À conversa com Jeremy Irons

Estreia Mundial do filme “O Comboio Nocturno para Lisboa” em Berlim

O filme Night Train to Lisbon de Bille August estreou mundialmente na 63ª edição da Berlinale. Estiveram presentes o Presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, o Embaixador de Portugal em Berlim, Luís de Almeida Sampaio, o realizador e alguns dos actores. Jeremy Irons, Bruno Ganz, Jack Huston, Charlotte Rampling, Martina Gedeck, entre outros, são o elenco europeu de luxo deste filme, não esquecendo a participação dos actores portugueses Nicolau Breyner e Beatriz Batarda. O filme foi quase todo rodado em Lisboa e é uma adaptação do best-seller, “O Comboio Nocturno para Lisboa” de Pascal Mercier. O filme estreia nos cinemas de Berlim no dia 7 de Março.




 

Recensão - O Filme

Night Train to Lisbon gerou muitas expectativas. Não apenas por ser uma adaptação de um romance filosófico difícil mas, e sobretudo, pelo nome do realizador que lhe aceitou o desafio e também pelo elenco de actores europeus escolhido. Sem dúvida que é uma boa adaptação ao cinema e uma interpretação bem conseguida das ideias filosóficas que constroem o livro. Porém, haverá quem possa sentir alguma irritação face à interpretação pouco ortodoxa e livre de Bille August. Embora o realizador não siga o enredo do livro passo a passo, ele consegue transmitir bem ao público as complexas ideias filosóficas presentes na obra de Mercier. O realizador usou de uma arrojada liberdade
artística: fez uma interpretação muito pessoal da obra e acelerou o ritmo da jornada, conseguindo, desta forma, criar um filme mais acessível ao público. Mas a irritação inicial passará ao fazer-se uma leitura aprofundada do livro “Nachtzug nach Lissabon”. Bille August conseguiu transmitir magistralmente para a tela o ambiente de mistério e as questões filosóficas que Raimund e Amadeu contemplam nas suas
vidas: as suas reflexões sobre Deus, a vida, a jornada e a partida existencial de ambos, em diferentes tempos históricos. O realizador arrisca o balanço entre a obra literária e o filme quando ousadamente acrescenta episódios inexistentes no livro: a portuguesa que reaparece como neta do Carniceiro de Lisboa, Mendes, ou relacionamentos que passam a ser mais definidos e visualmente mais fortes (Raimund/Mariana e Amadeu/Estefânia) enquanto suprime um outro, fundindo-o neste último (Maria João/Amadeu). O recurso ao voice-over para as tiradas filosóficas de Amadeu, separa o tempo presente de Raimundo do tempo passado de Amadeu: da ditadura, de Salazar, da PIDE, do Tarrafal, da tortura. No livro Amadeu morre em 73, no filme o seu funeral é no dia da revolução de Abril – o que provocará mais associações e lembranças à audiência. O livro de Amadeu é o leitmotiv, o fio condutor, deste filme. Raimund descobre o livro, Um Ourives das Palavras, em sítios diferentes, no livro e no filme. Este foi o meio escolhido pelo realizador para reduzir e arredondar o início da história, isto é, lançar os dados da intriga, para a seguir nos ir desvendando o puzzle desta história, por camadas, enriquecendo-o visualmente e conferindo- lhe um passo mais rápido. No filme, o fim é formalmente diferente da obra do filósofo, mas prevalece na sua essência o carácter indefinido do futuro do protagonista e narrador Raimund (Gregorius).Night Train to Lisbon é também um passar de bilhetes postais da Lisboa antiga, estilo Viewmaster interactiva. Uma Lisboa em sépia numa perspectiva do passado e uma Lisboa colorida pelos olhos de um turista; Lisboa vista por um estrangeiro, numa perspectiva camusiana, o que poderá criar estranheza aos lisboetas porque se poderão sentir estranhos na sua própria cidade. Mas é também uma Lisboa que apaixona e a que a voz de Maria de Carvalho e o som do Trio Fado em pano de fundo, em algumas cenas, traz ao público a melodia da língua portuguesa tão presente na obra de Mercier – no que foi, sem qualquer dúvida, um pormenor bem pensando por Bille August.




