O fadinho do emigra

Em finais de Outubro, a comunicação social e as redes sociais portuguesas encheram-se de ternura comovida por um jovem enfermeiro de partida para a Grã-Bretanha, onde conseguira um contrato de trabalho.

 
Antes de partir, Pedro Marques, de 22 anos, escreveu uma carta aberta ao Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, lamentando o seu destino de emigrante. Foi o que bastou para se tornar numa celebridade
instantânea: deixou despedaçados todos os corações (virtuais) de quem tem conta no facebook e fez derramar lágrimas (de crocodilo?) a muito jornalista sem melhor que fazer.



Para nós, emigrantes de longa data, esta “fita” toda, não pode deixar de surpreender. A partida de milhões de portugueses desde os anos 50 do século passado nunca aqueceu nem arrefeceu nenhum dos nossos conterrâneos, salvo – e nem sempre – a família e os amigos mais chegados. Claro que no Portugal salazarento não havia facebook, e a comunicação social não se atrevia a fazer um drama da emigração, que, oficialmente não existia, apesar de servir – graças às remessas - para sanear as contas públicas e modernizar o país. Mas quem não era directamente afectado pela emigração, também não considerava esse um assunto com o qual valesse a pena perder tempo. Talvez porque então emigravam aqueles que nem como trolha ou criada conseguiam arranjar trabalho em Portugal. Os mais miseráveis, os que passavam fome e não tinham perspectivas, gente que não contava, portanto. Ou, pior, eram desertores que não queriam participar em guerras injustas em países africanos. Num país maioritariamente pró-colonialista, eram considerados traidores. Partiam com a convicção de que nunca mais poderiam regressar, nunca mais voltariam a abraçar os pais, os irmãos e os amigos.



Poucos portugueses se deram e se dão ao trabalho de investigar o que significava emigrar a seguir à Segunda Guerra Mundial, quando países como a França – então principal destino de emigração portuguesa – precisavam muito de mão-de-obra, mas tinham muito pouco para oferecer em matéria de conforto. Quem emigrava para os “bidonvilles” dos arredores de Paris e outros centros industriais, não vinha com a escola feita, o curso de enfermagem, o contrato no bolso e a companhia de – pasme-se - “20 amigos”, para não se sentir muito só. Quem emigrava, deixava para trás a família, aceitava os trabalhos mais rudes e pior pagos, vivia em barracas onde entrava a chuva e soprava o vento pelas frestas. E não tinha muito tempo para chorar o seu destino nem escrever cartas a presidentes, - quando sabia escrever - porque tinha que trabalhar 14 e 15 horas por dia para comer e enviar dinheiro à mulher, aos filhos, aos pais e aos irmãos. Estava à mercê do patrão, porque não falava a língua nem conhecia as leis, e os sindicatos tardavam em interessar-se por estes intrusos necessários.



A vaga de emigração forçada pelo desastre económico que se sucedeu ao
25 de Abril já aconteceu num país livre e democrático – ou  a caminhar para lá. Mas, tal como nos anos 50 e 60, também então o destino desta gente não interessou ninguém em Portugal. Pelo contrário, a figura do “emigra” servia – e entre os mais mentecaptos continua a servir  -, sobretudo para a chacota. Talvez por ser objecto de inveja pela “vida regalada” que levava lá na “estranja”. Mas se é certo que a situação melhorou um pouco nos anos 70 e 80,  a partida para a “Europa” - à qual Portugal ainda não pertencia -  era ainda bem diferente do que é hoje. Na falta de Germanwings e Ryanair, o avião era inacessível para a maioria, e o comboio e a camioneta eram uma aventura sobretudo insalubre, da qual muitos teriam prescindido com prazer.



Uma vez no estrangeiro, nem pensar em “matar rapidamente saudades”, na Páscoa, no natal e em qualquer fim-de-semana prolongado. Nem se sonhava em receber regularmente a visita de familiares e amigos que “aproveitam” o apartamento em Londres ou Berlim para um belo passeio.  
Não havia dinheiro para passar uns dias com filhos na “Europa”. E, para estes, as férias, quando possíveis, eram uma vez por ano, de preferência no Verão e na casa da família, na “terrinha”, para sair mais barato.



