Uma odisseia:

Procurar casa na Alemanha

Gloria Sousa
Gloria Sousa

Poderei apelidar de odisseia: um carrossel de peripécias, quase anedóticas, que muitas vezes dão tanta vontade de rir como de entrar em desespero. Procurar alojamento na Alemanha, ou pelo menos em Bona, é assim, um capítulo imprevisível, improvável, inigualável até.

 

Com muitos estudantes estrangeiros e várias organizações alemãs e internacionais, a cidade dá a impressão de que não há tecto para tanta gente! Por isso, a tarefa de alugar casa ou quarto é, normalmente, cansativa, difícil, por vezes stressante, pelo que é preciso uma pitada de sorte para se conseguir um bom espaço.

 

Felizmente a minha dose de sorte chegou generosa. Sem necessidade de entrevista, sem mesmo ter visto previamente a casa ou os senhorios, consegui alugar uma modesta e aconchegante habitação, onde me sinto bem. Mas nem sempre é assim tão simples.

Antes, em 2011, vivi durante dois meses numa residência de estudantes, na altura, considerada a “pior” de Bona. E era fácil perceber-se o porquê: por fora, um edifício alto, velho, de 11 andares; por dentro, desagradável, 29 quartos por piso, uma cozinha suja em cada um. O único ponto positivo da residência era ter uma casa de banho privada, tudo o resto era péssimo!

A cozinha estava sempre numa lástima, com lixo, durante dias, em cima da banca. Como a minha situação era temporária, decidi alugar a loiça da residência, que se resumia a uma panela e uma frigideira enormes e pesadas, que nem cabiam no meu pequeno armário (e tinha de as levar sempre para o quarto). Ao início aquecia leite numa panela que daria para cozinhar para umas 12 pessoas; depois descobri que havia um micro-ondas no 11º andar, onde ia, de mochila às costas, com a embalagem de leite, a chávena e os cereais, para poder tomar o pequeno-almoço. Tentei mudar, mas não era possível. Resignei-me àquela sorte onde apenas residiam estrangeiros, grande parte deles fora da Europa (dizia-se que aos estudantes alemães reservava-se melhor sorte). A residência já não existe como tal, todos sabiam que seria para fechar em breve por causa do amianto no tecto (felizmente!).

Na Alemanha, muitas pessoas optam por morar em habitações partilhadas, chamadas “Wohngemeinschaft” (WG). É o tipo de acomodação mais barato e, por isso, muito procurado. Quando as WG têm quartos livres, surgem anúncio na internet, com fotos e descrição. Os interessados enviam um email, para depois serem chamados para uma entrevista. Com a entrevista, os moradores da habitação pretendem conhecer um pouco melhor os candidatos ao quarto e seleccionar quem considerarem mais adequado. Ao mesmo tempo, o candidato tem a oportunidade de conhecer o espaço. E é principalmente nesta fase, da procura de casa, que surgem as histórias mais hilariantes.

Muitas delas conheci bem de perto. Na casa onde vivo, tive a oportunidade de receber, em diferentes momentos, duas colegas. Ficaram temporariamente enquanto procuravam casa definitiva. Essa procura demorou, a cada uma delas, quase um mês.Vamos começar por M. Viu uma WG de raparigas, uma casa lindíssima, numa zona agradável da cidade e foi para a entrevista cheia de expectativas. Voltou desiludida. Não fora preciso ouvir o “não” para perceber que não seria aceite. Seis meses era pouco tempo para alugar, justificaram as raparigas da casa (apesar de saberem, previamente, que seria por esse período).  

 

Adoptando uma postura arrogante, entrevistaram M. transmitindo, entre linhas, que não dispunha do perfil esperado.

Dias depois, M. foi ver uma outra casa, esta perto do seu local de trabalho. Na verdade, mal a conseguiu ver, tantas eram as caixas de cartão, empilhadas umas sobre as outras, em todos os compartimentos!  

 

Assim que percebeu que era suposto partilhar aquele espaço encaixotado com um homem, desolado, de coração partido pela separação da namorada, saiu… com a certeza de que casa de cartão e de males de amor não seria para si!

