Entrevista: Maria Teresa Cabral

 

Maria Teresa Crawford Cabral é uma pintora portuguesa residente na Alemanha.

 

Residente em Dortmund desde 1985, Teresa Crawford Cabral, é membro da Liga Deutscher Werkbund. Das exposições que fez, destaque-se aquela que realizou em 2008 no Centro das Artes Casa das Mudas, Calheta, Madeira, intitulada A Mãe das Mães. Pintura e Desenho de Maria Teresa Crawford Cabral, que agora se apresenta no Sintra Museu de Arte Moderna - Colecção Berardo. Recorde-se que parte da sua obra foi, entretanto, adquirida, pelo coleccionador Comendador José Berardo.

 

Em 2008, iniciou a docência da cadeira de desenho de modelo na Ruhrakademie (Academia de Artes, Design e Cinema), em Schwerte.

 


 

PP- Descobre o seu talento para a pintura quando chega à Alemanha ou já sabia desta sua inclinação antes de vir morar para Dortmund?

 


 

Teresa Cabral: - Não -  Foi antes de vir para a Alemanha.  Pelo contrário, na Alemanha, para ganhar a vida, tive que interromper o percurso iniciado em Portugal e vocacionado para a arte. Eu já vinha com uma formação artística de 4 anos  no Ar.co, em Lisboa, instituição de grande prestígio artístico e que toda a gente ligada au „métier“ conhece. Aí fui formada por João Hogan, Manuel Costa Cabral entre outros conhecidos nomes da arte em Portugal. Para além disso a minha licenciatura em Filosofia na Faculdade de letras de Lisboa, não foi, como se poderia pensar, um desvio relativamente à arte. Pelo contrário, a Filosofia forneceu-me desde logo a substância reflexiva dos meus conteúdos artísticos. Na Alemanha formei-me depois em Design Gráfico, reatando assim o caminho  no qual me encontro.

 


 

PP- E como começou ?

 


 

 Teresa Cabral:: - Comecei com a minha avó. A minha avó pintava e desenhava. Eu era muito pequenina e ela deixava-me usar os pincéis, os lápis, tintas e papel, enquanto ela ia fazendo as suas ilustrações de contos. Como eu gostava muito da minha avó, aquilo para mim era o paraíso e uniu-nos muito. Pouco depois, e em idade ainda pré-escolar, fui para Angola com os meus pais. A minha avó permaneceu em Lisboa. Ora como eu não sabia escrever, as minhas cartas eram desenhos. A necessidade de comunicar desafiou-me...creio que foi logo aí que tomei a decisão de ser pintora, ainda que o meu percurso depois não tenha sido nada linear, mas sinuoso.

 


 

PP-  Começou por desenhar ou pintar que motivos?

 


 

 Teresa Cabral: -  Bom, enquanto criança é claro que pintei motivos infantis. Depois de adulta e formada, foi a figura humana que veio preencher o centro da minha actividade pictórica: A figura humana com tudo o que ela revela e esconde, nas fisionomias, nos gestos, nas atitudes. Há toda uma actuação subtil no que fazemos e que se torna visível quando é captada por um cenário pictórico. Entretanto animais e seres imaginados fazem também parte do meu repertório.

 


 

PP-  E quando começa acreditar no seu talento? Como apurou e trabalhou  a sua técnica?

 


 

 Teresa Cabral: - Eu costumo dizer que as minhas primeiras peças válidas se constituem na série que intitulei „Os treze Pretlonistas“ de 2001 e que se encontra hoje na Colecção Berardo. É claro que antes disso há anos de trabalho. Mas só a partir de 2001 é que os resultados são dignos de ser apresentados em público. Quanto à pergunta sobre a técnica: apura-se no próprio acto de „fazer“ e exigir continuamente mais do que se „faz“.

 

Tive um excelente professor de desenho na Fachhochschule de Dortmund, o Prof. Peter Freese. Isso foi também significativo para o meu percurso.

 

PP-  Após uma visita à sua obra, a Teresa tem ali, algures, uma fase abstracta. Estava ainda a procurar o seu “destino”?

Teresa Cabral: ...Não completamente abstracta, se observar bem verá que há sempre fragmentos de realidade e que os protagonistas são pessoas animais e objectos. O Mário pergunta-me se eu estava „ainda a procurar o meu destino“ … Eu penso que não há um destino no sentido estilístico ao qual julgo que se refere. Um artista está sempre a receptar novos estímulos e a recriar-se num processo de auto-poêsis que se reflecte no seu trabalho. ...A menos que se tenha desinteressado pelo universo no qual age! A ideia de que um artista tem de se fixar num estilo para que seja original e como tal reconhecível, é na minha opinião, errónea. Quando isso acontece não se trata de um estilo mas sim de uma receita. Quando o Botero pinta repetidamente com traço ingénuo figuras gordas, ou quando Niki de Saint Phalle modela as suas bailarinas obesas e coloridas estão ambos, na minha opinião, a servirem-se de uma receita e não a dar testemunho de um estilo. Estilo é uma coisa muito mais complexa e subtil. Definir o estilo é tarefa de terceiros, não do próprio, e resulta de estudos a-posteriori de aperfeiçoamento dos elementos comuns de uma época, de um movimento ou de um artista no interior da sua obra.


PP-  A sua obra é fértil em pinturas sobre mulheres. Retrata-as como se cada uma delas tivesse muitos “lados” e vários rostos. Será assim?