Mesmo assim, o Mercedes comprado em segunda-mão e apinhado de família e bens de consumo impossíveis de obter em Portugal, não caía nas boas graças dos que lá tinham ficado. O emigrante, quando se revelava como tal, não desencadeava lamúrias pela sua triste sina longe da pátria, não suscitava lágrimas de pena pelo seu destino cruel e amargo, o seu fado não era motivo de lamentação na comunicação social. Pelo contrário, era, muitas vezes, tratado com arrogância e sarcasmo, porque misturava o português com o francês ou o alemão, porque construía casas com muitos azulejos, e provavelmente também porque da sua visita anual dependia a sobrevivência de toda a aldeia.



Nos restantes onze meses do ano, quando o frio se tornava insuportável, a língua estranha arranhava os ouvidos e a saudade apertava demais, não havia computador para “skypar” com a família e os amigos que ficaram para trás, ou smartphones para enviar fotos instantâneas do apartamento, do local de trabalho e do gato da vizinha. Impensável, até, telefonar para casa por um sim ou por um
não: para a chamada ocasional havia primeiro que pôr dinheiro de lado.  
Falar com a família – muitas vezes com interferências tais que não se percebia metade do que diziam do outro lado - era dia de festa. E a chamada era sempre feita do telefone público, para ser mais fácil controlar os francos e marcos que iam caindo – todos os segundos, parecia. Raras vezes se ligava de casa, onde o tempo passado ao telefone voava, e as contas no fim do mês depois ameaçavam o mealheiro reservado para as férias.



Não tenho dúvidas – até por experiência própria – que a emigração, mesmo num mundo tão mirrado e confortável como é a Europa hoje – exige uma certa coragem e determinação. E, ás vezes, convenhamos, uma ponta de desespero, ou, pelo menos exasperação com a situação em Portugal. O que duvido é que hoje a emigração possa ser um acontecimento muito traumático para um jovem com boa formação profissional, amigos, conhecimentos linguísticos, contrato no bolso a rondar o equivalente a muito aceitáveis 2000 euros para um primeiro emprego (horas extraordinárias pagas à parte, regalias sociais, subsídio de férias e perspectivas de progressão na carreira incluidos). A União Europeia – que está muito na moda vilipendiar em Portugal – impede que o português seja tratado pelo patrão de forma diferente do autóctone. E o patrão, como tem interesse em conservar a mão-de-obra qualificada, investe nela, dá formação, organiza cursos de língua, excursões, assistentes sociais e, muitas vezes, um apartamento em condições.  


Trata-se, assim, de uma excelente oportunidade para conhecer outras terras e outras gentes, tudo sem o risco de passar fome e frio, ser abandonado quando doente e não receber o salário pontualmente todos os meses. Na verdade, uma temporada a trabalhar ou a estudar no estrangeiro – e a Europa é hoje um “estrangeiro” muito relativo – devia ser obrigatória para todos os jovens, não apenas portugueses.



O trauma será muito maior para quem fica, porque o país perde gente qualificada, empenhada, necessária à construção do futuro. Por outro lado, os jovens que saem aprendem a conhecer realidades diferentes.  


Quando a crise passar – e há-de passar, mais tarde ou mais cedo – não terão dificuldades em regressar, se nessa altura ainda estiverem para aí virados, claro. Espero que sim, porque estou convencida que levarão na bagagem para Portugal, para além de uma experiência enriquecedora, uma mentalidade diferente. Deixarão, por exemplo, de aceitar sem protesto nem luta tudo o que está errado no nosso país, a começar pelo muito característico “nacional-coitadismo”.



Cristina Krippahl

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Kommentare: 1
  • #1

    fernando (Montag, 30 Juni 2014 17:15)

    Invejoso, estudasse para ser alguém como eu'