Solidão e viver só

Ana Cristina Silva
Ana Cristina Silva

A solidão faz parte da condição humana, em certa medida, nascemos e morremos sozinhos, mas os padrões culturais impunham até há muito pouco tempo como norma o casamento e a vida a dois. Em Portugal, há uma ou duas gerações era impensável sair de casa dos pais para ir viver sozinho, saía-se para casar. Noutros países, no entanto, como por exemplo na Alemanha, é comum  desde há bastante tempo a saída de casa  dos pais por parte de jovens  para viverem em comunidades de estudantes, experimentando a maior parte desses jovens uma autonomia precoce em relação aos pais.  Hoje em dia, mesmo em Portugal, é muito mais frequente  os jovens saírem de casa para viver sozinhos, sendo nessa opção uma escolha e não um constrangimento.

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Liberdade

Vem. Deixa tudo o que planeaste para o dia de amanhã e vem. Não são os teus planos que garantem a sobrevivência do mundo. Depois destas paredes, há campos, rios, montanhas, planícies, desertos; depois deste tecto, há o céu e o sol. Se vieres agora comigo, o mundo não vai acabar. Os prazos podem esperar, a vida não.

Vem. Temos todos os oceanos para atravessar. Temos momentos suspensos no futuro, à espera que cheguemos para resgatá-los: um suco de açaí a caminho da mesa onde havemos de nos sentar no Leblon, uma massagista tailandesa a aquecer os pulsos e a espalhar óleo nas mãos que se vão dirigir às nossas costas, sol em Miami, neve em Estocolmo, chuva grossa e regeneradora em São Tomé, bagos gordos de chuva a rebentarem na terra fértil de São Tomé. Não encontro motivos para querermos menos do que o máximo com que podemos sonhar.

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Portugal de A a Z em 30 anos de viagens

Alemanha, Frankfurt am Main

Na velha Franckeschule, uma escola primária no bairro de Bockenheim, desço as escadarias de pedra a correr, depois de levar a minha filha à sala de aulas, onde se estreou nas lides escolares no mês anterior.

Atrasei-me um pouco, o edifício está já vazio e silencioso. Um vulto desvia-se no último lance de escadas quando vou a descer. Não dou atenção, como sempre, já estou a ficar atrasado para o dia de trabalho na redacção junto à Westbahnhof. Só registo que é alguém com uma esfregona na mão. De passagem, ouço um “Desculpe” em voz suave, quase imperceptível. ‘Desculpe’?, ‘desculpe’, em português, não me enganei, foi isso que ouvi? Viro-me para trás, vejo uma mulher, ainda jovem, com ar cansado. Falou em português e só por isso apetece-me abracá-la. Passa das nove da manhã, mas esqueço as horas e o atraso para falarmos. Conta-me que começou às quatro da madrugada a limpar escritórios no centro de Frankfurt, levou o filho com ela, que ficou a dormir ao pé da mãe, enquanto a mãe trabalhava, e às sete foi pô-lo no infantário para começar as limpezas na escola. Como todos os dias vai ter de trabalhar até às dez da noite. O impecável mundo alemão também são lágrimas de Portugal.

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A minha admiração pelo Portugal Post

O Portugal Post é o único jornal em língua portuguesa para a nossa comunidade na Alemanha. E já existe há 23 anos, para grande benefício de todos. Ao longo do tempo foi resistindo às dificuldades, às incompreensões e até às injustiças. Mas continua ativo e dinâmico, e é isso o mais importante.

Tive a oportunidade de visitar oficialmente a redação do jornal e falar com o seu diretor, Mário Santos, no passado dia 19 de Fevereiro em Dortmund. Foi um ato de modesto reconhecimento da importância que o jornal tem para a comunidade portuguesa na Alemanha.

Ouvindo as pessoas e as instituições, creio que muitas vezes a nossa comunidade não percebe bem a importância de ter regularmente, todos os meses, um jornal que lhes leva informações úteis e temas de reflexão sobre como os portugueses se inserem no país, sobre assuntos nacionais ou relacionados com a vida das comunidades, que lhes dizem diretamente respeito e que, portanto, deveriam suscitar o seu interesse.

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Cuidado com as ratazanas

Crónica ::: Miguel Szymanski

Miguel Szymanski
Miguel Szymanski

Dizem que há muitos anos as ratazanas eram magras e tinham fome. Mas já ninguém se lembra desses tempos. Ou éramos nós que éramos grandes e fortes ou ainda sonhávamos que o pudéssemos vir a ser? As ratazanas nunca perguntaram se isto ou aquilo era de alguém, de ninguém ou de todos. Foram devorando tudo o que lhes aparecia pela frente. Com o passar do tempo, engordaram. As mães ratazanas estão sempre prenhes.

 Na cidade, à superfície, os edifícios mais ricos são fachadas ligadas por passagens debaixo da terra. É por aí que andam as ratazanas. Mas as ratazanas já há muito que não correm só pelos túneis sob as cidades.

