O monstro escapou ao seu criador

Todos nós, face ao caos financeiro que se abateu sobre Portugal, estamos um pouco confusos com a situação atual do país e com as reformas que a troika nos impõe e que ameaçam o nosso bem-estar. Gostaríamos de perceber o que mudou na economia real, e que tem vindo a levar à falência país atrás de país, nesta velha Europa que já foi senhora do mundo.

“Make Money” parece ser a principal motivação dos mercados financeiros, que pouco a pouco vão agarrando o mundo com os seus tentáculos, como se de um polvo gigante se tratasse. Mas quem são os mercados financeiros, essa entidade abstrata que parece estar na origem de todos os problemas?

Várias designações e vários atores parecem contribuir para o adensamento desta neblina, que a pouco e pouco distancia governos e cidadãos, tornando a governação pouco transparente para a maioria dos cidadãos e as decisões cada vez mais incompreensíveis. Produtos com nomes que nada dizem à maior parte parte de todos nós, como “hedge funds” , “credit default swaps” derivados”, “fundos de equity” fazem parecer o tradicional “depósito a prazo”, onde a maioria dos portugueses ainda aplica o seu dinheiro, o telefone com fio da era das comunicações. Os modernos “smart phones” que todos já usamos, sem compreendermos muito bem como funcionam mas que todos acham maravilhosos, serão o equivalente dos novos produtos financeiros.

Uma empresa era no passado uma comunidade de artesãos que juntos trabalhavam para a criação de um objeto físico ou de um serviço a render a uma população. Hoje o objetivo de uma empresa é dar lucro.

A situação à qual chegamos é explicável, o que não quer dizer que seja justificável. No final dos anos 80, os mercados financeiros evoluíram para modelos mais sofisticados, onde as operações se começam a fazer com algoritmos matemáticos, dando origem ao “algotrading” - os computadores das salas de mercados das principais bolsas mundiais estão equipados com algoritmos que permitem realizar operações logo que uma nova informação chega, antes que qualquer ser humano seja capaz de ler ou interpretar esta informação. Uma quantidade importante de lucros é realizada em operações sucessivas que decorrem em intervalos de alguns milissegundos. Uma prática que foi autorizada em 1998 e que a partir daí tem vindo a transformar os mercados num “spielplatz” de informáticos e matemáticos geniais. Os matemáticos desembarcam em “wall street” e transformam o mundo financeiro numa equação, inventando modelos que nunca são eticamente neutros. A análise quantitativa pode ser definida como uma disciplina de matemática que permite a partir de métodos estatísticos, calcular os riscos de um investimento financeiro. Para calcular os riscos de milhares de investimentos de um banco são necessários meios de cálculo colossais. Engenheiros, matemáticos, físicos e informáticos são contratados pelos bancos a partir dos anos 90, dando origem a uma nova era de manipulação de risco e produtos financeiros.

Nos últimos cinco anos, esta evolução financeira acelerou a uma velocidade supersónica e as fronteiras do possível foram ultrapassadas. Uma nova categoria profissional emergiu desta nova realidade, dando origem a “traders” obcecados por bónus, desconectados da realidade e de qualquer moralidade, capazes até de especular em direto durante os atentados de 11 de Setembro com o valor das ações das companhias de aviação americanas.

Seria tentador pensar que o monstro escapou ao seu criador e que são estes matemáticos que ninguém parece ser capaz de controlar que estão na origem de todos os males financeiros dos estados. A crise é primeiro uma crise de dívida, dos agregados familiares e dos estados. Nós vivemos numa sociedade de abundância, mas paradoxalmente a riqueza tornou-se irreal. Um comportamento irresponsável generalizado a nível de população e de governos, empurrou muitos países da Europa para uma situação insustentável, criando dívidas públicas monstruosas, que a engenharia financeira permitiu revender a investidores espalhados pelo mundo, sob a forma dos famosos “produtos estruturados”. Estes investidores, em muitos casos fundos de pensões ou bancos pouco sofisticados, compraram estes produtos sem terem a competência para avaliar o seu risco, mas que lhes eram apresentados como sendo produtos sem risco com a famosa notação de AAA. É a falta de ética e não erros matemáticos que estão na origem dos problemas atuais.

Na turbulência destes acontecimentos, por vezes sentimos saudades dos tempos da monotonia e da lentidão do passado, que davam continuidade às nossas vidas e acalmavam as nossas angústias.

Resta-nos esperar que o que não nos mata torna-nos mais fortes, e aspirar a um “Happy End”. Os especuladores vão continuar a atacar o nosso país, sem tréguas, até que Portugal consiga resolver as suas contradições internas e aplicar com sucesso todas as reformas, transformando-se num dos países mais inovadores e competitivos à escala europeia.

 

Salvador M. Riccardo

Kommentar schreiben

Kommentare: 0