Com pedido de publicação

Ao ler a entrevista da Senhora Coordenadora de Ensino na Alemanha, no Portugal Post do dia 08/11/2014, fiquei com a certeza de que “só sei que nada sei”. E passo a explicar:

PP entrevista: Carla Amado
PP entrevista: Carla Amado

No dia 11/07/2014, recebi um telefonema da Dra. Carla Sofia Amado, Coordenadora de Ensino da Alemanha dizendo-me que eu “tinha sido uma das professoras cujo horário tinha sido extinto. A conversa foi breve, muito breve. Ora, estávamos no final do ano letivo, e a partir desse momento nada voltaria a ser como antes. Três dias depois, recebia por escrito do Instituto Camões IC, o que me tinha sido informado telefonicamente. Apenas sei que me foi tirado o chão debaixo dos pés… Naturalmente que acatei (nada mais me restava) e foquei-me no futuro, que era perfeitamente incerto.

O que não posso no entanto acatar e aceitar, é que declarações feitas em formato de entrevista carregadas de “blush”, “baton” e “rouge”, fiquem sem resposta, pois eu fui uma das professoras despedidas no ano letivo 2013/2014. Outra foi a colega Idalina Ioranth do Estado Federado de Baden-Würtenberg.

A Senhora Coordenadora afirma que não houve extinção de postos de trabalho nos anos letivos de 2012/13 e 2013/14. Houve, e é de conhecimento público. Com isto fiquei perplexa. É que a carta que me foi enviada pelo Camões IC, confirma exatamente o contrário e passo a citar: “… a sua comissão de serviço cessa a 31 de agosto de 2014, POR EXTINÇÃO DO POSTO DE TRABALHO.” Em que ficamos? Bem, o sabor do desemprego senti-o na pele, por isso, é a Senhora Coordenadora que não assume os acontecimentos do final do ano letivo 2013/14.


Afirma ainda que a diminuição do número de alunos na Alemanha se deve à Ganztagsschule (atividades na parte da tarde). Seria muito bom que assim fosse, mas todos os Encarregados de Educação e professores, que estiverem a ler estas linhas, sabem bem que isto não corresponde à verdade. Em sete anos de serviço no EPE (Ensino de Português no Estrangeiro), posso afirmar que a percentagem de desistências de alunos pelo motivo acima referido, é mínima, para não dizer, nula. Os alunos abandonam sim, mas por um outro conjunto de motivos:

- A propina, que é o motivo principal;

- os quilómetros que os alunos têm de percorrer para frequentarem as aulas;

- as suas atividades extracurriculares; - o sistema de ensino desorganizado que se atropela em alterações constantes e fora de tempo, ignorando por completo o professor, ator que dá a cara e o seu crédito por este sistema de ensino junto de encarregados de educação e alunos.


No que se refere à propina imposta pelo atual Governo Português através do IC, considerada por muitos uma quantia irrisória, representa para outros o impedimento à aprendizagem e ao conhecimento. Igualmente grave é o uso dado ao valor cobrado. Segundo a Dra. Carla Amado, este destina-se “a apoiar atividades extracurriculares no âmbito dos cursos“. Temo que seja mais uma verdade que se esconde atrás de outras “verdades”. O que sei é que foram distribuídos cartões de estudante sem qualquer utilidade para os alunos, programas em formato de cadernos, a cores e de refinado acabamento, cujo custo se desconhece, muito menos a proveniência desse dinheiro. Poupa-se em salários de professores para depois se gastar em algo de pouca ou nenhuma utilidade.


O que é considerado por muitos como uma quantia irrisória (a da propina), para outros custa muito a pagar. Claro que, quem não contacta diretamente com os encarregados de educação, não tem a noção da realidade nem o conhecimento necessário para a tomada de decisões fundamentais para a prosperidade deste ensino e dos seus atores.


Não adquire o conhecimento absoluto necessário a quem decide sem vivência experimental, muito menos ao telefone, por mensagem ou correio electrónico.

A escola, vive-se, sente-se, discute-se. Tudo coisas evidentes, mas que para os decisores do EPE são fantasmas ou miragens, quer-me parecer, inalcançáveis! Lamento, lamento ser obrigada a ler faltas de verdade e afirmações falsas.


Para terminar, não posso deixar de afirmar que este ensino, onde aprendi e ensinei muito, o Ensino Português no Estrangeiro, é um ensino muito bom, importante, com profissionais de excelência, que não se poupam a esforços, apesar de todas as pedras que lhes são colocadas no caminho diariamente.

Lamento que para os nossos políticos não passe de uma forma de arrecadar dinheiro e que a única intenção seja destruí-lo aos poucos. Para bem de tantos meninos, espero que nunca o consigam concretizar!


Para que dúvidas não restem, gostaria ainda de informar, que o Portugal Post teve acesso à minha carta de despedimento.


"O tempo das verdades plurais acabou. Vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias."-

José Saramago


Com os melhores cumprimentos,

Carla Maria Possacos Moita