 Agora as ratazanas são prósperas. Vivem em sítios murados e em terrenos com cancelas, de preferência com fontes, piscinas e spas, uma coisa que lhes ficou do tempo dos esgotos. As ratazanas são predadores. Gostam de ter estátuas de humanos, das suas presas, a enfeitar os jardins e salões. As suas vítimas deixam-se enganar pelas cores e formas e o brilho, vêem palácios cor-de-rosa, palacetes brancos com colunatas, portões imponentes, jardins e relvados. Sonham sair dos seus casebres sem luz onde vivem como ratos. As vítimas não vêem a rede de canalização que liga todos os edifícios da cidade das ratazanas, os tesouros que acumulam nas cloacas, latrinas e sentinas. As fachadas têm rampas com entradas blindadas, para as ratazanas poderem entrar e sair, em coches e carros de vidros escurecidos, sem serem vistas quando se querem misturar entre as pessoas para escolher as suas vítimas e servos.

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Não são esses os meus quatro costados

Crónica de Miguel Szymanski

Como europeu dos quatro costados (avô português mais avó meia catalã, meia alemã; avô austríaco de ascendência polaca mais avó da comunidade alemã checa) esta Europa começa, outra vez, a meter-me medo. Claro que a Europa dos meus quatro costados já passou por pior. A minha avó paterna dizia-me que tinha mudado três vezes de país à força das armas sem sair da cidade onde nasceu (Pilsen, actual República Checa). O meu avô paterno, médico, passou anos a trabalhar com serras de ossos num hospital militar em Viena. A minha outra avó tomava conta das crianças no jardim de casa com uma arma automática em cima da mesa, para se defender em caso de ataque, enquanto o meu avô comandava uma companhia de soldados famélicos.

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Cavaco Silva, o perturbador

Cavaco Silva, o mais impopular presidente  desde o 25 de Abril, realizou ontem  um discurso à nação  inaceitável do ponto de vista da legitimidade democrática.  O que está em causa não é a indigitação de Passos Coelho como primeiro-ministro, mas as considerações posteriores  do presidente que serviram de justificação a essa indigitação.

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Campanha eleitoral - O embuste  

O que parece contar hoje em dia na democracia é a capacidade económica para se pagar a agências de comunicação. De facto, deixaram de se discutir ideologias, opções políticas – nesta campanha eleitoral quase não se abordaram os constrangimentos do tratado orçamental, a questão da dívida, a justiça, a falência do sistema de saúde ou a qualidade da escola pública -  passando a campanha  a incidir sobre  fait divers – veja-se o ruído à volta do cartazes do PS ou a discussão sobre  quem realmente trouxe a troika para Portugal – ou sobre o passado. É a eficácia das mensagens simples, repetidas até à exaustão que mais parece influenciar a tendência de voto dos eleitores, mesmo que sejam pura e simplesmente mentiras.  O descaramento atingiu nesta campanha níveis inenarráveis quando, por exemplo, a coligação de Passos e Portas que só não cortarem de forma definitiva pensões de mil euros porque o tribunal constitucional não o permitiu, se apresentam ao eleitorado como os verdadeiros defensores das pensões dos portugueses.

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Caverna Consular

Soube pelo Portugal Post, edição de Maio, que iam entrar em funcionamento várias “antenas consulares“ para tratar dos assuntos dos imigrantes portugueses na Alemanha.

 

“Antena consular“, soa moderno e eficiente. Infelizmente não passa de uma embalagem enganosa. É o rasgo de génio possível que se espera dos spin doctors e técnicos de marketing do ministério dos Negócios Estrangeiros.

 

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VEM? Foge!

Sempre que penso que os governantes em Portugal não podem cair mais baixo, lá vem nova surpresa. Desta vez o alvo somos nós, emigrantes. Depois de terem exortado a juventude a emigrar (para enviar remessas) e apelado para a ajuda dos emigrantes de longa data (para enviarem remessas), eis que a aproximação das eleições produz novos exemplos para o que todos já sabemos: a prioridade dos nossos políticos é a apenas uma, a reeleição.

 

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Texto de opinião do Embaixador de Portugal em Berlim

“Tenho muito orgulho na minha Comunidade”

Felicito o Portugal Post pela iniciativa de me dar a oportunidade de, no momento em que completo três anos do meu mandato como Embaixador de Portugal na Alemanha, partilhar, de forma muito franca e tão completa quanto possível, com os leitores algumas reflexões sobre a nossa acção, em particular nas matérias consulares mas também juntando breves notas relativas ao ensino da nossa Língua na Alemanha e revelando novidades na área cultural. Sei que me será dada a ocasião para voltar em breve às páginas do Portugal Post para fazer um balanço de carácter mais geral, com enfoque, dessa vez, mais na acção política e económica destes três anos do meu mandato.

 

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Der Goldene Käfig

Apesar dos clichés, a Gaiola Dourada foi um filme que me encantou desde o primeiro momento. Enquanto a história ia avançando no écran do cinema, crescia em mim o carinho pelo meu povo, que ali via retratado de forma tão divertida. Esta capacidade do filme nos pôr de bem com Portugal e os portugueses é, em minha opinião, o seu aspecto mais positivo.

