Optimismo?! Vamos a isso...

É conhecida a diferença entre o optimista e o pessimista: diante de um copo com  50% do seu conteúdo, o  pessimista apressa-se a dizer que o copo  está meio vazio, enquanto que o optimista dirá antes que o copo  está meio cheio. 

Nestes dias de fim de ano e de começo de ano novo, em que toda gente faz balanços ao ano “velho” e avança com palpites e votos para o novo ano, damo-nos conta disto: tanto ou mais importante do que os factos e os acontecimentos é o modo como os encaramos e interpretamos, a leitura que deles fazemos.  A nossa perspectiva, a nossa maneira de estar e de ver irá sempre “dar a volta” aos acontecimentos, aos números, às estatísticas. E, como dizia já o poeta cada um vê o que quer ver: “os meus olhos são uns olhos / e é com esses olhos uns / que eu vejo no mundo escolhos / onde outros, com outros olhos / não vêem escolhos nenhuns.”  (António Gedeão)

Sabendo deste risco de subjectivismo, creio que vale sempre a pena o esforço optimista de ver e, se possível, procurar obter imagens fiéis da realidade, da sociedade, do mundo. Um mundo global exige uma visão global. Se pensarmos a nível global, os nossos pessimismos serão relativizados, e os nossos optimismos, moderados.  Análises particularistas e nacionalistas, ego-centristas, como os movimentos populistas nos querem propor, são sempre imagens parciais da realidade. E, já ao nível pessoal, a vida é mais que um ano que passou. Na nossa mentalidade bem portuguesa, olhamos para trás e, diante daquilo que correu mal, dizemos: “podia ser bem pior”...

Ter uma visão de conjunto do mundo não é fácil. Os meios de comunicação não conseguem focar muitos acontecimentos ao mesmo tempo. O foco recai sobre um ou dois, e os outros rapidamente caem rapidamente no esquecimento.  Se o interesse se foca sobre a guerra na Síria, fica esquecida a situação da Eritreia ou do Nigéria. Se o tema é um  golpe de estado na Turquia, a Grécia com os seus problemas, sejam eles os financeiros ou os refugiados. desaparece das atenções. Se a figura do futuro presidente dos Estados Unidos é tema tratado até à exaustão, não resta espaço para “denunciar” os muitos tiranos e ditadores que por esse mundo ameaçam a dignidade humana e o bem-estar  dos povos.

E ainda outro aspecto dificulta uma visão abrangente: só os acontecimentos negativos, ou melhor, aqueles que interrompem a normalidade,  só eles são notícia, só eles se impõem. O dia a dia na “normalidade da vida” de muitos milhares de milhões de pessoas não é notícia.  A vida pura e simples; a luta (às vezes heroica) pelo pão de cada dia; a convivência pacífica dos cidadãos, em grupos e associações, nas famílias, na vizinhança, no trabalho; o empenhamento em pequenos gestos do cidadão anónimo, tudo isso raramente passará aos ecrãs das televisões ou às primeiras páginas dos jornais.  Mas tudo isso acontece e uma visão optimista não deixará de o valorizar.

Os factos são importantes. Uma sociedade “post-factual”, de que tanto se fala nestes dias... (“post-faktisch”, é a palavra do ano na Alemanha!), uma sociedade na qual os factos deixassem de contar, em que uma mentira divulgada no facebook passasse a valer só pelo facto de ser largamente apoiada e partilhada, seria uma sociedade frágil,  perigosamente manipulável. Os factos têm que ser verificados, comprovados e devidamente interpretados. Um exemplo da actualidade: o facto de entre as centenas de milhar de refugiados se ter misturado uma mão cheia de terroristas criminosos, é preocupante, pode assustar, mas não pode ser suficiente para criminalizar toda a política de acolhimento que se está a fazer neste país – para dar como exemplo um facto da actualidade. Criminosos há em todas as sociedades.

Para ser pessimista não é preciso muito.  Basta deixar-se impressionar pelos acontecimentos que ao longo de 2016 nos chocaram: a guerra na Síria (Alepo!), os atentados na França e na Alemanha, a situação política na Turquia, os avanços da AfD (na Alemanha) e dos populistas um pouco por toda a Europa, os resultados das eleições nos Estados Unidos...  Para ser optimista, é preciso ir além das primeiras impressões, olhar de forma mais global, mais atenta, mais persistente, porventura mais “distanciada”, para descobrir motivos de esperança, exemplos encorajantes, passos no sentido certo mesmo se pequenos, heróis sem nome nem prémio nobel...

Creio que precisamos de uma boa dose de optimismo, no início deste novo ano. Mas uma atitude, sim, uma opção de optimismo levará os nossos olhos e os nossos ouvidos a estar atentos àquilo que pode dar razão e justificar o nosso optimismo. A todos os níveis: desde a vida pessoal e familiar, à área profissional. Da vida particular à política internacional.  Há que acreditar que de ano para ano a história vai avançando. Os recuos passageiros não eliminam o curso a longo prazo. Vamos a isso! Para todos, um novo ano com optimismo!

Joaquim Nunes