Caverna Consular

Soube pelo Portugal Post, edição de Maio, que iam entrar em funcionamento várias “antenas consulares“ para tratar dos assuntos dos imigrantes portugueses na Alemanha.

 

“Antena consular“, soa moderno e eficiente. Infelizmente não passa de uma embalagem enganosa. É o rasgo de génio possível que se espera dos spin doctors e técnicos de marketing do ministério dos Negócios Estrangeiros.

 

Depois de uma breve conversa para o Consulado-Geral em Düsseldorf (consegui a ligação telefónica após 74 tentativas), fui informado por um diligente funcionário que “não temos nada a ver com isso, isso é com o consulado em Estugarda“. Como sempre, tenho durante uns 45 segundos uma quase ilimitada paciência com pessoas que se viram privadas de oxigénio à nascença. Voltei a expor o propósito do meu telefonema, “Claro, entendo“, disse, “afinal faz todo o sentido que as competências da rede consular variem de acordo com o local de residência do utente. Mas eu só pretendo saber o número de telefone da antena consular em Offenbach“. “Já lhe disse: isso é com o Consulado de Estugarda“, veio a resposta.

 

Parece haver uma espécie de lei natural da administração pública que faz com que a educação dos funcionários diminua a cada quilómetro que se afasta da sede do ministério. Sendo o valor base do Ministério dos Negócios Estrangeiros em Lisboa à partida já bastante baixo, o atendimento a dois mil e quinhentos quilómetros de distância pode ser traumático - se nos deixamos envolver. Como dizia Mark Twain, não vale a pena discutir com imbecis (fazem-nos descer ao seu nível e depois batem-nos em experiência). Por isso pus em acção a minha estratégia que alia as vantagens da rede telefónica às de pistoleiro do Faroeste: disse “passou bem“ e desliguei mais rápido do que a minha própria sombra.

 

Mais umas horas de pesca à linha e apanhei uma funcionária do consulado de Estugarda ao telefone. A senhora deu-me a não-informação: „A antena consular não tem telefone“. “Desculpe, a antena não tem telefone?“. A Senhora hesitou uma fração de segundo antes de dizer „Não“. “E-Mail, fax?“, perguntei. Nada. Estive para lhe perguntar porque é que se chamava antena. Se não faria mais sentido chamar-lhe caverna ou poço consular, assim sem telefone, sem fax, sem e-Mail. Mas optei por outra abordagem. Sou jornalista, vou para o terreno, pensei. Pego em mim e vou até à „antena consular“, decidi. Não são mais de 15 quilómetros de minha casa do centro de Frankfurt. Vou lá, ponho-me na bicha e trato do assunto. Erro.

 

Após uma longa espera em frente a um pequeno anexo num pátio interior, tipo galinheiro ao ar livre, coloquei um documento em cima da mesa. A funcionária consular olhou de relance e disse „Ai disso não tratamos aqui“. Revelou ser de uma competência e simpatia de quem está a atender presos num Gulag na Sibéria. Ou de quem tem de trabalhar no anexo de um pátio interior tipo galinheiro ao ar livre.

 

Como jornalista já escrevi sobre traficantes de armas, parcerias público-privadas, políticas económicas e todo o tipo de outras falcatruas menos óbvias. Só escrevi uma vez uma reportagem sobre as representações consulares de Portugal. Foi sobre os serviços consulares portugueses em Kiev, na Ucrânia. Para terem acesso a documentação, vistos e marcações de atendimento, os cidadãos ucranianos tinham que pagar a uma máfia que geria o acesso aos balcões do consulado de Portugal.

 

Passei suficientes almoços, jantares e serões com embaixadores e diplomatas para saber que o mais importante na política externa portuguesa continua a ser o protocolo (“Não se esqueça, o Senhor Presidente gosta da fruta laminada“, “A altura dos sofás poderá vir a constituir um problema“ ou “o Senhor Ministro já viu a estufa de orquídeas da embaixada?“). Quase tão importante como o protocolo é a carta dos vinhos, que dá direito a intermináveis conversas soporíferas sobre vinhos, em geral, e mono-castas ou condições edafo-climáticas dos solos em especial. Na parte da rede consular, o problema faz-se sentir do outro extremo da banda estreita da sociedade portuguesa. A mesma incompetência, mas sem verniz e mal encarada. Mais do que antenas atentas aos problemas dos portugueses fora do país, a rede consular parece uma caverna pública gerida por trogloditas. A máxima é “Não estamos aqui para resolver assuntos, estamos aqui para dar com a moca da burocracia em quem se aproxima do guichet“. Deviam afixar o lema debaixo da bandeira de Portugal para ninguém ir lá ao engano.

 

Miguel Szymanski