Entrevista: Nuno Crato

O Ministro da Educação fala ao Portugal Post

Foto: Gonçalo Silva
Foto: Gonçalo Silva

...sobre os objectivos e as esperanças da sua visita em Berlim no âmbito da assinatura de um protocolo de entendimento sobre ensino profissional dual.

 

O ministro da educação e ciência, Nuno Crato, assinou em 5 de Novembro, um protocolo de entendimento sobre a cooperação no âmbito do ensino vocacional com a sua homóloga alemã Annette Shavan. Com este importante passo pretende-se reforçar o ensino profissional existente em Portugal e criar condições para acentuar a vertente de prática nas empresas. O sistema dual de formação profissional existente na Alemanha, que é conhecido e reconhecido internacionalmente, irá servir de paradigma para uma aplicação adaptada às realidades do ensino e da população estudantil em Portugal, e também às características do mercado de trabalho no nosso país. O Portugal Post falou com Nuno Crato sobre os objectivos da sua visita e as esperanças que leva consigo, a que não faltou um “crash-course” de dois dias sobre o ensino profissional dual na Alemanha.

 

 

 
PP: Senhor Ministro, como se pretende adaptar o sistema dual de formação profissional a Portugal?

N.C.:Em primeiro lugar queremos conhecer melhor o sistema alemão. Não queremos fazer uma adaptação imediata mas queremos explorar uma série de aspectos que existem no sistema alemão e que nos parecem positivos e ver como se pode adaptá-los a Portugal. A questão de fundo é a seguinte: sabemos que em Portugal existe muito desemprego jovem, alguma desadaptação entre o mercado de trabalho e a formação dos jovens. Ou seja esta relação pode ser melhorada, não esquecendo a formação geral dos jovens nas matérias fundamentais.

 

 PP: Para quando está prevista a transposição deste sistema à realidade portuguesa?

N.C.: Não sei se vamos transpor exactamente este sistema. Temos já em Portugal um sistema de ensino profissional que tem cerca de um terço dos jovens do ensino secundário. Começou este ano uma experiência piloto de ensino vocacional que é um pouco anterior ao secundário e que começa no 10º ano de escolaridade, e a nossa experiência começa um pouco antes, com jovens de 13, 14 anos. Tanto esta experiência do vocacional como do profissional são experiências que vão todas no mesmo sentido e que, além da formação prática, pretende responder às necessidades dos jovens e permitir-lhes uma entrada mais directa e mais rápida no mercado de trabalho.

 

PP: O ensino vocacional em Portugal também tem uma componente na empresa tal como o sistema alemão ou funciona apenas na escola?

N.C.: O que existe até agora funciona essencialmente na escola. Embora tenha algumas componentes nas empresas mas não de forma sistemática. O ensino vocacional tem contacto com várias profissões que é feito em parcerias com empresas, mas este ensino dual alemão com alternância escola/empresa, em que a empresa tem um papel essencial, não existe em Portugal.

 

PP: Podemos dizer que seria um sistema revolucionário para Portugal. Até para as próprias empresas formadoras porque poderiam, deste modo, veicular aos formandos a própria filosofia da empresa. Aliás, suponho, que esses jovens até seriam exportáveis para a Alemanha no caso de fazerem uma formação profissional que siga alguns parâmetros do sistema alemão!

N.C.: Para a Alemanha, outros países e mesmo em Portugal. Não está isso em causa. O importante é dar uma oferta adicional que lhes permita entrar mais directamente em contacto com aquilo que é necessário e de valor numa profissão. A nossa preocupação não é imitar ou não imitar o modelo alemão, mas sim desenvolver em Portugal um modelo de ensino vocacional que pode ter componentes como o alemão ou não os ter. Trata-se de adicionar uma oferta e dar mais capacidade de sucesso a esta oferta.

 

 PP: Então poderíamos dizer que se trata de um reforço do sistema já existente. 
Qual é “de facto” a contribuição alemã?

N.C.: Estamos a começar! A contribuição alemã é sobretudo de apoio técnico. Ficou decidido hoje que vamos constituir um grupo de trabalho que se vai reunir em Portugal muito em breve e que vai explorar os aspectos técnicos do ensino profissional alemão e a possibilidade da implementação de alguns desses aspectos em Portugal. É um grupo técnico em que vai haver empresas, necessidades do mercado de trabalho, profissões, curricula, enfim todos os aspectos necessários para a formação deste sistema. O que é que foi mais visto com a ministra Shavan além da criação deste grupo de trabalho e da declaração de interesse em cooperar nesta matéria? Vamos estar presentes numa conferência que terá lugar em Berlim em Dezembro onde vão estar vários outros países interessados neste ensino vocacional e vamos explorar outras formas de cooperação, nomeadamente científica. Esta primeira reunião foi exploratória mas que foi muito bem-sucedida neste aspecto em termos práticos porque já sai desta reunião um grupo de trabalho para fazer propopostas para o ensino profissional, já saem ideias em relação à cooperação científica e já saiu este nosso compromisso de participar nesta reunião em Novembro.

