Crónicas de José Luís Peixoto


Navegadores

       É evidente que o passado está aqui. Chamamos "presente" a este instante e cobrimo-lo com uma definição que conseguimos entender, que nos ajuda a orientarmo-nos no tempo. É uma espécie de mapa: passado, presente e futuro são pontos cardeais nessa cartografia do tempo, é preciso navegar. Mas é evidente que o passado está aqui, ainda está aqui e nunca se apagará. A sua presença não depende da memória, não depende da consciência.

       O tempo não dilui os efeitos daquilo que aconteceu, pelo contrário. O tempo expande cada decisão e cada gesto. Essa é a força de estarmos vivos e de tocarmos o mundo com o que fazemos e com o que não fazemos.

       Os navegadores portugueses não são apenas nomes de ruas e avenidas, nomes de pontes e centros comerciais, não são apenas matéria que tivemos de decorar nas aulas de história. É verdade que, ao longo dos anos, os seus exemplos foram muitas vezes transformados em argumentos ilegítimos. É sempre assim com o passado, pessoas diferentes retiram diferentes lições e, com frequência, preferem aquelas que lhes convêm. Ainda assim, em todas essas possibilidades, os navegadores portugueses lançaram-se sempre por oceanos, desafiaram sempre horizontes.

       E, para além dos detalhes, para além das coisinhas, esses são desígnios que dizem respeito à aventura humana. Não custa imaginar obstáculos que requeiram essa ousadia. Na nossa vida, todos temos oceanos, parecem inultrapassáveis, sentimo-nos pequenos diante deles, são reais e concretos, assustam-nos da mesma maneira que um oceano à noite, navegar à vela num oceano infinito debaixo de uma noite negra. Também não é preciso olhar muito em volta para perceber que, na nossa vida, todos temos horizontes, linhas distantes onde precisamos de imaginar algo que não está lá e, dia após dia, temos de ser nós a esforçarmo-nos por não duvidar dessa miragem transparente.

       Existem as diferenças de circunstância, mas creio que o medo e a coragem que sentimos e que eles sentiam têm semelhanças, acredito que são experienciados de forma idêntica. Até porque os sentimentos são mais fiáveis para avaliar uma identidade cultural do que as fronteiras.

       A história é o caminho que fizemos até aqui. É através desse caminho que temos ligação com esses navegadores, recordados por datas e figuras da época, e também com tantos outros, nossos pais, nossos avós, avós dos nossos avós. O mundo não começou no dia em que nascemos. Esse não é, sequer, o início da nossa história pessoal. Desde crianças e durante mais tempo do que estamos dispostos a admitir, recebemos atualizações daquilo que aconteceu antes de nós, património da sabedoria imensa que sempre nos transcenderá e que, no entanto, absorvemos e utilizamos todos os dias, visível no modo como nos integramos socialmente, civilizacionalmente.

       Peço desculpa, não queria usar palavras tão longas. No fundo, o que tenho para dizer é muito simples e faz parte do mais essencial de tudo. Apenas queria dizer que esses navegadores, Gama, Cabral, Magalhães, ainda estão aqui.

 


Liberdade

Vem. Deixa tudo o que planeaste para o dia de amanhã e vem. Não são os teus planos que garantem a sobrevivência do mundo. Depois destas paredes, há campos, rios, montanhas, planícies, desertos; depois deste tecto, há o céu e o sol. Se vieres agora comigo, o mundo não vai acabar. Os prazos podem esperar, a vida não.

Vem. Temos todos os oceanos para atravessar. Temos momentos suspensos no futuro, à espera que cheguemos para resgatá-los: um suco de açaí a caminho da mesa onde havemos de nos sentar no Leblon, uma massagista tailandesa a aquecer os pulsos e a espalhar óleo nas mãos que se vão dirigir às nossas costas, sol em Miami, neve em Estocolmo, chuva grossa e regeneradora em São Tomé, bagos gordos de chuva a rebentarem na terra fértil de São Tomé. Não encontro motivos para querermos menos do que o máximo com que podemos sonhar.

         Vem. O telefone irá cansar-se de tocar sem que ninguém o atenda. A pilha de algum aparelho irá gastar-se. A tua secretária será como aqueles terrenos abandonados, onde começam a crescer ervas e que, ao fim de algum tempo, estão completamente cobertos de esquecimento e já ninguém se lembra como eram antes. As canetas dentro do copo não vão sentir falta de ti. O relógio só tem poder se lhe deres poder, se acreditares que é poderoso. Por si só, o relógio não é capaz de nada. Por si só, o relógio é um objecto ridículo, feito de plástico e materiais pobres, com a função ridícula de repetir: tic, tic, tic.

O tempo é outra coisa. Vem aproveitar o tempo.

Eu sei, eu sei, eu sei. Tens mil razões que não te deixam aceitar este convite. Eu podia agora pousar todas essas razões na palma da mão. Se as soprasse, não seriam sequer como pó porque um montinho de pó soprado haveria de espalhar uma nuvem. Essas razões sopradas no ar seriam apenas invisível em cima de invisível.

Vem. Vem agora. Este é o instante exacto em que apenas precisas de fazer um movimento simples. Levanta-te da cadeira ou dá um passo. Não te preocupes com mais. Depois, no instante que se seguirá, será necessário outro movimento, igualmente simples. E saberás sempre qual o gesto que dará seguimento ao anterior. Não é difícil. Deslocar-se no espaço corresponde a uma sequência de gestos. O movimento é uma acção contínua.

Vem. A pessoa que serás irá agradecer. Quando encontrares o teu reflexo num lago ou num espelho, quando reparares naquilo em que te transformaste, irás agradecer. Olhando para hoje, irás dar graças por, felizmente, teres sido capaz de tomar essa decisão. A vida não pode ser só isto, diz a voz que tens dentro de ti e que tentas abafar com fardos enormes de silêncio ou com uma mistura de vozes misturadas, como numa discussão em que todos querem falar.

Vem. Não queres envelhecer à espera. Precisas de sentir o vento. Precisas de sentir o tempo. Não o tic, tic, tic, não a hora de entrar e não a hora de, finalmente, sair.

O tempo é outra coisa. Vem aproveitar o tempo.

Eu sei, eu sei, eu sei. Tens mil razões que não te deixam aceitar este convite. Mas vamos acreditar por um instante que podes vir. Vamos acreditar por um instante que vens.