 

O Portugal Post no Hotel de Rome em Berlim:


À Conversa com Bille August

  Bille August não é um estranho no mundo da adaptação de obras literárias ao cinema. Foi o realizador de “The House of Spirits” e “Fräulein Smillas Gespürr für Schnee” entre muitos outros filmes que realizou. A musicalidade da língua portuguesa está muito presente no livro. Contudo neste filme ela quase desaparece porque “por razões de financiamento da produção escolheu-se o inglês” – disse-nos o realizador. “Para compensar decidi que os actores falariam com sotaque português”. “É difícil transpor para filme a mistura de questões filosóficas e a profunda narrativa da história.” Por isso Bille teve que decidir sobre “o tipo de filme, qual é a jornada e o que é a história, e excluir o supérfluo. O filme é sobre algo que falta na vida de Raimund. É sobre pessoas que vivem paixões e fazem citações filosóficas que reflectem as suas vidas.” “ A literatura é muito mais intelectual do que o cinema, que é um meio de expressão mais emocional, e o que fizemos foi procurar citações do livro que reflectissem a vida de Raimund em determinadas cenas. O voice-over foi o meio que encontrámos de reflectir a vida interior das personagens e de fazer avançar a história, senão teríamos que parar e dividir o filme em duas partes.” Sobre a escolha dos actores disse sentir que “havia uma certa química entre Jeremy e Martina e a audiência queria o Jim”. Jack Huston “é um actor de cenas históricas que consegue convencer que um rapaz daquela idade podia escrever daquela forma”.  
“Devido à crise há muitos edifícios abandonados. Filmámos a escola num edifício colonial abandonado”. No livro a história de amor entre Raimund e Mariana é apenas sugerida mas “no filme ela serve para mostrar como ele se abre emocionalmente e Mariana é quem pode mostrar que ele ainda está vivo”.
Bille adora a língua portuguesa mas “o problema foi que não podíamos financiar o filme em português. Vi vários filmes portugueses sobre a revolução, que eram bons filmes, mas que nunca foram vistos fora de Portugal. Por isso, pensei que se fizéssemos o filme em inglês isso abriria o mundo a Portugal, e penso que Portugal merece isso mesmo!”Projectos futuros: já está a fazer o casting nos EUA para um filme a rodar a partir de Maio, Junho.




 

À Conversa com Jeremy Irons

 

“Não uso gravata” disse Jeremy aparecendo no seu kaftan maoísta.  
Gostou de voltar a trabalhar com Bille August, de quem é amigo. Diz que ele é um realizador que sabe o que quer, calmo e concentrado, muito sensível e amigável e que não gosta de trabalhar em ambiente tenso. Quanto a Raimund “ele não é particularmente atraente. É um homem que se acha maçador, esvaziado por um casamento infeliz. A sua mulher disse-lhe que ele é maçador, enfim, ele parece mesmo maçador!  
Em Raimund tudo é pequeno. É uma pessoa normal, sem carisma e foi isso que tentei criar. É difícil - quando se é alto e ainda se tem cabelo!  
Eu nunca me escolheria como Raimund. Teria procurado alguém que esteja a perder o cabelo e seja barrigudo!”
É difícil dissociar Jeremy das personagens de outros filmes, como em the Lieutenant’s Woman, The House of Spirits, Damage. Raimund é muito mais fraco no livro do que Jeremy no filme. “As ideias filosóficas do livro são interessantes, mas não se pode fazer um filme apenas sobre ideias filosóficas. O ambiente do livro está bem transposto para o filme. Mas livros e filmes são animais diferentes”. Jeremy sublinhou ainda que muitas vezes “os livros falam aos nossos pensamentos do subconsciente que não verbalizámos”. Raimund joga xadrez consigo próprio num cúmulo de solidão - uma imagem poderosa logo no início do filme.