M. viu outra casa interessante na internet. O senhorio, homem maduro, vincado por manias mesquinhas, fazia questão de ir buscar M.  ao local de trabalho para lhe mostrar a casa. Queria evitar assim a possibilidade de um maldito minuto de atraso, na sua preenchida agenda de reformado. Para mal dos seus pecados, M., que não aceitou a boleia, chegou mesmo uns minutos atrasada! Esbaforido, o senhorio não disse que já não poderia levar M. a ver a casa, mas em vez disso levou-a à sua casa para ver fotografias na internet… como se M. já não as tivesse visto, precisamente na internet. Apesar de farta da impaciência do senhorio, M. não deu por mal empregue a ida a casa do stressado homem: ainda hoje comenta a foto que viu na sua casa, nada mais nada menos que o próprio cumprimentando Barack Obama!

Já a entrar em desespero, M. encontrou um quarto para ficar e assinou contrato. Mas graças a um desentendimento, à última da hora, M. acabou por não se mudar. Digo graças porque a sua vida naquela casa iria ser complicada… A senhoria, toda ela, eram regras até de socialização. Enviou, previamente, uma lista imensa de regras de conduta, algumas bem elementares. Queria obrigar todos os moradores da casa, onde a própria vivia, a conviver, só assim se compreende um dos artigos das suas detalhadas leis: a cada fim-de-semana de manhã, todos juntos deveriam tomar o pequeno-almoço e aquele que faltasse à chamada seria incumbido de preparar um jantar aos restantes. Além desta gostei particularmente de uma outra regra: diz a senhora que, depois de se tomar banho, não se deve molhar o chão, e para que todos o consigam fazer aconselha a que limpem os pés ao sair do chuveiro!

Outras casas houve em que M. se deparou com quartos sem mobília, a preços exorbitantes, ou disponíveis em datas incompatíveis… até encontrar um quarto numa casa onde moravam vários alemães. O anterior inquilino deixou-lhe a mobília. As pessoas partilhavam a casa, as regras, mas não a vida e o dia-a-dia. E as regras da vida em comunidade vão, por vezes, a pormenores cómicos: a certa altura, prevendo-se gripes e a maior necessidade de se limpar o nariz, foi recomendado que cada um utilizasse apenas os seus lenços de papel, de forma a não se gastar tanto papel higiénico, que é comprado por todos (inclusive pelos que não estavam constipados!).

Este ano, M. parecia ver o filme repetir-se nas descrições de F., ao final do dia, depois de mais uma etapa na procura de alojamento. Por coincidência, foi também ver uma casa do mesmo senhorio, de meia idade e feitio repulsivo. Invadindo a casa sem prévio aviso, onde já morava uma outra rapariga asiática, o homem mostrou o quarto disponível, muito rapidamente, pois estava com pressa para ir ao supermercado!

Pela expressão de F., o senhorio percebeu que o quarto não acolhia o seu agrado e disse algo como: “eu até tenho outro quarto para alugar e posso mostrar, mas é mais caro. E olhando para a sua cara, pode-se ver claramente que não tem dinheiro para o pagar!”.

Desistindo do irremediável mau feitio e do quarto, F. continuou a busca. Visitou uma casa que parecia habitada por imigrantes clandestinos, tal era a cara de medo e estranheza com que os moradores, quase encolhidos, observavam a estranha invasora.

Depois, F. foi ver a casa de um “artista”, conforme o próprio se apelidava. Com os seus 50 anos, o “artista”, que vivia com a sua namorada ucraniana com metade da idade, alugava nada mais que a dispensa da casa: um espaço minúsculo, ao lado na cozinha, sem janela.

De tão insólitas, as histórias chegam a ser cómicas, para quem as escuta, mas desmotivadoras, por vezes, para quem procura casa! Mas quem procura, acha! E hoje, M. partilha comigo a mesma casa. E F.  encontrou um quarto confortável, acolhedor e simpático, em casa de gente amiga, no centro da cidade. Tudo está bem quando acaba bem.

Glória Sousa

 

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Kommentare: 1
  • #1

    Daniel (Donnerstag, 30 Juni 2016 05:14)

    Amo portugal