CUIDADO – O mundo é a casa dos segredos e você está na mira do Big Brother

Ou como a realidade ultrapassa a ficção de George Orwell

Com a obra “1984” o escritor britânico George Orwell criou uma ficção intemporal e uma sátira muito válida para os tempos que vivemos. Assange, Snowden e Glenn Greenwald são os “Winston”, o protagonista da obra, e os “O’Brien” os estados, as suas agências e afins activos ou coniventes nos escândalos sobre a desinformação e a devassa da privacidade dos cidadãos deste mundo.

 

 Este é o denominador comum entre Assange, Snowden, Glenn Greenwald e Orwell. Todos eles são os arautos ou da sociedade em que vivemos ou da sua previsão. Passados quase sessenta e cinco anos da publicação de “1984” de George Orwell, este livro icónico imaginou a sociedade em que vivemos hoje - vigiados por câmaras “para nossa protecção”. Não são toleradas críticas e muito menos o jornalismo investigativo e sério a um sistema que desrespeita os valores por que se bateram os revolucionários da Revolução Francesa e os princípios básicos da Carta das Nações Unidas, entre outros. Assange, Snowden e, mais recentemente, David Miranda, companheiro do jornalista Glenn Greenwald do jornal The Guardian, são exemplos vivos deste admirável mundo novo em que vivemos. Um mundo em que todos os nossos actos são visíveis, filmados, comentados e um conjunto de bodes expiatórios, reais ou fictícios, com que nos atiram a provar a necessidade de sermos vigiados para nossa segurança. Vivemos num ambiente de intimidação a que reagimos com uma constante auto-censura. O recente escândalo que foi a revelação pública do programa secreto de vigilância da agência nacional de segurança dos Estados Unidos (NSA) veio lembrar-nos que vivemos numa sociedade vigiada, e isto, no pino do verão, quando muitos “estão a banhos”. E, não tenha dúvidas que - “eles” sabem em que praia você está de férias! A notícia foi uma onda de água gelada que nos sacudiu do torpor de umas férias merecidas. Será que vamos continuar a viver assim, como marionetas, ou que os cidadãos do mundo vão dizer não e lutar contra o “status quo” que nos impõe? Vamos todos deixar os nossos telemóveis, o Facebook, o Twiter, abandonar a Internet e regressar aos tempos em que os nossos movimentos eram menos controláveis? E porque não abandonar as cidades, ir fazer agricultura biológica num monte alentejano e escrever cartas aos amigos em papel com a caneta a deixar marcas da tinta? Quem está disposto a abandonar os amigos virtuais pelos reais, a velocidade cibernética pela lentidão, o estar sempre contactável e localizável por uma ilha deserta, algures no oceano? Será possível voltar a uma vida mais natural, menos plástica, longe do stress do dever de estar em constante “top-performance”?

 

 

No seu tempo, “1984” foi uma profecia acurada do futuro, que é cada vez mais válida. Uma ficção em que as notícias eram filtradas, a história recriada, e em que “2 mais 2 podia ser 3 ou 5 mas nunca 4. Os pontos de partida desta obra de Orwell, em que se inclui a obra anterior “A Quinta dos Animais” foram - os totalitarismos emergentes no início do século passado e as duas Grandes Guerras. “Newspeak, thought-crime, Big Brother, unperson, doublethink” são palavras “orwellianas” que se referem ao poder de o estado deformar a realidade e que entraram na nossa gíria. O romance do autor “1984” pode ser lido como: um sumário das forças que fazem perigar a liberdade e a necessidade de lhes resistir; um romance subversivo, uma obra de protesto contra os truques dos governos, um grito anarquista contra os conformistas com carácter intemporal. Mas também o escritor Primo Levi afirmou num dos seus livros que Hitler contaminou a moral dos seus súbditos recusando-lhes o acesso à verdade. E o que fazem os governantes deste nosso mundo global e os órgãos de comunicação que os apoiam? Numa época em que estranhos têm acesso aos nossos e-mails e escutam as nossas conversas telefónicas por “motivos de segurança”. Reler a ironia incómoda de Orwell à luz dos actuais atropelos aos nossos direitos fundamentais – é assustador! E em homenagem ao sarcasmo muito britânico do autor termino num desabafo: é que “enquanto vos escrevia, o Big Brother se pendurava no meu ombro e...

 

 

 

Big Brother is also Watching You, in 1984 , de George Orwell

 

 

 

Berlim, Cristina Dangerfield-Vogt

 

 

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