  O actor nunca se ligou a um livro como Raimund. “Mas eu parto no comboio nocturno sempre que faço um filme. Comecei no teatro porque queria viver fora da lei, das regras. Queria ser cigano, trabalhar no circo ou no teatro. O meu primeiro trabalho no teatro foi uma aventura, nunca tinha feito teatro, mas gostei e fiquei. Mas nunca fiz como Raimund, criar uma nova personagem. Quem faz isso na vida real?  
Mas muitos o quererão!” “Raimund é definitivamente suíço, não poderia ser mais distanciado do Portugal revolucionário. Aborrecido e seguro, um país em que nunca houve uma revolução e não participou nas duas grandes guerras.”
Jeremy Irons esteve em Lisboa para as filmagens do filme The House of Spirits e naquela altura apenas dera um salto a uma discoteca no centro da cidade. Desta vez viveu no Palácio da Bela Guarda no Castelo. “Fui confrontado por uma Lisboa diferente: a das colinas, dos eléctricos, das fachadas deterioradas, das pequenas pessoas idosas a viver em casas degradadas e dos mercados e dos pequenos restaurantes.  
Foi maravilhoso, muito mais romântico e apaixonei-me pela cidade, seriamente.”
  Jeremy é também um activista pelo meio ambiente. Participou recentemente no filme Trash. “ “Lixo é um problema que nos afecta a todos. Há mais plástico no mar do que plâncton e por isso temos que mudar os nossos hábitos. As pessoas vão ver Trash porque eu estou no filme. Sinto que é um dever contribuir para a mudança de atitudes no mundo, mais do que contar histórias que podem ser agradáveis para as pessoas individualmente mas que não vão mudar nada no mundo!”
  Projectos futuros: para breve um filme com Emma Thompson.


 

À conversa com Jack Huston

  Jack Huston foi Amadeu e por isso nunca contracena com Jeremy Irons – “andámos sempre desencontrados em épocas diferentes do mesmo filme”.
Jack é um actor jovem, com um palmarés considerável, e que começou no teatro como é de tradição em Inglaterra. Contou-nos como foi falar com o sotaque de uma cultura que desconhecia totalmente. “Quando se pensa no sotaque não se consegue trabalhar, tem que se ganhar confiança na fala da personagem que se vai interpretar e só depois começar a rodar”.

Para ele foi um desafio fazer Amadeu, entrar-lhe na pele. “Gostei muito da obra, especialmente da personagem Amadeu porque ele é um filósofo e um pensador. E nós próprios começamos a reflectir sobre as mesmas questões. Ele é um revolucionário do espírito. A sua revolução era a de Deus e da vida.”

Amadeu é diferente de Jack mas ele admira-lhe o carácter, a sua sensibilidade e humanidade. “Ele pensa e filosofa sobre grandes temas da vida”. Mas Jack diz que não teria salvo a vida de Mendes, o agente da PIDE no filme. “Amadeu foi coerente com o seu dever de médico de salvar vidas. Isso é algo de incrível e difícil e foi interessante entrar nessa pele.” Diz ter sido um projecto maravilhoso. “Por vezes foi difícil porque as pessoas tinham ideias fixas sobre a personagem.”
Huston vem de uma família de actores e realizadores. “Tenho orgulho na minha família, mas consegui fazer um nome por mim próprio”. Diz ser um nómada e que é um pouco de todo o mundo. “Gosto muito de ler. O meu avô (Walter Huston) dizia que cada filme que fazia era uma adaptação de um livro e dizia-me para eu ler, ler muito.”
  Projectos futuros: Jack está a trabalhar na adaptação de um livro ao cinema.



Cristina Dangerfild - Vogt