Der Goldene Käfig

Apesar dos clichés, a Gaiola Dourada foi um filme que me encantou desde o primeiro momento. Enquanto a história ia avançando no écran do cinema, crescia em mim o carinho pelo meu povo, que ali via retratado de forma tão divertida. Esta capacidade do filme nos pôr de bem com Portugal e os portugueses é, em minha opinião, o seu aspecto mais positivo.

Em muitas das cenas imaginei como se sentiriam os franceses ao ver aquela caricatura. Será que começaram a olhar com outros olhos para os portugueses que os servem? E os alemães, que pensarão eles? Sentirão que “Portugal mon amour” tem algo a ver com o seu país? Ou verão esse filme como uma mera comédia sobre realidades distantes da sua?

Uma portuguesa, residente na Alemanha há cerca de cinquenta anos, dizia-me recentemente que ela própria sofreu na pele momentos semelhantes de arrogância, prepotência e até prazer de humilhar as pessoas. Contou alguns episódios, que me deixaram chocada, e revelaram que o filme A Gaiola Dourada podia chamar-se Der Goldene Käfig, e ter sido feito para dar voz aos emigrantes portugueses na Alemanha.

Há mais de vinte anos neste país, só por duas vezes me senti maltratada por ser estrangeira. Tive sorte: vim morar para cá não por necessidade, mas por ter casado com um alemão, fui normalmente aceite pela sua família e o seu círculo de amigos, e arranjei um bom emprego. Muito diferente é a situação de quem vem de outro país para exercer aqui os trabalhos menos valorizados socialmente. As pessoas tendem naturalmente (e infelizmente) a confundir o ser humano com a função que desempenha. E se, a acrescentar a esta tendência, se junta o problema da língua, que impede um melhor conhecimento mútuo, num instante se cria uma situação redutora, na qual o imigrante não interessa como pessoa, e não é considerado para além do trabalho que faz.

Sentir-se maltratado por nacionais do país para o qual se emigrou já é suficientemente difícil. Mas que dizer, quando aqueles que nos tratam com arrogância e falta de respeito são nossos compatriotas?

Há muitos anos, quando vivia no Sul da Alemanha, detestava ir ao Consulado, porque alguns dos seus funcionários tratavam os emigrantes com uma insuportável sobranceria. Desde o oficial do Registo Civil que tratava as senhoras por “filhinha” e “santinha de Deus”, até ao pessoal da secretaria, que não se coibia de fazer comentários depreciativos sobre os utentes dos serviços – e especialmente sobre as mulheres.  

Mesmo na própria comunidade encontramos esse fenómeno. Haverá sempre alguém que fará comentários depreciativos em relação a outras pessoas, apenas porque têm uma profissão menos ou mais vistosa, um qualquer sotaque regional, um maneira de vestir diferente. Apesar de falarmos a mesma língua, comungarmos da mesma História e dos mesmos símbolos nacionais, nem isso impede uns portugueses de olharem para outros com falta de consideração, e de se separarem em grupos.

Como se não bastasse, há o “querido mês de Agosto” em Portugal. O termos depreciativos para nomear os emigrantes (“franciús” e “avecs”, por exemplo), a troça que nem se preocupam em disfarçar, a rejeição dos emigrantes como se se tivessem tornado elementos estranhos ao país. As pessoas que ficaram em Portugal desdenham abertamente – um clássico é citar frases em que se misturam os dois idiomas ou se tropeça na sintaxe, ou sequências do género “Marie, viens ici! Marie, viens ici! Ah, minha esta, minha aquela, se te apanho levas uma solha que vais ver!”. Já me falaram de um estudo que concluía que os emigrantes falam num idioma estrangeiro com os filhos para se armarem e fazerem ver a sua superioridade (não lhes terá ocorrido que os emigrantes falam com os filhos no idioma que estes entendem melhor?).

Em suma: há situações ainda mais dolorosas que as retratadas na Gaiola Dourada, entre franceses e portugueses – são as que ocorrem entre portugueses e portugueses. Será que o nosso povo se organiza por níveis de respeitabilidade, e emigrar implica uma passagem para um nível inferior? Temos de aceitar que nos faltem assim ao respeito?

Que fazer? Não posso mudar tudo, mas posso tentar contribuir na medida das minhas forças. Por estes dias tenho andado muito ocupada a preparar, com um grupo muito heterogéneo de voluntários, a festa de Natal dos Portugueses que vivem em Berlim. Vai ser no dia 8 de Dezembro, na representação da Renânia do Norte/Vestefália. Até lá, serão muitas horas de trabalho, muito cansaço. Mas quando, nesse domingo de Dezembro, vir portugueses de todas as classes sociais a almoçar sentados à mesma mesa, ou a dançar ao som da mesma música, saberei que todo o trabalho valeu a pena.

Helena Araújo