Entrevista: Tiago Fleming Outeiro, Professor e Director do Departamento de Neurodegeneração da Universidade de Göttingen

A notícia divulgada na edição online do PORTUGAL em que dava conta que uma equipa internacional de cientistas, liderada pelo português Tiago Fleming Outeiro, Professor      e Director do Departamento de Neurodegeneração da Universidade de Göttingen tinha constatado que duas proteínas, associadas à doença de Parkinson, interagem e reagem a mutações genéticas, uma "chave" que pode abrir portas a possíveis tratamentos contra a patologia foi uma das razões para solicitar uma entrevista ao jovem cientista português residente em Göttingen.

(Entrevista publicada na edição do PP em papel no mês de Setembro 2014)

 

  

Desde quando é Professor na Universidade de Göttingen?

Tiago Outeiro: Oficialmente, sou Professor em Göttingen desde Outubro de 2010.

  

E porquê Göttingen?

Tiago Outeiro: Bom, eu recebi um convite da Universidade de Goettingen para esta posição de Professor Catedrático na Universidade de Goettingen, e para dirigir o Departamento de Neurodegeneração. Na idade que tinha, esta posição era muito atractiva, não só por ser uma posição com grande prestígio mas, principalmente, por ser numa Universidade reconhecida internacionalmente pela excelência da ciência que desenvolve. Até à altura, não tinha nunca tido a oportunidade de trabalhar na Alemanha, apesar de reconhecer a qualidade da ciência e dos investigadores, por isso foi uma honra ser convidado para esta posição, e um desafio que decidi aceitar.

 

Em que área exerce a sua actividade?

Tiago Outeiro: A nossa investigação é na área das neurociências e, em particular, na área das doenças neurodegenerativas, como Alzheimer, Parkinson, ou outras doenças menos conhecidas mas que, no seu conjunto, afectam um número muito grande de pessoas por todo o mundo.

 

Os avanços que se fazem na investigação da doença de Parkinson podem suscitar esperanças na descoberta de formulas terapêuticas. Que esperança podem ter os pacientes com esta doença?

Tiago Outeiro: Sem dúvida que os avanços devem servir de sinais para os doentes, familiares, e cuidadores terem esperança e confiança de que estamos a fazer grandes progressos. Não podemos, infelizmente, por um prazo para o desenvolvimento de uma cura, algo que todos gostaríamos de poder oferecer. Mas pensamos que os avanços nos vão permitir ser capazes de ir tratando a doença cada vez melhor, até conseguirmos então fazer o que todos esperamos, que é evitar e tratar a doença.

 

Vai continuar por quanto mais tempo em Göttingen?

Tiago Outeiro: A posição que tenho é permanente, por isso poderei ficar muitos anos, se houver interesse e vontade de ambas as partes. Neste momento sinto-me muito bem na Alemanha, e em Göttingen, por isso não tenho prazo para sair. No entanto, gostaria de regressar a Portugal, tendo boas condições para desenvolver trabalho de qualidade, como acontece em Goöttingen neste momento.

 

Sabemos que passou por vários países, mas como estamos na Alemanha gostaríamos de colocar a questão sobre as diferenças que vê  no campo da investigação entre Portugal e a Alemanha, nomeadamente na sua área.

Tiago Outeiro: Em Portugal evoluímos muito nos últimos anos, e temos pessoas tão competentes como na Alemanha, EUA, ou outros países. A diferença para mim é que aquilo que chamamos de “massa crítica”, isto é, o número de investigadores a trabalhar numa determinada área, é bastante superior. E isto faz uma grande diferença. Em ciência, precisamos de interagir com colegas com conhecimentos diferentes e complementares, para podermos chegar mais longe. Em Göttingen isto tem sido extremamente proveitoso, pois tenho muitos colegas a fazer boa investigação com quem temos colaborado.