Teresa Cabral: - É curioso o Mário observar isso. De facto a mesma observação fez o coleccionador Joe Berardo que por esse mesmo motivo denominou a exposição da minha obra „A Mãe das Mães“,  entendendo-a como uma homenagem à Mulher e citando explicitamente com este título uma canção de Martinho da Vila.

É comum perguntarem-me porque é que eu pinto sobretudo mulheres. Na verdade não sei dar resposta a isso. Talvez o facto de eu própria ser mulher facilite o acesso aos recônditos do seu ser. Agrada-me essa sua ideia dos „vários lados e vários rostos“!


PP-   Há também nessas mulheres muita dor e sofrimento. Será? Que mensagem quer passar?


Teresa Cabral:  - Ainda bem que me faz essa pergunta, porque assim tenho a oportunidade de referir uma questão básica da minha atitude enquanto pintora. É no que diz respeito à intenção: Eu não quero „passar mensagem“ nenhuma. Eu gostaria que, a partir da intensidade por mim depositada no acto de pintar, se revelasse por si o que está oculto. Nas palavras de Paul Klee, „ A arte não reproduz o visível, torna visível“.

Para além disso há ainda o plano do observador que põe sempre no que vê algo do que ele próprio é. Assim, se o Mário vê sofrimento nessas mulheres, talvez o sofrimento esteja em si. Talvez outros observadores vejam nas tais mulheres serenidade e distância. Há uma amálgama de três planos na apreensão de um quadro: o quadro, o autor e o observador. Nenhum destes planos é mais sábio do que o outro.


PP-   Na sua obra retrata também mulheres com animais Quer distanciar-se dos homens?


Teresa Cabral: - Se eu me quero distanciar dos homens? Não, eu sempre gostei muito da proximidade dos homens.

Julgo que é por também os animais serem cheios de alma, se é que posso falar assim. E talvez excelentes arquétipos, o que permite a concentração de simbologias. Aliás os Homens não estão excluídos dos meus trabalhos, são é raros.


PP-   A Teresa tem já uma vasta obra, aliás reconhecida em Portugal. Em 2008 o conhecido coleccionador José Berardo adquiriu a sua obra  particular. Onde é que se encontra exposta?


Teresa Cabral:  - Neste momento não se encontra exposta. Houve duas grandes exposições: uma de Maio de 2008 a Janeiro de 2009 na Casa das Mudas, aquele Centro de Arte lindíssimo da autoria do arquitecto Paulo David, na Madeira. A outra exposição, de Novembro de 2010 a Março de 2011 foi no Museu de Arte Moderna em Sintra e ocupou também toda a área expositiva.

Neste momento a obra encontra-se nas Reservas da Colecção Berardo. Nem tudo o que pertence à Colecção está exposto. Uma grande parte da colecção de arte está guardada e só virá a público quando o proprietário o achar pertinente.  


 PP-  Sem dúvida que tem um traço e filosofia muito originais. No entanto há qualquer coisa em si que nos faz lembrar a Paula Rego. Concorda?


 Teresa Cabral:  -  Eu julgo que isso se deve ao momento histórico que a arte está a viver, e não tanto a uma semelhança exclusiva e explícita entre a minha modesta obra e a dessa grande pintora que é a Paula Rego.

Estamos a viver uma época de ecletismo na arte -  várias posições da arte moderna coabitam sem conflito. Isto vai desde a Arte enquanto Acção, ou Interacção, Instalação, Objecto, Fotografia, Video etc. até à Pintura. Dentro das tendências emergentes da pintura há uma que sinaliza  elementos comuns: a necessidade da figuração, associada à dispensa de lógicas espaciais, temporais e outras; e a necessidade de narrar, contar histórias, associada à completa isenção de dados explicativos. É aqui suponho que o Mário vê as nossas semelhanças. Esta tendência é tão actual que ainda não tem nomenclatura no sistema. Estou convencida de que Hermenêuticas futuras farão dela um „Estilo“.


PP -   E na Alemanha tem também conseguindo o êxito que adquiriu em  Portugal?


Teresa Cabral:  - Não. Aliás no que diz respeito ao „êxito em Portugal“, também aí é preciso ter cuidado  para não se cair em inexactidão: apesar de duas longas exposições em excelentes museus, creio que o grande público português também não me conhece. Não estou representada em Portugal em Galerias, nem fui integrada nos circuitos artísticos nacionais.


PP-    Está prevista alguma exposição para um futuro próximo?


Teresa Cabral:  - Que eu saiba não; no que diz respeito à obra que pertence à Colecção Berardo, não tenho qualquer influência sobre isso.


PP-   Então como é que o público em geral e  do PP em particular a poderá conhecer?


Teresa Cabral:  - Por um lado há o catálogo que foi publicado pela ocasião da primeira exposição e, se não se esgotou, deve poder ser adquirido através da própria Fundação Berardo. Por outro , através da internet, por exemplo na Saatchi online o meu trabalho está bem representado. Mas sobretudo, e para quem vive na Alemanha, saiu recentemente uma publicação que está à venda em algumas  livrarias e, online, através da Amazon ou buchhandel.de.



Título: Assoziieren und Konkretisieren -Maria Teresa Crawford Cabral

Werkauswahl 2012


Frischtexteverlag

ISBN 978-3-933059-12-3


Nesta publicação com 132 páginas e cerca  de 65 reproduções de quadros  estão sobretudo representadas as minhas peças recentes, de 2008 a 2012.