Geração charneira

Era dia de São João e estávamos a comer sardinhas num belo terraço sobre o Douro, no meio de alegre confusão. Gritei uma frase em alemão para o meu filho, sentado do outro lado da mesa enorme. Uma amiga, ao meu lado, comentou a brincar: “Já te desmascaraste. Logo agora, que isto estava a correr tão bem”. No café da nossa aldeia, no Minho, o meu marido é conhecido como “o doutor alemão”. Mas este ano, por um curioso lapso a que se juntou o humor, passaram a chamar-lhe “o inglês”. O nosso cão, esse, rapidamente ganhou o cognome “o boche”, devido às suas tentativas de se afirmar no grupo dos cães da quinta.

E quando eu contei ao balcão da loja da terra o que me custou desfazer um ninho com cinco passarinhos que estava dentro do nosso esquentador e, perante a indiferença das pessoas (“oh, pássaros há muitos, deixe lá!”), insistia na cena de cortar o coração que era aqueles bicos tão abertos a pedir comida à mãe, o meu filho pediu-me discretamente que não continuasse a conversa – porque já parecia “os alemães que vêm para cá dar lições”.

É tudo a brincar, é tudo entre amigos – mas a verdade é que este ano houve algo diferente nas nossas férias em Portugal. Perante o ressentimento que as pessoas mostravam ter em relação à Alemanha e aos alemães, experimentámos algum desconforto e uma culpa difusa. Sentíamos que algo nos separava dos outros portugueses. Que responder quando esperam de nós uma tomada de posição primária, sem margem para outras perspectivas? E como conversar com pessoas que estão cheias de medo do futuro, e traduzem a angústia e a impotência em frases insultuosas contra o povo que é também o dos meus filhos e marido?

Ouvi muitos portugueses que, sem se darem conta da ironia, falavam dos alemães como os nazis falavam dos judeus: um povo racista, perigoso e incorrigível, com uma estratégia deliberada para dominar as nações. As conversas acabavam frequentemente no mesmo beco sem saída: “os alemães querem mandar nisto tudo, e nós não temos como nos defender”.

Até que um dia, quando mais uma vez alguém lembrava o Plano Marshall, exigindo que a Alemanha “perdoasse como lhe perdoaram” e que “pagasse o que deve aos outros países”, uma professora de História entrou na conversa e confrontou-nos com questões fundamentais: Que valor damos aos tratados celebrados entre os países? Somos capazes de encerrar determinados capítulos da História, ou queremos realmente fazer contas às dívidas antigas? Nesse caso, convém saber que não são só os alemães – também se pode falar do que a URSS fez na RDA ou, bem mais perto de nós, o ouro que a África do Sul pagou a Portugal por conta do trabalho dos emigrantes moçambicanos, o ouro que os portugueses trouxeram do Brasil, os escravos que levaram para lá, as perseguições aos judeus, e por aí fora até à Batalha de São Mamede. Lembrou ainda o Tratado de Versalhes e o sadismo de o fazer assinar na Sala dos Espelhos, bem como as dívidas acordadas nesse Tratado e impossíveis de pagar, que acabaram por conduzir à Segunda Guerra Mundial; o grau de destruição da Alemanha no fim da guerra; o Plano Marshall, generosamente pago pelos americanos para romper com a lógica perversa do “olho por olho, dente por dente”, e do qual Portugal – que nem tinha entrado na guerra – também beneficiou. Rematou a sua intervenção com um alerta: os passos que as pessoas e as nações começaram a dar na direcção da Paz, no fim da Segunda Guerra Mundial, estão a perder a força. Nós somos uma geração de charneira: está nas nossas mãos continuar o processo de Paz na Europa, ou entrar numa dinâmica que nos levará de volta a um passado que ninguém quer.

Tenho pensado muito nisso: está nas nossas mãos - somos uma geração de charneira.

Que caminho queremos escolher? O que é que cada um de nós pode fazer? O que é que eu vou fazer?

Não tenho todo o poder, mas tenho algum. Desde já, o poder de escolher as palavras que uso para falar dos problemas e dos outros povos. O poder de recusar discursos em que algum povo é diabolizado ou desprezado (como “os alemães imperialistas” ou “os gregos corruptos”). O poder de me informar, de debater e participar. O poder de semear, incansavelmente, pequenos gestos de Paz. Porque os nossos gestos dão sempre fruto, e cabe a cada um de nós decidir que frutos quer semear na Europa.

 

Helena Araújo

Kommentar schreiben

Kommentare: 1
  • #1

    fernando almeida (Montag, 30 Juni 2014 16:52)

    Enquanto geógrafo, casado na Alemanha e esposa enfermeira.... não terei qualquer divida afirmar, que gozou as suas férias, com um certo altruísmo, desdém a roçar o sob.
    Rápidas melhoras, ou então aplico o velho ditado "viu-se o diabo onde nunca se viu, deu um peido e fugiu".... Humildade key word