 

 PP: Estamos então a falar de um encontro “think-tank”?

N.C.: Sim, mas um “think-tank” pouco diletante e muito prático! Estamos já a pensar o que fazer com a especificidade portuguesa para o desenvolvimento do ensino profissional em Portugal.

 

 PP: Suponho que a Alemanha disponibilizará técnicos que serão consultores. Pergunto quem irá financiar estes técnicos?

N.C.: De momento, o funcionamento deste grupo de trabalho e destas actividades bilaterais que estão agora a ser desenvolvidas são financiadas pelos dois estados. Mas a nossa ideia é que se possa criar a nível europeu um grupo que possa utilizar fundos europeus, visto tratar-se de uma preocupação europeia, para desenvolver o ensino profissional

 

 PP: Há uma dotação de 55 mil milhões de euros do FSE exactamente para apoio aos jovens desempregados do designado “club-med”, não é?

N.C.: Sim, mas queríamos ser mais específicos e falar mesmo do ensino vocacional. Existe ainda outro aspecto importante desta nossa reunião e que é ser nossa intenção fazer um intercâmbio não só de experiências, mas também de professores e alunos.

 

 PP: Também tinha essa pergunta mas mais especificamente relacionada com os luso-descendentes. Como é que eles poderiam participar num programa desses visto eles serem uma espécie de ponte entre culturas, falam alemão e português, conhecem bem o sistema dual na formação profissional – logo eles seriam sem dúvida uma mais-valia para a implementação do sistema de ensino profissional dual em Portugal!

N.C.: Os filhos, os netos dos portugueses que vivem na Alemanha são a ponte cultural entre os países muito importante e serão sem dúvidas os primeiros a serem convidados neste tipo de parcerias e entre eles estarão alguns dos mais interessados. Conheço relativamente bem a situação dos imigrantes porque tenho uma filha que nasceu fora e um filho que foi criado fora de Portugal e eu sei que os descendentes dos portugueses emigrados são habitualmente os jovens entusiastas pelo conhecimento e pelo contacto com a cultura do país de origem dos pais. Portanto os luso-descendentes serão os primeiros candidatos a este intercâmbio.

 

 PP: Isto seria uma forma de aproveitar as sinergias existentes, seria talvez a mensagem de esperança a Portugal. Quem fará o interface entre os ministérios alemão e português?

N.C.: As equipas técnicas são dos dois ministérios. Porém serão coadjuvadas por membros da Central alemã de Cooperação Internacional no âmbito do Ensino Profissional do BIBB e do equivalente em Portugal que é a ANQEP (agência nacional para a qualificação e o ensino profissional).

 

 PP: Já existe uma lei-quadro para este projecto?

N.C.: Existe uma lei-quadro do ensino profissional.

 

 PP: Mas sem a componente do ensino profissional dual, suponho?

N.C.: Não, não existe, mas está previsto em decreto-lei o ensino vocacional e ofertas equivalentes de ensino profissional. Há abertura legal para a criação destas ofertas. Enfim, isto não é uma coisa nova, mas sim algo em que andamos a falar desde que chegámos ao governo.

 

 PP: Portanto, na prática, estamos a falar da diversificação do ensino?

N.C.: Sim, da diversificação das ofertas de formação profissional. Mas estamos mais interessados em falar das experiências concretas do que fazer já leis sobre o assunto. Vamos começar pelos aspectos práticos.

 

 PP: A Câmara de Comércio e Indústria luso-alemã (CCILA) já oferece o sistema dual de ensino profissional na sua página na internet para o ano lectivo 2012-2013.

N.C.: Sim, e a CCILA também será um dos parceiros a chamar para estes grupos de trabalho e de discussão técnica.

 

 PP: Já houve algum contacto com empresas em Portugal para conseguir postos de trabalho, estágios para os formandos?

N.C.: Há empresas que à partida se manifestam interessadas neste tipo de ensino profissional.

 

 PP: Como é que vê a receptibilidade dos portugueses a um ensino que foge ao ensino académico tradicional e que não tem por fim a licenciatura num canudo?

N.C.: Há evidentemente pessoas que terão o que eu chamo de preconceito intelectual contra o ensino profissional mas a realidade encarregar-se-á de mostrar que ter mais ofertas é bom, e que muitos jovens gostarão de utilizar estas ofertas.

 

 

 

Entrevista exclusiva de Cristina Dangerfield-Vogt


 

Para o Portugal Post - Berlim