Assim, algo que será importante voltar a fazer em Portugal é atrair mais investigadores de qualidade para aumentar a massa crítica de investigadores. Claro que sabemos que o país está numa situação difícil, mas será importante manter este objectivo a médio prazo.

 

Que apreciação faz da Alemanha? Isto porque, como sabe, há em Portugal a ideia de que a Alemanha é um país de gente fria que olha para os países do sul com alguma superioridade. Em suma, como vê a Alemanha e os alemães?

Tiago Outeiro: Até agora posso dizer que a experiência tem sido muito positiva. Tenho conhecido muitos Alemães com quem desenvolvi amizades, e isto faz-me sentir bem acolhido. Claro que há excepções, mas não tenho razões de queixa até ao momento.

A verdade é que aprecio o rigor e seriedade profissional dos Alemães, pois facilita o trabalho e a produtividade. No entanto, também tenho percebido que os Alemães também falham, como é natural, e há alguns um pouco presos às regras, o que para nós, latinos, por vezes surpreende, pois a nossa flexibilidade permite-nos solucionar certas questões com maior agilidade.

 

Tem ligações ou contactos com a portugueses na Alemanha?

Tiago Outeiro: Sim, sem dúvida. Por um lado, tenho vários estudantes de doutoramento Portugueses no meu grupo, que quiseram vir fazer a sua formação na Alemanha.

Por outro lado, tenho conhecido muitos outros estudantes, por toda a Alemanha, através de um grupo que se chama ASPPA, e que junta os estudantes de pós-graduação Portugueses na Alemanha, no sentido de formar uma comunidade que se aproxima depois de Portugal, tentando levar de volta aquilo que de bom se aprendeu na Alemanha.

 

Por último, pensa que trazer experiência no campo da investigação do estrangeiro pode ajudar a desenvolver as capacidades nos vários domínios da ciência em Portugal ou acha que Portugal não oferece possibilidades aos investigadores que se decidiram pelo estrangeiro?

Tiago Outeiro: A ciência é uma actividade global, e os investigadores em Portugal estão todos ligados aos seus colegas no estrangeiro, seja na Alemanha ou noutros países. A ciência vive do intercâmbio de conhecimento e formas de funcionar, e o que podemos ambicionar é ir aproveitando o que existe de bom em países/sistemas diferentes para aperfeiçoarmos o sistema em Portugal.

Actualmente, pela conjuntura económica, Portugal é menos atractivo, pois os financiamentos são menos abundantes. Mas Portugal tem muito boas condições para continuar a ser atractivo para investigadores estrangeiros, em várias fases das suas carreiras. Devemos aproveitar o que temos de bom para potenciarmos a nossa capacidade de atrair financiamentos estrangeiros para nos tornarmos ainda mais competitivos.

Mário dos Santos

 

 

 

 

 

Tiago Outeiro formou-se em Bioquímica na Universidade do Porto e foi estudante de Erasmus na Universidade de Leeds, no Reino Unido. De seguida, Tiago fez a sua tese de doutoramento no Whitehead Institute for Biomedical research – MIT, onde também trabalhou como Investigador. No FoldRx Pharmaceuticals trabalhou como Investigador e Consultor.Foi vice-Presidente, Presidente e chairman da PAPS durante a sua estadia nos EUA.

Foi pós-doc no Departamento de Neurologia do Hospital Geral de Massachusetts - Harvard Medical School, onde se concentrou no estudo de doenças neurodegenerativas, como Parkinson e doença de Alzheimer.

Tiago é o Director da Unidade de Neurociência Celular e Molecular do Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa, onde o seu grupo estuda a base molecular de doenças neurodegenerativas associadas com misfolding de proteínas, com o objectivo de desenvolver novas terapias. É também professor convidado de Fisiologia da Faculdade de Medicina de Lisboa. Actualmente, Tiago é Professor e Director do Departamento de Neurodegeneration and Restorative Research (http://www.neurodegeneration.uni-goettingen.de) no Centro Médico Universitário de Göttingen, na Alemanha.