeitamente que gente instruída e conhecedora dos seus direitos não se deixa manipular como um rebanho de ovelhas. Que gente que pensa pela própria cabeça um dia acaba por perceber que só a prosperidade de todos garante o bem-estar individual. Seria o fim dos tachos. A lição não passou despercebida aos herdeiros de Salazar. Portugal no século XXI. E Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão às voltas na campa.  

 

Cristina Krippahl

 

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