 

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O monstro escapou ao seu criador

Todos nós, face ao caos financeiro que se abateu sobre Portugal, estamos um pouco confusos com a situação atual do país e com as reformas que a troika nos impõe e que ameaçam o nosso bem-estar. Gostaríamos de perceber o que mudou na economia real, e que tem vindo a levar à falência país atrás de país, nesta velha Europa que já foi senhora do mundo.

 

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Uma porta de saída chamada Portugal

Pouco depois de ter deixado a Universidade, encontrei rapidamente um emprego. Tratava-se de um trabalho em condições precárias, é verdade, com um salário pouco maior que o mínimo nacional, pago a recibos verdes.

 

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CUIDADO – O mundo é a casa dos segredos e você está na mira do Big Brother

Ou como a realidade ultrapassa a ficção de George Orwell

Com a obra “1984” o escritor britânico George Orwell criou uma ficção intemporal e uma sátira muito válida para os tempos que vivemos. Assange, Snowden e Glenn Greenwald são os “Winston”, o protagonista da obra, e os “O’Brien” os estados, as suas agências e afins activos ou coniventes nos escândalos sobre a desinformação e a devassa da privacidade dos cidadãos deste mundo.

 

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Geração charneira

Era dia de São João e estávamos a comer sardinhas num belo terraço sobre o Douro, no meio de alegre confusão. Gritei uma frase em alemão para o meu filho, sentado do outro lado da mesa enorme. Uma amiga, ao meu lado, comentou a brincar: “Já te desmascaraste. Logo agora, que isto estava a correr tão bem”. No café da nossa aldeia, no Minho, o meu marido é conhecido como “o doutor alemão”. Mas este ano, por um curioso lapso a que se juntou o humor, passaram a chamar-lhe “o inglês”. O nosso cão, esse, rapidamente ganhou o cognome “o boche”, devido às suas tentativas de se afirmar no grupo dos cães da quinta.

 

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Alemanha

Guia de bolso dos preconceitos contra os alemães

Os alemães são todos ricos - falso. O país é rico, mas também na Alemanha existem a pobreza e a marginalização. O que funciona melhor do que noutros países é a distribuição da riqueza: ao contrário do que se passa em Portugal, por exemplo, o fosso que separa os ricos dos pobres não atinge as dimensões de país do Terceiro Mundo. Uma sociedade civil activa e uma população politicamente engajada souberam evitá-lo, pelo menos até agora.

 

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Uma odisseia:

Procurar casa na Alemanha

Poderei apelidar de odisseia: um carrossel de peripécias, quase anedóticas, que muitas vezes dão tanta vontade de rir como de entrar em desespero. Procurar alojamento na Alemanha, ou pelo menos em Bona, é assim, um capítulo imprevisível, improvável, inigualável até.

 

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Portugal abandonado

A emigração é decerto um mal. Porque aqueles que se oferecem mostram ser, por essa resolução, os mais enérgicos e os mais rijamente decididos; e num país de fracos e de indolentes, é um prejuízo perder as raras vontades firmes e os poucos braços viris.

Palavras publicadas no dia 8 de Dezembro de 1871, nas “Farpas” de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão. Pareceu-me oportuno repeti-las aqui, tendo em conta o debate em torno da “nova” emigração portuguesa.

 

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O fadinho do emigra

Em finais de Outubro, a comunicação social e as redes sociais portuguesas encheram-se de ternura comovida por um jovem enfermeiro de partida para a Grã-Bretanha, onde conseguira um contrato de trabalho.

 
Antes de partir, Pedro Marques, de 22 anos, escreveu uma carta aberta ao Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, lamentando o seu destino de emigrante. Foi o que bastou para se tornar numa celebridade
instantânea: deixou despedaçados todos os corações (virtuais) de quem tem conta no facebook e fez derramar lágrimas (de crocodilo?) a muito jornalista sem melhor que fazer.



 

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Portugueses na Alemanha

Nem heróis nem mártires....  

- ou: a necessidade de rever os discursos sobre a e/imigração   



Para o ano que vem (2014) , completam-se 50 anos da celebração do acordo de angariação de mão de obra entre a Alemanha e Portugal. Parto do princípio de que, à semelhança do que já aconteceu com outras comunidades migrantes (italianos, turcos), também a comunidade portuguesa na Alemanha não deixará passar essa data desapercebida e irá procurar formas dignas de a assinalar e celebrar.
Para que a celebração desse aniversário seja ocasião de algo mais do que um simples „acto oficial“ a realizar num qualquer „salão nobre“ das instituições deste ou do nosso país de origem, proponho que se comece desde já a reflectir e a fazer o balanço destes 50 anos de imigração portuguesa na Alemanha, perguntando-nos o que é que de facto queremos celebrar e se há ou não razões para festejar...



 

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